Como (e quando) preparar a criança pequena para a volta às aulas

Especialistas recomendam o retorno, desde que feito com segurança, mas alertam que será preciso fazer uma adaptação semelhante à da mudança de escola

O retorno à escola pós-pandemia de Covid-19 ainda está cercado de incertezas no país, mas os médicos alertam de que é preciso começar a levar o assunto a sério, especialmente para as crianças pequenas. “Houve uma adaptação, mas o isolamento social segue refletindo negativamente na saúde mental delas e não poderá ser mantido por muito tempo”, alerta Roberto Santoro, coordenador do Grupo de Trabalho sobre Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

A SBP defende a volta, desde que os devidos protocolos de segurança sejam respeitados. Entre os argumentos, as alterações de comportamento notadas na pandemia, a falta de contato com pessoas da mesma idade numa época em que isso é muito importante e a própria segurança das crianças – milhões vivem em situação vulnerável, e contam com a escola para se desenvolver adequadamente. 

“Em nenhum país as crianças ficaram longe da escola por tanto tempo, por isso estamos defendendo a volta, mesmo que a pandemia não esteja totalmente controlada”, aponta Fausto Flor Carvalho, pediatra, chefe do Departamento de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria de São Paulo. 

Do outro lado, entidades apontam para o risco de novos surtos de Covid-19 provocados pelo retorno, como ocorreu em Israel. A experiência internacional, aliás, também traz pistas de que é possível voltar com segurança. E algumas cidades brasileiras já reabriram suas creches e escolinhas. Veja o que considerar antes de enviar os filhos para elas.

Que criança deve voltar à escola? 

Primeiro, vale dizer que as portadoras de doenças autoimunes, como retocolite, doença de Chron, e as que tratam um câncer não podem retornar. “Além disso, as crianças que moram com parentes portadores de imunodeficiência, que tomem medicamentos que interfiram no sistema imunológico ou sejam portadores de câncer devem ficar em casa”, aponta Carvalho. Veja aqui quem são e como proteger as crianças que fazem parte do grupo de risco. 

“Para famílias com portadores de hipertensão, diabetes, pressão alta ou obesidade, o ideal é balancear a decisão com o médico”, complementa Carvalho. Se os adultos que convivem com a criança são saudáveis e, especialmente se os pais já voltaram a trabalhar, aí pode ser o caso de considerar o retorno. 

“Elas acabam ficando com pessoas terceirizadas, às vezes até parentes no grupo de risco, ou em ambientes improvisados, que não favorecem o seu desenvolvimento ou não seguem os protocolos de segurança”, aponta Carla Maia, psicóloga e especialista em desenvolvimento infantil da Escola Cores, no Rio de Janeiro. 

Pais que decidirem enviar os filhos para a escola precisam estar cientes dos riscos e benefícios deste retorno. “Não existe uma escolha certa, existe a decisão consciente”, comenta Luciana Brites, psicopedagoga do Instituto NeuroSaber, em Londrina/PR.

Como preparar a criança psicologicamente 

Se a família está bem em casa e não se sente segura para mandar o filho para a escola, tudo bem. “Neste caso, explique que tem medo do vírus e demonstre suas inseguranças de maneira clara e sincera, apropriada para a idade”, ensina Luciana. Optando por voltar, os pais devem se preparar antes das próprias crianças. 

“Se o pai estiver ansioso, perguntando sem parar se o filho ficou de máscara, fez isso, fez aquilo, pode transmitir sua ansiedade para a própria criança”, destaca Luciana. Crianças pequenas são, afinal, crianças pequenas, e dificilmente você terá 100% de certeza de que ela seguiu todas as regras o tempo todo. 

Fazendo as pazes com esse fato, é hora de preparar a criança. Só faça isso quando o retorno for oficial, porque as expectativas frustradas podem acabar tendo efeito negativo também. Poucos dias antes, explique que a escola já está pronta para reabrir, que ela irá reencontrar os amiguinhos, diga que o risco de ela ficar doente é baixo, mas é preciso tomar alguns cuidados (os pais são o melhor exemplo nesse sentido) e realize atividades lúdicas reforçando as medidas de proteção. 

Também é importante conversar sobre as emoções e expectativas da própria criança, para ver se ela está com medo de se separar dos pais ou do próprio coronavírus. Se ela apresenta resistência em voltar, não force a barra. “Nesse momento, eu respeitaria e tentaria entender os motivos, dando tempo para que ela assimile o fato de que passará por uma nova mudança”, destaca Luciana. 

A escola será fundamental para dar apoio nesse momento, com o envio de atividades ensinando as novas regras, orientação aos pais e um retorno gradual, mais ou menos como o do início numa nova escolinha. “Os pais dificilmente conseguirão fazer sozinhos essa transição”, destaca Carla.

“E nós precisamos estar preparados porque a criança irá trazer seus próprios traumas do período, algumas tiveram regressão de comportamento, perderam entes queridos…”, elenca a psicóloga. A prefeitura de São Paulo anunciou que contratará psicólogos para atender as crianças da rede pública quando as aulas voltarem. 

As escolas privadas também estão se mobilizando com profissionais de saúde mental. Vale checar se é o caso da sua.

Sinais de que a criança não está lidando bem 

O apoio multidisciplinar é importante pois a criança pode não entender bem o retorno. “Muitas lidaram com essa situação toda regredindo seu comportamento, então podemos antecipar que algumas apresentarão ansiedade de separação, que é o sofrimento pelo distanciamento físico dos pais”, ensina Santoro. 

Nesse quadro, a criança chora muito ao ficar longe dos pais, reluta em ir para a escola, pode ter pesadelos e sente medo enquanto está longe. Além disso, outros sinais indicam que ela pode não estar lidando tão bem com a mudança brusca de rotina. Entre eles, alterações no sono e no apetite (para mais ou para menos), diarreia, crises de birra, irritabilidade, retraimento social. 

É até normal ter um pouco disso tudo no começo. “Mas, a partir do momento que passa a atrapalhar a vida da criança e causa sofrimento prolongado, é preciso procurar orientação profissional”, pontua Santoro. 

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