Mais de 700 grávidas e puérperas brasileiras morreram de covid-19 em 2021

Em apenas cinco meses, este ano já ultrapassou o número de mortes maternas registradas durante todo o período de pandemia em 2020.

Por Alice Arnoldi Atualizado em 31 Maio 2021, 13h07 - Publicado em 28 Maio 2021, 17h26

Em 1984, na Holanda, institui-se o Dia Internacional da Luta pela Saúde da Mulher, durante o debate no Tribunal Internacional de Denúncia e Violação dos Direitos Reprodutivos. Na época, um dos assuntos em vigor foi a mortalidade materna, produzindo um efeito dominó em outros países que passaram a olhar com atenção à temática. Este foi o caso do Brasil que, mais tarde, passou a considerar 28 de maio como o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna.

Em tempos comuns, a data surge como reforço de que casos de falecimento materno podem ser reduzidos por meio do acolhimento físico e emocional da mulher desde o pré-natal até o puerpério. Entretanto, desde 2020, gestantes e puérperas brasileiras vivem a dolorida realidade de serem grupo de risco da covid-19, com números preocupantes de óbito devido a doença.

De acordo com a última atualização do Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19, no dia 26 de maio, 453 mulheres destes dois grupos foram vítimas da covid-19 em 2020 e não resistiram. Já em 2021, este número de óbitos saltou para 751, em apenas cinco meses.

“A média de óbitos semanal em 2020 é 10,07 por semana (453 óbitos em 2020 por 45 semanas epidemiológicas). Em 2021, a média de óbitos por semana é 37,55 por semana (751 óbitos em 2021 por 20 semanas epidemiológicas). Logo, há um aumento de 273% na média semanal de 2021 quando comparado com a média de óbitos semanal de 2020″, relata o levantamento.

  • Os reflexos da falta de acesso e preconceitos

    Ainda de acordo com o documento que combina as bases da SIVEP-Gripe de 2020 e 2021, dois pontos refletem diretamente nos números preocupantes de mortes maternas em decorrência da covid-19: a impossibilidade de acesso à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e a ausência de suporte respiratório quando necessário.

    Quem reforça isso é o Conselho Nacional de Saúde, que também baseia-se no relatório. “Os dados do observatório mostram que uma em cada cinco gestantes e puérperas mortas por covid-19 (23,2%) não chegaram a ser admitidas em UTIs e, em um terço das mortes (33,6%), elas não foram entubadas”.

    Junto com a falta de acesso aos serviços básicos de saúde para sobreviver diante da covid-19, o Conselho também levanta outro ponto que corrobora para os casos de falecimento: a desigualdade social. Em um estudo brasileiro, publicado no periódico da Oxford Academic, pesquisadores relataram que mulheres negras têm sido mais afetadas pela pandemia e não só em números. Elas são internadas com quadros mais avançados da doença, precisando de tratamento em unidades intensivas e ventilação mecânica.

    “Nossos resultados mostraram que a mortalidade materna em mulheres negras devido à covid-19 foi quase duas vezes maior do que a observada em mulheres brancas. Isso se soma às observações anteriores dos Estados Unidos e do Reino Unido de que negros e outros grupos de minorias étnicas estão lutando para sobreviver à gravidez e ao período pós-parto com coronavírus”, declara os estudiosos.

    Portanto, assim como reflete a pesquisa, a pandemia tem mostrado que o Brasil não deve repensar apenas medidas tomadas mediante à covid-19 para reduzir os números de morte materna. Mas toda a sua a estrutura social que impede que tais recursos cheguem a todas as mulheres que estão vivendo a gestação e o puerpério neste crítico momento.

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