Estudo mostra crianças em maior risco de complicações graves da Covid-19

É muito raro que os pequenos precisem de UTI, mas ter uma doença crônica pré-existente parece aumentar essa probabilidade. Entenda.

Por Chloé Pinheiro Atualizado em 4 jun 2020, 10h52 - Publicado em 4 jun 2020, 10h49

Crianças portadoras de doenças crônicas importantes, como diabetes e obesidade, podem estar em maior risco de terem versões graves da Covid-19, a ponto de precisarem da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para se recuperar da infecção. É o que sugere um novo estudo publicado no JAMA Pediatrics, importante periódico científico. 

A pesquisa, feita pela Universidade Harvard e outras instituições, monitorou as admissões de 46 UTIs pediátricas dos Estados Unidos durante cerca de vinte dias. Nesse período, 48 pacientes com idades entre zero e 21 anos foram internados com o novo coronavírus. 

Entre as complicações apresentadas por eles, necessidade de ventilação mecânica, a síndrome multi-inflamatória sistêmica e falência de órgãos. 

Mais de 80% tinham algum transtorno pré-existente, como males cardíacos, diabetes, condições autoimunes, câncer e obesidade. Dois adolescentes, com 12 e 17 anos, faleceram, ambos portadores de doenças já conhecidas. Entre os que tiveram alta, o tempo médio de internação foi de 5 dias sob terapia intensiva e 7 dias no hospital. 

Na análise dos autores, apesar de jogar luz sobre a gravidade da Covid-19 em crianças, a baixa mortalidade é um achado positivo do trabalho. Entre os menores, a taxa de óbitos foi de 4,2%. Para se ter ideia, na UTI dos adultos esse índice pode chegar a 60%. A incidência de falência respiratória também foi mais baixa. 

“Crianças com doenças crônicas estão em maior risco, mas é importante notar que nem todas cabiam nessa categoria, o que indica que os pais devem continuar levando o vírus à sério”, declarou à imprensa o pediatra Lawrence Kleinman, autor do estudo e professor da Rutgers Robert Wood Medical School. 

Sem sintomas respiratórios 

Mais de 70% dos pequenos e adolescentes incluídos na pesquisa tiveram os pulmões afetados pela Covid-19. Entretanto, os cientistas notaram que um número ‘relevante’ de participantes tinha pouco ou nenhum sintoma respiratório. 

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Nesses casos, as crianças apresentaram primeiro alterações na circulação do sangue, convulsões ou crises relacionadas aos problemas prévios que elas já tinham, como a cetoacidose diabética (quando o corpo não produz insulina o suficiente) e a vaso-oclusão provocada pela anemia falciforme (quando os glóbulos vermelhos se embolam e formam um coágulo). 

Quadros crônicos, mas controláveis e com pouco impacto na autonomia e na qualidade de vida da criança, como o diabetes, exigem atenção, mas os autores destacam que as doenças mais associadas às versões graves da infecção eram as ‘clinicamente complexas’.

Em outras palavras, aquelas que exigem tratamentos longos, visitas constante a hospitais, procedimentos cirúrgicos e uso de dispositivos, como respiradores, marcapassos etc. Entram nessa categoria ainda doenças genéticas e que provocam atrasos no desenvolvimentos.

Gravidade do coronavírus nos pequenos 

Acompanhar as notícias sobre a Covid-19 é assistir aos especialistas trocarem o pneu com o carro andando, como dizem os próprios médicos nas entrevistas. As crianças são um exemplo clássico disso.

Se antes a doença provocada pelo novo coronavírus parecia poupá-las totalmente, hoje se sabe que elas podem sim desenvolver complicações graves, como reforça este novo estudo. Vale dizer, contudo, que é bem raro que isso aconteça.

Ainda é consenso que a grande maioria dos casos é leve e até mesmo assintomático. Os relatos da síndrome multi-inflamatória sistêmica, quadro que mais preocupa os médicos até agora, estão na casa das centenas (lembrando que temos mais de seis milhões de casos da infecção no mundo). 

  • Nos Estados Unidos, o Centro de Controle de Doenças reportou até agora 122 mortes dos zero aos 24 anos de vida. Aqui no Brasil, o Ministério da Saúde registrava, até o dia 23 de maio, 64 mortes entre os zero e cinco anos por Síndrome Respiratória Aguda Grave decorrente de Covid-19. 

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