Covid-19: crianças são mais contaminadas por familiares do que em creches

E mais: o estudo francês também defende submeter os pequenos a testagens invasivas apenas quando houver confirmação de contaminação familiar próxima.

Por Alice Arnoldi Atualizado em 10 fev 2021, 15h45 - Publicado em 10 fev 2021, 15h43

Durante um ano de pandemia, a comunidade médica também teve a sua atenção voltada para casos de coronavírus em crianças. Só que a situação não foi tão alarmante para os pequenos, já que eles não fazem parte do grupo de risco da doença. Entretanto, com o retorno gradativo das aulas presenciais, especialmente das pré-escolas e creches, pais questionam sobre a possibilidade de transmissão nos locais dada a dificuldade de colocar em prática os protocolos de higiene entre os menores. Para isso, estudos têm sido um caminho para prever as as formas de contágio dentro das instituições de ensino.

Este é o caso da pesquisa conduzida por profissionais do Hospital Jean-Verdier, em parceria com a prefeitura de Paris e da localidade de Seine Saint Denis, publicada no periódico científico Lancet. Inicialmente, o objetivo era descobrir a prevalência de anticorpos contra covid-19 entre crianças e funcionários das creches. Mas a análise dos dados coletados levou a uma conclusão diferente: crianças menores tendem a ser mais contaminadas pelo vírus por meio de familiares do que nas creches. 

Para que os pesquisadores chegassem a este resultado, foram examinadas 22 creches francesas que permaneceram funcionando durante a quarentena na França, entre os dias 15 de março a 9 de maio, para que pais que trabalham com serviços essenciais pudessem continuar na ativa. Tais dados coletados foram comparados aos de profissionais de saúde de um hospital em que não tiveram contato direto com pacientes positivos para covid-19 ou crianças.

Dentro das creches, as principais medidas de higiene para prevenir a contaminação contra o coronavírus são similares as que presenciamos no Brasil. São elas: distanciamento social, uso de máscaras, grupos restritos de crianças e profissionais, sistema de medição de temperatura e afastamento daqueles que apresentavam possíveis sintomas do coronavírus.

  • O processo do estudo

    No intervalo estipulado pela pesquisa, 1.008 crianças frequentaram as creches levadas em consideração. Entretanto, apenas pais de 327 permitiram sua participação no estudo. Elas tinham entre cinco meses e quatro anos de idade e a maioria era do sexo masculino (51%). Já os profissionais da creche somavam um total de 724 envolvidos. Entretanto, apenas 197 decidiram integrar a análise.

    Para descobrir se os participantes da pesquisa estavam contaminados, foram realizados os exames de swab de nasofaringe e também de fezes – este segundo coletado por meio dos resíduos na fralda das crianças ou testes anais quando permitidos pelos pais.

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    A descoberta foi surpreendentemente baixa. Das 327 crianças, apenas 14 testaram positivo para covid-19, apresentando sintomas leves ou ainda sendo assintomáticas. O mesmo número de contaminados foi apontado entre os funcionários das creches.

  • Os resultados demandam uma atenção para as testagens

    Ainda que os números do público infantil e dos profissionais de educação sejam idênticos, a pesquisa enfatiza que as crianças contaminadas não faziam parte da mesma creche – 13 estavam espalhadas entre as 22 instituições analisadas, indicando que as infecções de criança-criança ou criança-equipe não são as mais comuns.

    Havia apenas um caso em que dois bebês frequentavam a mesma instituição, entretanto, a passagem do vírus de um para o outro não fazia sentido já que frequentavam locais diferentes dentro das creches – e, consequentemente, tinham contato com profissionais de bolhas separadas.

    Assim, percebeu-se que a contaminação por covid-19 entre os menores mostrava-se mais provável pela convivência com um dos pais contaminados ou outro familiar que também apresentava sintomas da doença.

    “Os presentes resultados indicam que crianças pequenas não são propagadores de SARS-CoV-2 e que creches não são os principais focos de contágio viral. A transmissão intrafamiliar foi mais plausível do que a transmissão em creches”, detalha a conclusão do artigo.

    Com esta afirmação, os autores também defendem a indicação de que menores só sejam submetidos aos exames mais invasivos de coronavírus quando houver a confirmações de pais ou familiares próximos que tenham testado positivo para a doença.

    “A detecção de uma criança PCR-positiva ou soropositiva em uma creche não significa que todas as crianças devam ser testadas. O rastreamento de contatos e os testes de triagem devem começar com os pais, outros membros adultos da família e a equipe da creche”, finaliza o documento.

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