Bebê com covid-19 teve carga viral 51 mil vezes maior que o normal

Ao analisarem o genoma do vírus no pequeno, os médicos de Washington identificaram uma nova variante, não encontrada em outros recém-nascidos.

Por Flávia Antunes 25 fev 2021, 17h09

Com um ano de pandemia, órgãos médicos do mundo inteiro tendem a concordar em classificar as crianças como o grupo de menor risco de contrair a covid-19, tendo em vista que na maioria das vezes são assintomáticas e apresentam baixas taxas de mortalidade.

No entanto, um caso recente nos Estados Unidos intrigou os pesquisadores, ao identificarem um bebê cuja carga viral era 51.418 vezes maior do que a média dos outros pacientes infectados da mesma faixa etária.

O pequeno estava sendo tratado no Children’s National Hospital, em Washington, em setembro de 2020, e foi um dos únicos – dentre mais de 2000 casos de sua idade -, que apresentou um quadro grave da doença. Ao sequenciarem o genoma do vírus, os médicos se depararam com uma variante não vista antes. 

Embora a descoberta pudesse soar alarmante, a chefe do departamento de doenças infecciosas, Roberta DeBiasi, alegou não ser possível concluir nada de um caso isolado. Ou seja, não se sabe se a nova cepa observada no pequeno é mais perigosa do que as outras já analisadas e nem que o tipo diferente de estrutura da proteína do vírus é o responsável pela elevada carga viral.

Mais tarde, enquanto os membros do hospital se aprofundavam na investigação, foram descobertas evidências de que uma mutação da covid-19, chamada N679S, poderia estar circulando pela região do Médio Atlântico (que abrange algumas regiões do nordeste norte-americano). A novidade despertou dúvidas se poderia estar relacionada com o quadro do bebê.

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“Pode ser uma completa coincidência”, afirmou DeBiasi ao The Washington Post. “Mas a associação é bem forte. Se você vê um paciente que possui exponencialmente mais vírus e é uma variante completamente diferente, provavelmente está relacionado”, completou.

Jeremy Luban, virologista na Escola Médica da Universidade de Massachusetts, também se pronunciou sobre o ocorrido. “A carga viral encontrada no nariz da criança é, por ela mesma, chocante e notável”, disse. Porém, mostrou-se receoso em alegar se o fato teria relação com a N679S ou apenas com o sistema imunológico imaturo do recém-nascido, que permitiria que o vírus se replicasse fora de controle.

  • O que se sabe até agora sobre as novas cepas da covid-19

    Desde dezembro de 2020, são noticiadas novas variantes do vírus em países como Reino Unido, África do Sul e Brasil – por aqui, elas foram inclusive associadas ao aumento expressivo nos casos em Manaus, no Amazonas, gerando um colapso no sistema de saúde público.

    Com estudos ainda preliminares, o que se identifica é que as mudanças estruturais do vírus fazem com que ele tenha melhor capacidade de transmitir e de invadir o sistema imunológico de cada pessoa, mas não existem provas de que cause quadros mais graves.

    Em relação à doença nos pequenos, ainda não há literatura pediátrica que confirme que as novas cepas sejam mais infecciosas em bebês e crianças do que em outras faixas etárias – atualmente, os estudos mostram apenas as taxas referentes a adultos, jovens e idosos.

    Outra tendência que surgiu junto com a identificação das variantes do Sars-CoV-2 foi a do uso de duas máscaras, com o intuito de dobrar a proteção contra o vírus. Embora algumas pesquisas apontem que a dupla proteção realmente possa surtir efeito, a indicação vale mais para os adultos – principalmente se considerarmos que manter os filhos com uma só máscara já não é uma tarefa fácil, além do risco de sufocamento.

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