Juliana Didone: “Precisei de tempo para me recuperar do processo do parto”

Em conversa com o Bebê, a atriz contou como foi o processo traumático do parto e como tem sido o entendimento de que é preciso confiar no seu maternar.

Por Alice Arnoldi Atualizado em 30 out 2020, 20h30 - Publicado em 30 out 2020, 20h18

A gravidez é uma fábrica de expectativas. Reorganizamos a vida, nos preparamos para a chegada do bebê nos mínimos detalhes e traçamos planos a perder de vista. O que invariavelmente acabamos descobrindo é que nem tudo sai como esperávamos. E isso acontece mesmo quando a gente estuda e planeja muito, como foi o caso do parto de Juliana Didone.

Grávida de sua primeira filha, Liz, fruto do seu relacionamento com o artista plástico Flávio Rossi, a atriz se muniu de informação e uma equipe de parto, mas a realidade do nascimento de sua bebê foi bem diferente do que ela esperava. 

São os detalhes de todo este processo que Juliana conta ao Bebê.com.br, relatando o poder do tempo para curar as marcas emocionais das expectativas frustradas. Hoje, dois anos depois do parto, ela acredita que a experiência e o crescimento da filha a ensinaram a ser mais confiante em seu maternar. “Independente do que você tenha lido ou ouvido uma mãe falar, se você tentou, não deu certo, tenta outra coisa”, conta.

Confira:

Não foi planejada, mas foi desejada!

“O processo de descoberta da gestação foi bem surpreendente, porque a gente não estava planejando. Eu estava com o olhar voltado para outras coisas. Estava em um ritmo intenso de final de gravação, terminando uma novela, programando viagem, ensaiando uma peça que ia fazer. Eu nem desconfiava.

Mas um dia eu fui correr com a minha mãe na praia e eu não conseguia. Achei meu peito muito pesado, duro, e falei: ‘será?’. Eu estava atrasada dois, três dias então não estava muito preocupada, porque eu costumo ter esse atraso na minha menstruação. Mas quis dar uma checada. Fui para casa, fiz o teste de farmácia, e apareceram os dois tracinhos. Acho que fiquei sentada na privada umas duas horas até entender o que estava acontecendo.

O Flávio estava viajando, chegava só a noite. Do meio-dia, que foi a hora que eu descobri, até ele chegar, parecia que tinha passado uma eternidade. Quando ele entrou em casa, a gente ainda conversou, ele foi tomar banho, fizemos comida, jantamos e eu não sabia como falar. Qual era o melhor horário, que jeito, o que eu tinha ensaiado não estava funcionado. Então foi meio que de bate pronto. Quando ele terminou de comer, eu falei: ‘amor, estou grávida!’. Ele falou: ‘ahn?’.

Ele também ficou chocado, mas eu via no olho dele uma felicidade ainda que fosse com esse desconhecido. Foi uma surpresa, mas foi muito bem recebida”.

Um mergulho profundo nos estudos

“Para a chegada da Liz, eu comecei a me alimentar de várias informações para escolher o tipo de parto que queria. Eu nunca nem tinha ouvido falar muito sobre parto natural, era uma coisa completamente nova para mim. Até que comecei a ver uns documentários e fiquei apaixonada.

Fui escolhendo minha equipe, me preparando com uma doula, fazendo enxoval e lendo. Minha gravidez foi de muita leitura. Assisti à muitos vídeos, documentários relacionados a chegada do bebê e também ao processo de preparação para o parto. Foi um momento de decisões.

Procurei me exercitar até o final da gravidez. Fazia um pouco de ioga, mas o que eu mais fiz mesmo foi a natação. Eu conseguia boiar na água e o peso do corpo, quando eu estava nadando, era muito maravilhoso. Eu relaxava desse sobrepeso que nós ficamos”.

O longo nascimento…

“E aí chegou o momento do parto. Foi um processo bem difícil, demorado e sem dilatação. Fiquei horas no trabalho de parto em casa. O Flávio saiu para comprar uma piscina de plástico, colocou no meio da sala, a gente ligou no chuveiro com mangueira… Uma confusão!

E eu fazendo aquele crossfit do parto: senta na bola, agacha, levanta, anda, entra na piscina. Eu estava com muitas dores, mas não sentia uma evolução. Depois de 12 horas nessa situação, a enfermeira chegou e viu que a minha dilatação estava de dois, três dedos. Isso começou a me dar um certo desespero.

Então fiz um cálculo na minha cabeça, junto com o Flávio, que se dali a quatro horas eu não estivesse bem, queria ir para o hospital. Liguei para a minha médica, ela disse: ‘não dá para ir agora, vamos daqui a pouco!’. Passaram-se mais quatro horas e só aí seguimos para o hospital.

Tomei uma anestesia para conseguir descansar, porque já fazia uma noite inteira que não dormia. A anestesia até suavizou a dor, mas cessou o trabalho de parto e tive que tomar ocitocina depois destas três horas descansando, ainda sem conseguir dormir.

Depois da ocitocina, voltei para o trabalho de parto, e sentindo dor, muita dor: eu tinha dilatado quase seis. Dos seis ao oito também demorou mais umas cinco horas – não sei exatamente a proporção de tempo, mas sei que demorava muito para ir aumentando a dilatação.

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A gente já tinha tentando kiwi (técnica que usa um vácuo-extrator para puxar o bebê) uma vez, duas vezes, três vezes… Estava virando um pouco de cena de horror.

Lá pelas tantas, não sabíamos mais o que fazer. Estávamos bem perdidos, confusos. Porque queríamos uma coisa, pedíamos cesárea, e a minha equipe tentava me convencer de que eu tinha lutando tanto por uma escolha. ‘Vamos tentar mais um pouco’, diziam, mas para mim eu já tinha tentando o máximo que eu podia.

Minha mãe que deu o voto de minerva. Ela já estava lá no hospital achando que ia ver a neta, e quando eu falei que ela ainda não tinha nascido, ela desesperou, porque estávamos ali há muito tempo. ‘Não tem escolha, não tem opção. Vai para a cesárea agora’, ela disse.

Fui então para um cesárea meio de emergência, a Liz nasceu e foi para uma incubadora logo depois. Só após umas três horas, minha filha realmente veio para o quarto e ficou comigo. Nesse momento, eu despenquei. Falei ‘graças a deus meu bebê está aqui, bem, nos meus braços. Respirando, me olhando, chorando’. Isso me aliviou muito. Mas eu precisei de um tempo para me recuperar do processo do parto. O físico demorou menos do que o emocional”.

O confiar no próprio maternar

“A maternidade me colocou em um estado de presença muito grande. Acho que é o maior até aqui. Um set de gravação te coloca neste estado também, de estar atento e ouvindo o outro. Mas não é um universo desconhecido para mim, embora cada personagem seja uma elaboração, um aprendizado e uma construção.

A maternidade não tem comparação, porque é um ser que não se comunica direito. O seu diálogo é só através do choro e das tentativas. E eu acho que me veio também um lugar de ‘não está dando certo, muda’. Independente do que você tenha lido ou ouvido uma mãe falar, se você tentou, não deu certo, tenta outra coisa.

Eu fiz um curso de preparação da chegada do bebê com a Stephanie, uma francesa que mora no Rio de Janeiro há muito tempo e já ajudou muitas pessoas neste processo. Ela falou, além de coisas técnicas que funcionavam, uma coisa muito simples, mas que eu nunca esqueci, principalmente depois do meu parto: escute o seu bebê. Veja-o de verdade. Perceba-o para você começar identificar.

No início, todo choro parece a mesma coisa que você não sabe o que é. Depois, você vai vendo que essa relação é melhor que qualquer livro. A informação é muito importante para a gente ter na nossa memórias, nas nossas gavetas do conhecimento. Mas a gente precisa ir se adaptando todos os dias.

“Aprendi a estar presente e a não fixar regras, a estar disponível a mudanças o tempo inteiro e a propor alterações para a minha dinâmica com a Liz – até hoje é assim. É entender que o real é sempre diferente do que você imaginou. Pode ser melhor, pior, mas é sempre diferente do idealizado na sua cabeça”.

Tempo, tempo, tempo…

“O que mudou foi o tempo, eu tenho certeza disso. Ele gera entendimento do que passou, acalma a angústia, ajuda a curar as feridas, a dor, a frustração, a insegurança e a culpa. O tempo me organizou. Me deu força e até entendimento de que era importante dividir isso.

Mas não senti necessidade de fazer um vídeo no Instagram e falar a respeito. Eu poderia ter feito um relato de parto ou até mesmo uma live. Mas eu ponderei: ‘será que isso importa para alguém?’. Eu não quero também ficar criando um pré-tensão. A mulher grávida (digo porque já estive nesse lugar), muitas vezes, não quer más notícias. Ela está idealizando que vai ser tudo maravilhoso. Só que depois eu entendi que era importante, até porque, hoje eu já estou na transformação dessa dor.

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Para mim, eu ganhei muita potência como mulher nesse lugar de vulnerabilidade que fiquei. Hoje, eu me sinto muito mais segura com a Liz, com a nossa relação. Atualmente, a minha maternidade é tão feliz, embora com caos, perrengue e dificuldades diárias na criação de um filho. É equilibrar o ser mãe, mulher, profissional, namorada e amiga. E é difícil!

Hoje temos um jeito nosso que funciona muito, que é harmônico. E aí eu acho que era um momento bom também de contar tudo isso, porque eu tinha já tinha o lado ruim e agora o lado bom. Não ia ficar só no lugar da tristeza.

Depois que eu elaborei, que está curado e essa dor trouxe muita força, eu consigo falar. O que mudou foi o tempo. Ele foi extremamente necessário. A gente não precisa se precipitar”.

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