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Parto: de onde vem a palavra “cesariana”?

A origem do termo pode estar em Júlio César, mas a história é bem mais complicada do que se costuma contar. Entenda!

Por Carla Leonardi
25 jan 2023, 10h00

O parto cesárea é mais que conhecido – no Brasil, voltou a crescer desde 2020, de acordo com o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos – mas a origem da palavra ainda gera muita curiosidade. Não é para menos: a busca pela sua etimologia é tortuosa e de longuíssima data.

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A hipótese mais difundida tem origem histórica e chama a atenção pelo caráter narrativo e até mítico. Segundo essa versão, o termo teria sido originado com Júlio Cesar (Julius Caeser, em latim) – sim, o imperador romano. A lenda começou a se propagar com a crença de que o líder político e militar nasceu não por um parto vaginal, mas por incisão abdominal.

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A questão é que a mãe do imperador sobreviveu ao nascimento do filho, o que seria praticamente impossível naquela época (muitos anos antes de Cristo), já que a medicina e os fármacos ainda não estavam desenvolvidos para isso. A abertura do abdome para a retirada do bebê, vale dizer, só acontecia em caso de morte da mãe – no Império Romano, foi promulgada uma lei que proibia o sepultamento da mulher sem a retirada do feto. Essa prática, aliás, já era muito mais antiga, presente até na Mitologia Grega: Asclépio (deus da medicina) é retirado do útero da ninfa Coronis, morta por Artemis, irmã de Apolo, o pai do bebê.

A lenda que se torna (quase) verdade

Mesmo com o nascimento de Júlio César por via abdominal tendo sido desconsiderado, alguns estudiosos latinos consagrados, como Plínio, o Velho, traçaram uma relação entre a palavra e o nome. Aqui, vale ressaltar, há um importante fator de confusão: em determinado momento, César deixa de ser apenas sobrenome e passa a ser também um título. É o que dá origem ao alemão “kaiser” e ao russo “ksar/tsar”. Além disso, Júlio não foi o primeiro a receber esse nome. Segundo o dicionário etimológico Doulgas Harper, se essa de fato é a origem da palavra, ela pode estar ligada a algum ancestral do imperador, questão que não fica tão clara na explicação de Plínio, ao falar do “primeiro dos Césares, retirado por corte do útero materno”.

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Isidoro de Sevilha foi outro estudioso a estabelecer essa relação – dessa vez, mais direta. “César foi assim chamado por ter sido extraído após o corte do útero de sua mãe morta”, escreveu em Etymologias, obra do século VI d.C., retomando a confusão sobre sobrevivência de Aurélia, mãe do imperador. A partir desses autores, foi traçada a etimologia (ou seja, a origem e a evolução da palavra) de Caesar até caedere, verbo que significa “cortar”.

Porém, apesar de a ligação entre o nome e o vocábulo ser amplamente contestada por filólogos modernos (que se apoiam, sobretudo, no significado de “cabeleira” para caedere, desconsiderando completamente a relação com o nome/título), acredita-se que o termo caiu na boca do povo – ou, melhor, nos registros médicos.

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Documentada pela primeira vez no século XVI, em língua francesa, a palavra césarienne apareceu no livro de François Rousset, Traité nouveau de l’hystérotomotokie ou Enfantement caesarien. De adjetivo passou a ser usado também como substantivo, foi traduzido para outras línguas e… Bom, o resto é história. O fato é que, possivelmente a partir de uma crença, o termo pegou.

Fontes:
https://books.scielo.org/id/8kf92/pdf/rezende-9788561673635-18.pdf
https://www.le-tresor-de-la-langue.fr/definition/c%C3%A9sarienne#top
https://www.etymonline.com/search?q=caesarian
https://www.jmrezende.com.br/juliocesar.htm
PLINIO. Historia Natural. Libros VII-XI. Madrid: Editorial Gredos,1979.

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