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O trabalho invisível (e não remunerado) da maternidade

Como o cuidado com a casa e a família dá a base para o mundo rodar e por que ele ainda é tão desvalorizado

Por Carla Leonardi
Atualizado em 8 mar 2023, 15h04 - Publicado em 8 mar 2023, 13h16

A questão não é sobre ganhar flores ou chocolates no Dia Internacional da Mulher. A questão é sobre ganhar flores ou chocolates enquanto os salários seguem mais baixos, faltam creches e continuamos a ser desconsideradas para vagas de trabalho quando há a possibilidade de gravidez num futuro próximo. É o medo de perder o emprego depois da licença-maternidadeÉ saber que, enquanto para os homens, tornar-se pai é motivo de festa na empresa, para nós, gestar um bebê é quase sempre motivo de preocupação.

A questão é que as flores e os chocolates não mudam nada disso, enquanto nós queremos – e precisamos – que tudo mude.

Mas, afinal, por que a maternidade vem acompanhada de tantos senões para as mulheres? Claro, a licença-maternidade custa dinheiro ao empregador, embora o valor possa ser ressarcido posteriormente pelo INSS. Porém, a sociedade, de um modo geral, esquece que sem bebês nascendo não há novos adultos e, consequentemente, força de trabalho. Esquece, também, que sem crianças bem cuidadas – alimentadas, educadas, entretidas – essa força de trabalho não será qualificada.

Mães e grávidas que trabalham em empresas
(Ponomariova_Maria/Getty Images)

Reprodução social do trabalho

Essas tarefas podem ser reconhecidas como essenciais para a chamada reprodução social do trabalho. Para entendermos essa questão, porém, precisamos voltar às bases e compreender que o movimento feminista é amplo e diverso, e que a ideia de “reprodução social” é específica a uma vertente.

“Esse é um conceito trabalhado pelo feminismo marxista. Como o próprio nome diz, ele parte dos pressupostos discutidos pelo marxismo, que estão muito relacionados à questão da produção dos bens, especialmente das mercadorias”, aponta Marcela Boni Evangelista, historiadora e doutora pela Universidade de São Paulo, onde é parte do Grupo de Pesquisa em Gênero e História.

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A professora explica ainda que a noção da divisão sexual do trabalho é outro ponto fundamental desta discussão: “Trata-se da ideia de que homens e mulheres teriam funções diferenciadas em razão de seu sexo biológico. Aos homens, seria natural assumir funções públicas, muito mais valorizadas, enquanto às mulheres ficariam relegadas as atividades do universo do privado, que são menos admiradas”.

Aqui entra mais um ponto importantíssimo que é a naturalização desse labor diário como função inata, sem folgas, que dura anos e que não apenas não é remunerado, como ainda é constantemente invisibilizado.

“A naturalização das práticas sociais é quando se acredita que algo faz parte da natureza de um determinado grupo de pessoas. Nesse caso, é como se a mulher fosse naturalmente destinada a ser mãe, a cuidar da casa, das crianças, das pessoas mais velhas…”, afirma Marcela. É o desempenho de todas essas funções, que fazem a roda do mundo girar, que define a reprodução social do trabalho – e naturalizar isso impede que a estrutura seja questionada. “Já que se considera algo inerente às mulheres, então é indiscutível”, reflete a historiadora. 

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É por isso que a desnaturalização é um dos primeiros passos desse longo caminho que é a luta pelos direitos das mulheres. Como a pesquisadora alerta, é preciso enxergar essa perspectiva como “uma construção social que serve a interesses de determinados grupos, que são parte de uma estrutura baseada no poder patriarcal”.

“Nem todo homem…”, mas quase toda mulher

A ideia, claro, não é generalizar. Muitos pais – homens – dividem as tarefas de casa e dos cuidados com os filhos de forma igualitária. Mas sabemos que isso está longe (muito longe) de ser regra não só no Brasil, mas em todo o mundo.

O relatório Care Works and care jobs for the future of decent work (2018), da Organização Internacional do Trabalho (OIT), apontou que enquanto as mulheres dedicam cerca de 4 horas e 25 minutos diariamente às tarefas da casa, os homens dispõem de 1 hora e 23 minutos do dia. Sim, são 3 vezes mais. E ainda que exceções existam, o mercado continua a reforçar essa estrutura que tanto desvaloriza o trabalho feminino.

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Assim, se conquistamos o direito de trabalhar fora de casa, acumulamos jornadas – duplas, quando não triplas. E ao sairmos de nossas possíveis bolhas (pensando em recortes de classe e também de raça), a discussão se torna ainda mais relevante.

mulher negra com o cabelo black powe carregando bebê também negro, usando apenas fralda. Ela veste uma camiseta rosa e sorri enquanto encosta o rosto no do bebê.
(Arte: Juliana Pereira / Foto: mapodile/Getty Images)
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À mulher negra, o cuidado com a casa do outro

Marcela Boni cita o livro de François Vergès Por um Feminismo Decolonial, cujo texto inicia com o relato da rotina de uma mulher negra, periférica, que deixa a casa e os filhos muito cedo, ainda de madrugada, para atravessar a cidade de transporte público e cuidar da casa de outra família – a de uma mulher branca, em situação social mais privilegiada.

“Isso é algo que faz parte não só da história do Brasil, mas de outros países, principalmente das Américas, onde temos uma herança colonial e escravista, em que as mulheres negras sempre tiveram que se dedicar aos cuidados das casas das outras mulheres – brancas e ricas”, lembra a historiadora.

Para elas, o trabalho dentro de casa é ainda mais desvalorizado, uma vez que a atividade que desempenham fora é no lar de outras mulheres, para que essas possam ter uma vida mais livre, menos envolta das tarefas domésticas e que consigam estudar, ter uma carreira e garantir que seus filhos estejam alimentados e bem cuidados.

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“As questões de raça e classe são fundamentais para entender a história das mulheres”, salienta Marcela, que aponta a educação como o caminho possível para provocar mudanças. “Primeiro, conhecer a história das mulheres, saber que existem diversos modelos de sociedade e que, ao longo do tempo, e não necessariamente numa tendência linear, elas se organizaram de maneiras diferentes”, ressalta, lembrando que o conhecimento é uma ferramenta essencial para estabelecer lutas eficientes.

“Mas, sem dúvida, é preciso que pessoas com esse conhecimento ocupem lugares de poder, onde exista a chance de trazer para políticas públicas mecanismos de transformação e de valorização de todos esses âmbitos que fazem parte das práticas sociais desempenhadas pelas mulheres”, finaliza a pesquisadora.

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