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Crianças foram vítimas ocultas da pandemia, diz estudo. Entenda as razões

Mortalidade materna, insegurança alimentar e queda de matrículas escolares. Pesquisa em parceria com o Unicef aponta consequências da Covid-19 na infância

Por Carla Leonardi
23 set 2022, 14h12

Muito já se falou sobre o impacto da pandemia do coronavírus nos mais diversos setores da sociedade, inclusive na Educação Básica. Mas um estudo recente comandado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Unicef e o Itaú Social, trouxe dados desoladores sobre as consequências desse período na primeira infância. Se levarmos em conta que, para uma criança de seis anos, metade de sua vida foi após a Covid-19, podemos ter uma breve noção da profundidade desses resultados, que certamente afetarão o futuro.

Intitulada Desigualdades e impactos da Covid-19 na atenção à primeira infância”, a pesquisa traz dados referentes à mortalidade materna, às matrículas na Educação Infantil e à alimentação dos pequenos de zero a 6 anos, evidenciando as desigualdades brasileiras, sobretudo quando os cortes de raça e classe são interseccionados.

Aumento da mortalidade materna

Segundo os números obtidos, desde 2019, a mortalidade materna (aquela que acontece por complicações na gestação, no parto ou no puerpério) aumentou em 89,3% em todo o país, sendo que mais da metade desses óbitos foi em decorrência da Covid-19. Quando se dá a comparação por raça, a diferença é estarrecedora: de 100 mil nascimentos, 194,3 mulheres negras foram a óbito – 71 mortes a mais que no grupo de mulheres brancas. Já entre as indígenas, foram registrados 140,2 óbitos por 100 mil nascidos.

A elevação da mortalidade materna é um problema de saúde pública grave. Cada vida perdida importa enormemente, cada mulher, cada mãe que integra este devastador dado. As consequências para a criança são inúmeras e podem ampliar a situação de vulnerabilidade social a que essas crianças estão expostas”, ressalta Marina Fragata Chicaro, diretora de Conhecimento Aplicado da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Barriga de grávida
(Sirirat Noisapung / EyeEm/Getty Images)
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Queda de matrículas na Educação Infantil

O período de isolamento e de atividades escolares acontecendo de forma remota influenciou de maneira direta o número de crianças matriculadas na Educação Básica, sobretudo na Educação Infantil. De acordo com o estudo, entre 2019 e 2021, foram quase 338 mil matrículas a menos nas crechesNa pré-escola, a queda foi similar: 315 mil.

Sabe-se que a formação escolar nos primeiros anos de vida pode ser crucial para o desenvolvimento da criança nas etapas seguintes, o que aponta para um desafio importante das redes de ensino (também privada, mas, sobretudo, pública) na criação de estratégias que minimizem esses efeitos.

“É indispensável que os gestores públicos elaborem ações robustas e coesas de busca ativa dessas crianças, ampliem o acesso à educação infantil com qualidade e realizem o monitoramento dessas iniciativas para que o direito constitucional à Educação seja efetivamente garantido”, alerta Esmeralda Correa Macana, especialista em Monitoramento e Avaliação do Itaú Social.

Impacto na alimentação das crianças

O fechamento das escolas durante o período de isolamento teve outra séria consequência: a falta de acesso à merenda e o decorrente aumento do número de crianças abaixo do peso. No Brasil, muitas famílias contam com as refeições fornecidas pela escola pública para garantir que seus filhos se alimentem e, segundo a pesquisa, os programas emergenciais de transferência de renda não foram suficientes para suprir as necessidades decorrentes dessa falta.

De acordo com os dados, o índice de crianças muito abaixo peso aumentou 54,5% entre março de 2020 e novembro de 2021, o que equivale a quase 324 mil indivíduos de zero a 5 anos.

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portão da escola trancado
(Joseph Ray / EyeEm/Getty Images)

Vítimas ocultas da pandemia

Além de todos esses fatores, a violência contra meninos e meninas também aumentou durante o período pandêmico – dado concluído a partir da queda das notificações de casos, que permaneceram ocultos – criando um cenário muito preocupante para as crianças e para o futuro que as aguarda.

A pesquisa, que teve como fontes principais de dados o Ministério da Saúde, o Ministério da Educação (MEC), o IBGE e a Pnad Contínua, revela esses números com o objetivo de ressaltar a urgente necessidade que o poder público tem de criar formas de mitigar os efeitos negativos que a pandemia deixou na primeira infância, período que, posteriormente, tem forte impacto na vida adulta.

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