Tudo sobre educação montessoriana na primeira infância

Do estímulo apresentado às crianças ao modo de impor limites, passando pelo papel do professor, entenda melhor o Método Montessori de ensino

Por Raquel Drehmer Atualizado em 1 fev 2018, 18h14 - Publicado em 1 fev 2018, 06h30

“Ajuda-me a fazer sozinho”. O lema, cravado pela médica e educadora italiana Maria Montessori, é uma bela síntese do método de ensino criado por ela e que, por isso, foi batizado com seu sobrenome. A educação montessoriana baseia-se na autonomia dos alunos, mas com a observação e o auxílio pontuais do professor nos momentos necessários.

Venha entender melhor como ela funciona e por que está tão em alta – até o príncipe George e a princesa Charlotte, do Reino Unido, estudam em escolas montessorianas. Conversamos com Dayse Canano, psicóloga especializada no Método Montessori, diretora e coordenadora da Escola Petra do Rio de Janeiro, e com Katia Beltrame, coordenadora pedagógica de educação infantil do Colégio Sion de Curitiba, para desvendar esse universo.

Princípios montessorianos

Antes de irmos para o ensino em si, é legal entender que Maria Montessori definiu três princípios para o método. Eles têm tudo a ver com o que ocorre em sala de aula.

Paz – O aluno montessoriano é educado para ser um cidadão do mundo, que respeite a sociedade. Todo o conhecimento tem aplicação para o bem-estar comum fora dos muros da escola;

Ciência – É provado pela ciência que a criança tem fases evolutivas – e elas são respeitadas pela pedagogia montessoriana. Nenhuma etapa deve ser pulada;

Harmonia – O ensino montessoriano tem como objetivo a harmonia das pessoas com a natureza, o que significa a harmonia com a própria vida.

Estímulo é tudo

As salas de aula e os materiais didáticos montessorianos são coloridos e estimulantes, um verdadeiro convite ao saber. Isso não é à toa, como explica Katia: “Na educação infantil, o norteador é a educação dos sentidos. É uma fase em que as crianças estão bem abertas para a exploração sensorial, então o ambiente é todo preparado para esse trabalho, porque o sensorial é muito importante. A partir dele vêm o domínio de si, o respeito pelo ambiente”.

Na sala de aula, nos banheiros e nas áreas comuns, tudo no Método Montessori é pensado para o tamanho dos alunos monkeybusinessimages/Thinkstock/Getty Images

Dayse afirma que o mobiliário montessoriano, específico para o tamanho das crianças, é cientificamente preparado. “Há mesas únicas, mesas duplas, mesas para grupos e circulares, para o lanche. As estantes ficam em uma altura adequada para elas e não têm portas”, detalha. “A disposição de tudo é organizada pelo professor de acordo com as necessidades do grupo. Nada é fixo”.

O papel do professor no ensino montessoriano

Diante dessa organização e dos materiais à sua disposição – selecionados criteriosamente pelo professor, sempre de acordo com as necessidades e interesses da turma –, a criança tem a livre escolha de trabalhar com o que mais lhe interessar. O que está longe de ser uma atividade “solta”.

“O professor observa e acompanha tudo e atua como um mediador entre a criança, o material e o ensinamento que resulta dessa interação”, esclarece Katia. Dayse complementa: “O professor é o guia que vai junto. Ele dá crédito ao potencial da criança”.

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Ajuda nessa dinâmica os materiais serem autocorretivos. Um jogo de encaixe, por exemplo, só funciona se as peças forem colocadas nos lugares corretos; ao notar isso, a crianças vai, entre erros e acertos, conseguir concluí-lo e passar naturalmente para as próximas etapas do aprendizado. “Cada material tem um objetivo, que é levar ao interesse pelo material seguinte”, sintetiza Dayse.

Os materiais montessorianos são autocorretivos e só funcionam se forem utilizados corretamente – e as crianças percebem isso rapidamente toeytoey2530/Thinkstock/Getty Images

A estas alturas, muitos pais podem pensar: “Mas e se meu filho ou minha filha ‘cismar’ com em um material e não quiser largar dele? Como vai evoluir?”. Segundo as especialistas, não há risco disso acontecer, devido à própria natureza investigativa humana e ao fato de o método não colocar obstáculos na livre interação entre as crianças. Como Katia coloca, “uma criança acaba puxando a outra para as novidades e os professores mediam os interesses, auxiliando nessa evolução”.

Como ficam os limites diante dessa liberdade toda?

A liberdade de aprender não impede que os limites sejam muito bem estabelecidos no Método Montessori. Especialmente no Ensino Infantil, o professor atua com psicologia e gentileza nos momentos certos, mostrando que determinado comportamento não é socialmente aceito – o que é bem assimilado pela criança, já que ela está em um ambiente e uma filosofia que prega o respeito entre todos, como dito anteriormente.

“Os alunos obedecem não porque são reprimidos, mas porque alguém – o professor – conversa e explica os motivos pelos quais eles não devem ter atitudes que prejudiquem a harmonia e a paz”, diz Dayse.

Até nisso as crianças se autorregulam. “As regras são combinadas entre professor e alunos constantemente, a turma incorpora isso e elas próprias se corrigem quando alguma sai dos eixos. O perfil de respeito é muito forte”, acrescenta Katia.

monkeybusinessimages/Thinkstock/Getty Images

Avaliação não é sinônimo de notas

O que rege os boletins montessorianos são conceitos – e não notas! A avaliação é diária, com anotações sobre os avanços pedagógicos, a relação com os outros e com o mundo. São feitos pareceres descritivos sobre o que o aluno conquistou, o que está desenvolvendo e o que ainda falta atingir.

Isso é o que se apresenta para os pais. Claro que, por uma questão de exigências burocráticas, os conceitos são convertidos em notas para possibilitar as devidas certificações, mas elas – as notas – não fazem diferença na avaliação contínua do Ensino Infantil.

A continuidade do Método Montessori após o Ensino Infantil

No Brasil, existem poucas escolas que seguem o Método Montessori até o Ensino Médio. O que normalmente se vê é o método ir até o Ensino Fundamental e acabar por aí.

Mesmo que a etapa seguinte siga outra filosofia de ensino, o que fica da montessoriana nos alunos é para sempre – e aqui estamos falando de capacidade de aprendizado. Tanto Katia quando Dayse contam que ex-alunos das escolas onde trabalham são campeões de olimpíadas de áreas variadas do conhecimento e sempre demonstram gratidão pela base humana e harmônica que tiveram.

Dayse avisa aos pais que, ao escolher o ensino montessoriano, “estão colocando os filhos em uma escola libertadora”. E Katia resume, para finalizar: “É uma educação para a vida”.

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