Deixa eu te contar

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Livro “Morra, amor”: nos limites da (in)sanidade na maternidade

Com narração intensa e por vezes caótica, a obra de Ariana Harwicz faz mergulho profundo na mente de uma mãe angustiada e depressiva

Por Carla Leonardi
Atualizado em 6 dez 2022, 18h42 - Publicado em 4 dez 2022, 14h00

“Quero ir ao banheiro desde que acabou o almoço, mas é impossível fazer qualquer outra coisa além de ser mãe. E dá-lhe choro, chora, chora, chora, vou ficar doida. Sou mãe, pronto. Eu me arrependo, mas nem posso dizer. Para quem. Para ele, sentado nos meus joelhos, metendo a mão no meu prato com seus restos frios, brincando com os ossos de galinha? Não! Deixa isso que você engasga. Jogo um biscoitinho para ele. Ele me devolve. Tenho a boca cheia da sua saliva, de migalhas. Tenho tomate grudado no braço. Não o deixo terminar e lhe meto outro biscoito, ele se entala. Não me preocupo com o que possa pensar de mim. Eu o trouxe ao mundo, já é o suficiente. Sou mãe em piloto automático. Choraminga e é pior do que o choro. Eu o levanto, lhe ofereço um sorriso falso, aperto os dentes. Mamãe era feliz antes do bebê. Mamãe se levanta todos os dias querendo fugir do bebê e ele chora mais.” (p.89)

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Esse trecho é do livro Morra, Amor, da escritora argentina Ariana Harwicz, que passou a ser publicado no Brasil pela Editora Instante em 2020. É um romance, uma ficção em 140 páginas que segue o fluxo de consciência da narradora personagem: uma mulher de quem não sabemos o nome, mas que vive a maternidade e o casamento de forma sofredora e visceral.

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A capa e o título podem assustar, mas, calma. A morte – como pulsão e como fim, de fato, da vida – aparece no enredo em diversas formas e camadas. A morte do desejo do outro, a do indivíduo cindido após o nascimento do filho, a da felicidade que se acreditava ter. A morte que é, também, necessária para os próximos recomeços, mas que enquanto acontece é absoluta dor. A morte que é também desejo. Esse é o retrato emoldurado pela narrativa: os finais em suas variadas facetas.

Não é um livro fácil de ler. O texto, por vezes, fica confuso (assim como os pensamentos da narradora), mas ainda assim a leitura flui. O difícil mesmo vem do contato com tamanha angústia que, como é próprio da boa literatura, toca na nossa própria, arrebatando o leitor, que precisa tomar fôlego entre um capítulo e outro.

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Ilustração de uma mulher submersa, com parte do rosto para fora da água, como se estivesse tomando fôlego ou afundando.
(Malte Mueller/Getty Images)

Não sei como é a experiência de ler Morra, amor sendo mãe. Não sou e, por mais que exerça minha empatia, não tenho como entender de fato o relato de uma mulher que me pareceu, entre outras questões, vivenciar uma depressão pós-parto. Digo entre outras questões porque a dor daquela mulher vem (e aqui falo a partir de uma impressão pessoal) do descompasso entre expectativas do que o casamento, a vida domiciliar e familiar e, sobretudo, a maternidade deveriam ser e o que de fato são (na realidade dela). Como se a personagem brigasse o tempo inteiro com um ideal de como devem ser exercidos os papéis de esposa, dona de casa, vizinha e, principalmente, de mãe. O questionamento sobre a possibilidade de não se amar o próprio filho paira sobre todo o texto e, contrariando o que se coloca como “natural” pelo senso comum, pode causar um incômodo profundo. 

O difícil mesmo vem do contato com tamanha angústia que, como é próprio da boa literatura, toca na nossa própria, arrebatando o leitor.

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É na manifestação do desejo – da paixão irrefreável e quase brutal – que ela vai procurar exorcizar suas frustrações agarrando-se a uma pulsão de vida, mas obviamente falha e acumula mais uma situação que vivencia como fracasso. (A nossa clássica maneira de lidar com um problema e que, lógico, nunca dá certo: mudando o foco para um terceiro objeto, como se o pepino fosse deixar de existir.) 

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O livro trabalha questões importantes e sensíveis, mas é preciso dizer que se trata, sim, de um processo de extremo sofrimento psíquico que demanda tratamento. Acompanhamos, afinal, uma protagonista à beira do enlouquecimento. Estrangeira em uma terra que não é a dela, vive também o estrangeirismo subjetivo ao não se ver parte do grupo a que pertence; nem ao pequeno núcleo familiar.

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Por isso, entre outros motivos, é preciso escolher com gentileza o momento de ler. Mexer nas angústias da narradora que, em certa medida, também podem ser as nossas, não é fácil, mesmo que pela via da ficção. E essa é uma narrativa que o faz sem rodeios ou meias-palavras, assim, de supetão.

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