Cultivo Materno Jornalista fundadora do Co.madre, Juliana Mariz acredita que mães não têm superpoderes, são mulheres de carne e osso sobrecarregadas e que merecem um lugar de destaque na sociedade

Desejo que sua filha te olhe com admiração

Pensamos sempre que filhos precisam nos dar orgulho, mas e se vivêssemos nossa vida também almejando que eles admirem a nossa caminhada?

Por Juliana Mariz Atualizado em 14 abr 2022, 13h47 - Publicado em 17 abr 2022, 14h00

Desejo que sua filha te olhe igual a filha de Kentanji Brown Jackson, a primeira mulher negra a integrar a Suprema Corte americana, olhou para ela durante a audiência de confirmação. A imagem foi capturada pela fotógrafa Sarahbeth Maney. Durante sua longa sabatina para ser empossada no cargo, Jackson respondeu perguntas espinhosas, se emocionou e recebeu o olhar terno e orgulhoso de sua adolescente, Leila.  

Casada com um médico com quem tem mais uma filha, Jackson é advogada formada em Harvard e fez carreira na defensoria pública. É fácil imaginar o tanto que ela teve de ultrapassar para conquistar seu espaço. A hostilidade de alguns membros durante a sessão comprovou que a jornada não é nada fácil. 

Durante a audiência, Jackson agradeceu o apoio da família, emocionou o marido e reiterou que não foi simples conciliar trabalho e os cuidados das filhas. Afirmou que muitas vezes falhou nesse equilíbrio. Ao contar sobre a dificuldade de domar os tais pratinhos, Jackson já prestou um serviço e tanto em cadeia nacional. Precisamos falar sempre sobre isso.

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Admiração é espelho

Mas quero voltar à imagem que mencionei. Confesso que não estava acompanhando muito o processo de Jackson, mas quando vi a foto fiquei paralisada. Quis conhecer melhor a trajetória dessa família, pesquisei todas as informações e logo fiquei com vontade de escrever sobre isso.

Muitas de nós pavimentamos a parentalidade em uma única direção: filhos têm de dar orgulho aos pais. E, então, passamos a fazer de tudo para que essa criança corresponda a esse objetivo. O perigo é que muitas vezes esse orgulho torna-se a única fonte de felicidade dos pais, num padrão que pode se tornar injusto e inalcançável. 

Sem perceber, em atitudes simples do cotidiano, reforçamos a ideia de que a criança é responsável pela satisfação plena dos adultos. Sabe aquela frase corriqueira: “se você comer tudo papai vai ficar muito feliz?” É disso que estou falando. Orgulho travestido de fonte de felicidade.

Mas e se invertemos essa direção? E se vivêssemos nossa vida também almejando ser matriz de admiração para nossos rebentos? Não estou dizendo para nos tornarmos juízes de uma suprema corte, mas para vivermos uma boa vida – nos grandes e, principalmente, pequenos momentos – a ponto de nossos filhos nos direcionarem olhares iguais àquele que Leila devotou à sua mãe.

Foi esse o estalo que tive quando vi a imagem da fotógrafa Sarahbeth. Intencionei esse desejo. Quero pautar minha maternidade perseguindo esse olhar para mim. Seja dando um conselho a elas, fazendo um trabalho ou assando um bolo, que elas sintam orgulho da minha caminhada. Porque admiração é espelho.  

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