Maternidade real: depois que você tem filhos é assim…

Muito se fala das mudanças qua uma criança traz para a vida de qualquer casal, mas que tal enxergar o lado positivo de ser mãe - e não apenas o negativo?

A maternidade real aplica uma lente de aumento nas fotos do Instagram, sem ilusões de uma recuperação pós-parto milagrosa, sem fantasias de noites tranquilas ao lado do recém-nascido, sem expectativas de parto indolor. A maternidade real exalta a força de mulheres que enfrentam com doçura as dores, as cicatrizes, as dificuldades que nos impõem a gestação. Em paralelo, existe o hábito social de assustar as futuras mamães com histórias sobre cocôs que vazam, bicos que racham, ganho de peso, casamentos desfeitos… Uma verdadeira ruína pós-parto. A intenção, nesses casos, não é exaltar ou instruir, mas estigmatizar. Na internet, chovem piadas e ilustrações sobre mulheres descabeladas, de pijamas, correndo atrás de um pimpolho chorão. Algumas dessas historinhas funcionam melhor que muito anticoncepcional.

Os relatos de um futuro catastrófico pós-gravidez costumam generalizar a experiência da maternidade, talvez porque assim seja mais impactante, talvez porque assim se valorize mais o esforço e a sabedoria de quem já passou por isso, como se o caminho percorrido por algumas fosse o mesmo para todas.

Quem ainda não engravidou tende a encarar com certo desconforto os relatos sombrios de casamentos abalados, olheiras infindáveis e seios caídos. Atitude similar a encontrar alguém muito empolgado com uma viagem a Nova Iorque e começar o bate-papo com péssimos comentários sobre a limpeza da cidade, o preço de tudo, o clima etc etc etc. Alguns podem tentar alegar que estavam apenas tentando ajudar, mas, na verdade, o excesso de spoiler acaba por imprimir um certo amargor à nova experiência.

Dar conselhos ou dividir dicas é diferente de simplesmente despejar uma tonelada de lamúrias sobre quem ainda não fez essa viagem. O filho gerado é a maior recompensa de todas e vale cada segundo de desconforto, de dor intensa, de sofrimento além do limite. Que tal falarmos sobre isso?

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“Depois que você tem filhos é assim: salto alto nem pensar”. “Depois que você tem filhos é assim: brinco comprido e colar nem pensar”. “Depois que você tem filhos é assim: todo mundo só te conhece como a mãe do fulano”. Depois que você tem filhos é assim: quem você é deixa de existir. Assustador! Mudamos muito com a gestação. Inevitavelmente nasce uma outra mulher, mas ela ainda é você. Você só precisa se descobrir, se encontrar e, acima de tudo, se amar. Continuo usando salto alto com muita frequência. Recentemente, pela primeira vez em dois anos, meu filho quebrou um colar que eu estava usando. Minha foto de perfil nas redes sociais sempre traz o meu rosto, porque eu e e meus filhos somos pessoas diferentes. Posso ser a Camila, mãe do Bento e do Joaquim, mas ainda sou a Camila e gosto que seja assim.

“Depois que você tem filhos é assim: não consegue nem tomar um banho tranquila”. “Depois que você tem filhos é assim: sexo é raridade”. “Depois que você tem filhos é assim: só assiste a desenho animado”. “Depois que você tem filhos é assim: suas amigas sem filhos te abandonam”. “Depois que você tem filhos é assim: casa suja e bagunçada”. Depois que você tem filhos, diga adeus ao mundo tal qual você conhece. Verdade, a rotina vai mudar, os espaços vão pedir adequações, a relação a dois passa a ser a três. Tomo banho tranquila com certa frequência, às vezes sozinha, às vezes com meus pequenos, amo tomar banho com eles. Vejo muito desenho infantil, é verdade, mas não deixei de acompanhar as notícias ou séries. Pode não ser no ritmo de sempre, com os amigos em casa até de madrugada, com os bares da sexta à noite, mas a vida pós-maternidade é nova e assustadoramente deliciosa.

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As histórias sobre “depois que você tem filho” normalmente terminam com verdades absolutas sobre uma maternidade que seria “a maternidade”. Como se a experiência de ser mãe fosse uma para todas as mulheres, desconsiderando escolhas pessoais, culturas familiares e toda uma gama de suporte hoje à disposição. Ser mãe compensa, sem dúvida alguma, cada uma das previsões mais catastróficas, mas por que falar tanto e focar tanto na metade vazia do copo? A construção de uma maternidade leve passa pela nossa capacidade de enxergar o lado bom, de acreditar no fazer diferente, de aproveitar toda e qualquer chance de ser feliz, mesmo dormindo pouco. Estereotipar a gravidez é reduzir uma experiência rica e diversa que varia de gestação para gestação, de mulher para mulher, de criança para criança.

Camila Queres

É educadora infantil e mãe de Bento, de 2 anos, e de Joaquim, de 1. É formada em Letras pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e tem pós-graduação em Gestão e Educação. Trabalhou na Escola Britânica do Rio de Janeiro e na Chapel School, em São Paulo. Hoje está no comando do berçário Toddler Desenvolvimento Infantil

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