Produtividade na pandemia? Mãe, é hora de recalibrar expectativas!

Metas e cobranças, dos outros e de nós mesmos, precisam passar por uma recalibragem em respeito à saúde mental de toda a sociedade. Tá puxado, gente!

Uma rápida passada de olhos por alguns sites de jornais e revistas e o que mais encontramos além do noticiário “quente” relacionado à pandemia são duas categorias de reportagens: as que trazem sugestões para você melhorar as condições do seu home office e “turbinar” sua produtividade e as que falam sobre como é importante cuidarmos da nossa saúde mental, respeitando nossos limites e tentando controlar a ansiedade. Pura contradição, não?

É neste paradoxo que queremos mergulhar. Sobre como é difícil, mas necessário, encontrar o equilíbrio que o momento pede. Temos de produzir. Queremos produzir. Mas temos de lembrar que não estamos vivendo em condições normais e que é preciso respeitar os limites que a situação nos impõe. Não dá pra negar que sentimentos como angústia, ansiedade, preocupação e medo nos rondam – e cada um desses sentimentos têm uma função.

Medo do contágio, de adoecer, de não conseguir cuidar da família, de ficarmos sem nossas fontes de renda, de perder entes queridos. Tristeza e preocupação ao acompanhar o noticiário. Angústia em não saber quais e como serão os próximos capítulos. O momento é de total vulnerabilidade: afinal, estamos falando em milhares de mortes por dia em todo o mundo e de centenas de mortes por dia aqui no nosso país. O vírus está ganhando rosto para muitas de nós, com casos conhecidos chegando cada vez mais perto. Por tudo isso, inevitavelmente nosso emocional fica abalado.

Qual o impacto no nosso dia a dia? Redução de concentração, criatividade, produtividade e eficiência, apenas para citar alguns. O tempo de realização e entrega das nossas tarefas é outro, imensamente maior. Claro que não somos tão Polianas a ponto de achar que as cobranças não deveriam existir nesta fase. A roda tem de continuar girando, afinal. Mas, como diriam nossas avós, “devagar com andor”.

Metas e cobranças, tanto dos outros conosco quanto da gente com a gente mesmo, precisam passar por uma recalibragem em respeito à saúde mental de toda a sociedade. Precisamos despertar um movimento de mais compaixão e autocompaixão.

Gabriela Brasil, idealizadora do programa “Laboratório de Produtividade”, lembra que “a produtividade se torna tóxica quando nos leva ao modo de sobrevivência e alerta constantes, com stress e até mesmo pânico”. Ela ressalta que a quarentena não é uma realidade típica de home office – nossas casas também estão sendo escola, playground, lounge. “É necessário ter uma produtividade compassiva, levando em conta a particularidade do momento.”

Chris Bailey, escritor e consultor de produtividade, segue linha parecida em suas análises. “Já é difícil ser produtivo nas melhores condições, ainda mais durante uma crise global. Nós estamos em casa porque precisamos estar em casa e temos menos foco porque estamos passando por muita coisa.”

Idem para o jornalista Nick Martin que, em seu artigo no New Republic, afirma que a procura pela produtividade é consequência da ideia embutida na sociedade de que qualquer momento não aproveitado para criar uma oportunidade de lucro ou de avanço pessoal é um momento desperdiçado. “Agora, com mais tempo em casa, a ideia do desperdício pesa cada vez mais.”

Mas não, não temos de enxergar como desperdício de tempo, e sim como espaços de respiro para nos permitirmos vivenciar e conduzir cada emoção da melhor forma possível. Falamos em espaço de respiro e você quase parou de ler esse texto, não é? Sim, sabemos que está especialmente puxado para as mulheres.

Esse texto publicado no site da Exame apresenta resultados de um estudo realizado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro que revela que as mulheres são mais propensas a sofrer com ansiedade e depressão durante a epidemia, em especial as que, neste cenário, seguem conjugando seus trabalhos de fora do lar (seja na versão home office, seja presencialmente) com as tarefas domésticas e cuidados com filhos.

É certo que nenhuma dessas categorias de afazeres vai repentinamente desaparecer. A grande questão é como lidar com todos esses “pratinhos” que estamos tentando equilibrar nesta fase inédita que vivemos. É justamente este o mote do episódio #61 do podcast Autoconsciente, de Regina Gianetti, que nos traz um lembrete tão prosaico, mas tão valioso: não exijamos tanto de nós mesmas.

Mas que tempo livre é este?

Nas duas primeiras semanas da quarentena, ganhou corpo um movimento cheio de boas intenções, mas que para muita gente pode ter despertado um resultado negativo e um gatilho para a ansiedade e para a auto-cobrança: a divulgação em massa nas redes sociais e grupos de WhatsApp de centenas de atividades que poderíamos fazer durante o isolamento social para ocupar o tal do “tempo livre”.

Mas que tempo livre é este? “Acho que não estou sendo eficiente na administração do tempo, porque não consigo… (preencha como quiser: criar uma série de brincadeiras com meus filhos, testar receitas que venho anotando no caderno há anos, fazer todos os treinos incríveis que estão sendo disponibilizado gratuitamente nas redes, maratonar séries, acompanhar lives…). Conta pra gente: você também não se fez esse questionamento? Então vamos parar, colocar todas essas questões em perspectiva e lembrar do mantra da quarentena: “façamos o que nos for possível fazer, e tudo bem”.

Aisha Ahmad, professora-assistente de Ciências Políticas na Universidade de Toronto, no Canadá, já viveu sob condições de guerra, violência e pobreza. Ela escreveu um dos artigos mais compartilhados nas últimas semanas nas redes. A pedido dos colegas acadêmicos que queriam suas dicas sobre como manter o ritmo de produção acadêmica durante este período ímpar, redigiu seus conselhos no texto “Por que você deveria ignorar toda a pressão para ser produtivo agora”. Se você ainda não leu, please, faça isso, clicando aqui nesta versão já traduzida para o português.

Para ela, “nosso foco deve se voltar prioritariamente para nossa segurança física e mental”; “precisamos abandonar o performativo e abraçar o autêntico” e “trabalhar para estabelecer serenidade, produtividade e bem-estar sob condições prolongadas de desastre”.

Nossa sugestão final? Menos perfeição, mais compaixão. Não conhecemos o que estamos vivendo e nem temos controle sobre os próximos capítulos. Mas temos, sim, como cuidar com mais atenção da nossa saúde mental. Fica o convite!

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