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“Tive psicose pós-parto duas vezes: eu alucinava e achava que ia morrer”

Entenda o que é essa doença psiquiátrica séria, que pode acometer mães até cerca de duas semanas após o nascimento do bebê

Por Da Redação
Atualizado em 20 abr 2023, 22h53 - Publicado em 20 abr 2023, 11h46

Nahiane Linck (@nahianelinck), de 32 anos, criou diversos cenários para a chegada de sua primeira filha, Maria Cecília. Nenhum deles, porém, incluía passar dias internada em regime fechado, dentro de uma clínica psiquiátrica, amarrada sobre uma cama – o que realmente aconteceu. A educadora e consultora financeira de Porto Alegre (RS) foi acometida por um distúrbio raro e muito sério: a psicose pós-parto.

Embora quase ninguém fale sobre isso, por vergonha, por representar um tabu e por ser um quadro pouco compreendido, o diagnóstico é grave e afeta entre uma e duas mulheres a cada mil partos, de acordo com a revisão de estudos mais citada, publicada no periódico científico BMC Psychiatry.

O que é a psicose pós-parto

A mãe gaúcha entrou nessa estatística não apenas uma, mas duas vezes. Mesmo não sendo regra, a possibilidade de recorrência, ou seja, de o transtorno se repetir em nascimentos seguintes, é aumentada. “A psicose é um transtorno mental que tira a pessoa do centro de realidade”, explica a psicóloga Rafaela Schiavo, ph.D. em psicologia perinatal e parental, autora de centenas de trabalhos científicos sobre saúde mental materna e professora do Instituto Mater Online (SP).

A ciência ainda não definiu uma causa certa para o desenvolvimento dessa condição. Existe a possibilidade de que questões hormonais, biológicas, sociais e psicológicas tenham influência nos casos. Histórico familiar e parentes com transtornos mentais podem ser fatores de risco.

A pessoa ouve coisas que ninguém escuta, vê coisas que ninguém vê, tem alucinações. E a psicose pós-parto é caracterizada pelo período em que acontece, alguns dias depois de a mulher dar à luz [as primeiras duas semanas principalmente]”, afirma a especialista. Nahiane nunca tinha manifestado nenhum problema psiquiátrico antes da gestação. Por isso, essa era uma preocupação que não passava por sua cabeça quando se casou e planejou engravidar.

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Na época autônoma, a mãe não tinha garantia de licença-maternidade, mas se programou minimamente. “Achei que daria conta”, diz ela. “A gestação foi tranquila, acabei tendo uma cesárea, depois que a indução de parto não levou à dilatação total”, relata. Maria Cecília nasceu em 6 de dezembro de 2017. “Ela era muito tranquila, quase não chorava. A amamentação, para mim, foi ótima. Era uma sensação muito boa”, lembra. Um sonho que, em poucos dias, se tornaria um pesadelo – para Nahiane e sua família.

Cansaço, sono e alucinações de morte

“Comecei a ter dificuldade para dormir. Eu acordava para ver se a Maria estava respirando, se estava tudo bem”, conta. “Meu marido ajudava muito. Eu amamentava e ele colocava a bebê para arrotar, para eu poder descansar”, explica. Maria Cecília nasceu em uma quarta-feira. Na sexta, mãe e filha puderam ir para casa e, na segunda-feira, Nahiane voltou a trabalhar. “Não na frequência em que eu trabalhava antes, claro, mas, como eu era autônoma, atendia alguns clientes, cuidava de pagamentos… Isso foi me deixando angustiada, porque eu não estava conseguindo dar conta. Queria fazer tudo perfeito, ser a melhor esposa, melhor mãe, melhor profissional. Tinha muito medo das críticas, da família, da minha sogra, da minha mãe. Então, ficava muito preocupada. Eu queria mostrar que eu podia, que eu conseguia”, lembra.

Hoje, Nahiane enxerga o medo gigante do julgamento como totalmente infundado. “Minha rede de apoio era muito boa. Não tinha do que reclamar, mas, na minha cabeça, estava todo mundo me criticando, todo mundo estava achando ruim, inclusive meu marido. Ali já começou a questão da psicose, dessas alucinações, de eu achar que estava todo mundo contra mim, que existia um complô. Na minha cabeça, havia uma perseguição”, recorda.

Isso, segundo ela, afetou ainda mais os problemas com o sono. “A Maria dificilmente chorava, dormia praticamente a noite inteira, porém eu acordava para ver se ela queria peito, dava o peito. Eu ia e voltava, ficava acordada, andava pela casa para lá e para cá. Ia até a geladeira, comia alguma coisa, ligava o computador, tentava trabalhar. Virei um zumbi. Claro que qualquer bebê demanda, nesse caso, porém, era mais a minha cabeça do que a criança”, diz.

O marido de Nahiane acordava e notava a companheira caminhando agitada e repetindo muito o que dizia. Ele desconfiou de que o comportamento não era normal e achou melhor entrar em contato com a obstetra. A médica, então, pediu que ele a levasse imediatamente ao hospital.

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A psicose é um transtorno que faz com que o indivíduo perca a noção da realidade. Portanto, é fundamental ter alguém que, como o marido de Nahiane, note que algo não vai bem e que busque ajuda. “É bem diferente, por exemplo, de uma depressão pós-parto, em que a pessoa é capaz de saber o que está sentindo”, aponta a psicóloga Rafaela. “A paciente até pode perceber que o que está sentindo parece irracional, mas sabe quem ela é, sabe que teve filho, não perde a noção da realidade. Na psicose, não. A mulher pode ter alucinações, achar que não é ela, não saber de quem é aquele bebê (que é dela), pode achar que não é casada. É muito grave”, explica a especialista. A recomendação é de que a mãe com psicose pós-parto nunca fique sozinha, pois oferece perigo a si mesma e aos outros, incluindo a criança.

Nahiane alternava momentos de lucidez e de surto. “Na hora em que fizeram a triagem, no hospital, eu estava razoavelmente bem”, diz ela. Ou seja, como não estava em surto, a instituição de saúde não poderia obrigá-la a tomar a medicação necessária – o que foi um problema, já que a paciente não aceitava os remédios de jeito nenhum. “Na minha cabeça, aquilo era para me matar, seria uma eutanásia”, compara. Ela lembra ainda que costumava manipular as pessoas com quem conversava. “Eu falava que estava bem, contava toda a história de perseguição, dizia que meu marido e minha mãe achavam que eu não era uma boa mãe…”, afirma.

A princípio, Nahiane ficou na ala da maternidade. “Eu ouvia choro de bebê e achava que era minha filha. Eu tinha certeza de que, junto com ela, meus amigos e minha família estavam do lado de fora do quarto, esperando para se despedirem de mim, porque eu ia morrer”, conta. “Lembro que olhava para meu corpo e o enxergava magrinho, em estado extremo de desnutrição, definhando. Mas não era nada disso”, explica. De alguns momentos dos surtos ela se lembra. De outros, não.

Diagnóstico psiquiátrico e internação

Diante do quadro, a paciente foi transferida para uma instituição psiquiátrica, onde permaneceu em uma área fechada. Parecia uma outra vida. “Eu não conseguia dormir e isso piorava as alucinações. Não aceitava o medicamento que me ajudaria a descansar”, conta. Foi ali que o diagnóstico de psicose pós-parto aconteceu.

Ilustração mulher triste e cansada
(ajijchan/Getty Images)

“Meu marido contou depois que, quando cheguei na porta e percebi que ficaria lá, dei uma chave de perna nele. Nem ele sabe como consegui, era uma força descomunal”, descreve. “Dois enfermeiros tiveram que me puxar. Eu lembro disso. Então, eles me levaram para a cama, me amarraram e deram uma injeção com uma medicação para me acalmar”, continua. “Dormi e acordei naquele lugar, com muitas pessoas, com muitos surtos. Havia outra menina com psicose pós-parto também, mas tinha esquizofrênicos, dependentes químicos, era tudo misturado. E aquele ambiente estranho… Os pacientes tinham que tomar banho com tudo aberto, para as enfermeiras poderem ver, porque havia muita gente ali com tendência suicida. Quando acordei, tinha certeza de que tinha morrido e estava no purgatório ou no inferno”, recorda.

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De acordo com a psicóloga Rafaela Schiavo, em geral, o tratamento da psicose pós-parto é medicamentoso e, em alguns casos, psicoterápico também. “O psicólogo geralmente atende a pessoa depois de medicalizada, quando ela tem lapsos de memória, pelo menos. Alguns momentos em que se lembra de quem é”, explica. O tratamento com psicólogo especialista pode ser feito em conjunto com o psiquiátrico.

Nahiane passou uma semana internada. Enquanto isso, Maria era cuidada pelos avós e pelo pai. A mãe mal conseguia se lembrar da criança – até que decidiu aceitar a medicação e conseguiu começar a descansar melhor. Com o tempo, o surto parou, mas ela não entendia onde estava. “Li em um quadro na parede que dizia que eu tinha psicose pós-parto”, conta. Ao, enfim, processar o que estava acontecendo, foi melhorando. Era quase Natal quando o médico decidiu liberá-la: 23 de dezembro.

Ainda assim, a paciente foi para casa tomando muita medicação. A mãe de Nahiane seguiu ajudando nos cuidados com a bebê. “O fato de eu não poder mais amamentar, por conta dos remédios, me doeu muito. Era algo que sempre desejei e que estava bastante tranquilo naquele início”, diz. “Às vezes, eu saía, Maria precisava mamar e as pessoas perguntavam por que ela tomava mamadeira. Ou, então, via outras mães amamentando. Aquilo me magoava. Demorou bastante para eu conseguir aceitar”.

É comum, segundo Rafaela, que mulheres com um transtorno tão grave, como a psicose pós-parto, apresentem, posteriormente, outras questões, como depressão. “Uma mãe que teve psicose tem momentos preciosos da maternidade ‘roubados’. Muitas vezes, ela não vai poder ficar com o bebê sozinha, vai precisar contar sempre com a ajuda de alguém, a amamentação pode ser prejudicada… Tudo isso pode gerar conflitos psicológicos que precisam ser tratados também”, afirma a especialista.

Tudo de novo

O vínculo com Maria Cecília demorou um pouco para ser estabelecido. No início, a pequena ficou mais grudada com a avó, o que também era difícil para a mãe. Conforme foi melhorando, Nahiane trocou de psiquiatra, aceitou a medicação e arrumou um outro trabalho – em uma escola de educação infantil, que a pequena também passou a frequentar. Tudo começava a entrar nos eixos. Tanto que o casal decidiu ter outro bebê, para crescer junto com a filha. “Eu fazia acompanhamento psicológico e psiquiátrico. A psiquiatra pediu que esperássemos um ano após a alta dos medicamentos para tentar de novo. E foi o que fizemos”, explica.

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Então, veio a pandemia e, com ela, todo aquele medo do desconhecido e de colocar uma criança em um mundo que estava mais incerto do que nunca. As tentativas de uma nova gestação foram suspensas. No entanto, já havia uma criança a caminho. “Engravidei em maio de 2020 e descobrimos em junho”, lembra. Foi durante esse período, grávida de Pedro, que Nahiane (sozinha com Maria em casa, já que o marido não parou de trabalhar) estreitou os laços com a filha. “Éramos eu e ela e, ali, criamos uma conexão muito grande”, diz.

Quando engravidou pela segunda vez, embora os médicos tivessem dado o aval e não houvesse mais prescrição de remédios por parte da psiquiatra, veio o receio de que a história se repetisse. Após refletir bastante, Nahiane achou que as coisas poderiam ser diferentes – afinal, ela estava bem, tudo estava sob controle e ela tinha um emprego formal, o que garantiria licença-maternidade e descanso.

Por falar nisso, a então gestante entrou licença uma semana antes da data agendada para a cesárea, justamente para se preparar e repousar um pouco. “Saí em uma sexta e, na segunda-feira, pensei: ‘Ah, agora vou relaxar’. Mas sentei no sofá e minha bolsa estourou”, conta. Pedro nasceu de parto normal.

O plano de saúde da família não cobria mais acomodação individual e Nahiane ficou junto com outra mulher no quarto. Devido à pandemia, havia uma série de restrições para acompanhantes e o marido não poderia permanecer lá direto. Pedro era um bebê tranquilo, segundo a mãe. “Foi aquela maravilha do parto normal. Meu esposo cortou o cordão umbilical e o bebê já foi para o meu peito. Mamou, ficou quase uma hora ali. Foi uma delícia aquele momento junto com ele. Estava tudo ótimo!”, lembra.

Parecia que, daquela vez, nada poderia sair dos eixos. Só que ainda era cedo demais para comemorar. “Quando fomos para o quarto, o outro bebê chorava muito. Aí, recomeçou a questão de eu não conseguir dormir direito. Na minha cabeça, já pensei: ‘Vai vir tudo de novo!’”

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Após a alta médica, Pedro e a mãe foram para casa. Maria, que estava sob os cuidados dos avós maternos, chegou dias depois. “Como estava um pouco gripada, ela não conseguiu dormir direito, nem eu”, conta Nahiane. Foi aí que se iniciaram as crises de ansiedade – algo novo naquele momento. “O coração disparava, parecia que ia sair pela boca. Voltou aquela ideia de que eu ia morrer, parecia que eu ia ter um AVC, um ataque cardíaco”, compara. “Minha família já ficou observando, e eu vi que ia acontecer novamente. Não queria admitir, mas eu sabia”, diz ela, que conversou com a psicóloga e com a psiquiatra. Ambas tentaram tranquilizá-la. Não deu para seguir a recomendação…

Em um fim de semana, na casa dos pais de Nahiane, os surtos começaram a ficar mais fortes. Ela ficou repetitiva, nervosa. “Lembro que, desta segunda vez, cismei com insetos. Via muita formiga, bichinhos. Aquilo me incomodava”, conta. Era carnaval e a psiquiatra dela não estava em Porto Alegre naqueles dias. Ainda assim, a médica pediu que o marido levasse a esposa à clínica em que trabalhava.

“Fiquei perguntando o que estava acontecendo e para onde ele estava me levando. Eu dizia que ele não precisava me trancar de novo, que eu ia ficar bem. E ele falava: ‘Confia em mim, vai dar tudo certo’. Meu marido conversou comigo, disse que era melhor assim, afinal, eram duas crianças agora. Acabei aceitando. Não precisei ser amarrada nem nada”, lembra. “Só que era pandemia, tinha a questão da máscara. Aquilo me sufocava. No início, passávamos por uma triagem onde ficavam todos os pacientes, até que saísse o resultado do teste de Covid, para ver se poderíamos seguir ali”, conta. “Fazer o teste foi horrível, pois eu já estava em surto, com aquela questão de morte, e achava que estavam me matando”. Nahiane pegou um papel e começou a escrever um testamento. Sim, tudo de novo.

“Eu só queria saber da Maria, porque estava muito apegada a ela. Não lembrava tanto do pobrezinho do Pedro – ele nasceu na segunda e, no sábado, fui para a clínica”, conta. Embora já tivesse aceitado melhor os medicamentos, desta vez, a paciente acabou ficando mais tempo internada, quase um mês. Os médicos acharam melhor, por causa dos filhos. Durante o período de internação, Nahiane viveu altos e baixos. Nas crises de ansiedade, fazia desenhos e pinturas, na tentativa de evitar a necessidade de medicamento. Então, enviava-os para Maria.

“Minha família falou para ela que eu estava no hospital para cuidar de um cortezinho que tinha sofrido no parto”, explica. No período final da segunda internação, apesar de estar melhor, a conversa com pessoas próximas apenas por chamada de vídeo fez com que Nahiane confundisse realidade e fantasia. Foi só quando a psiquiatra conseguiu uma liberação para que o marido a visitasse pessoalmente que ela entendeu que tudo aquilo era de verdade e pôde melhorar de vez, recebendo a alta.

casal posa para foto na frente de uma cortina colorida. Junto, há duas crianças: uma menina fazendo o coração com as mãos e um menino menor, no colo do homem
Nahiane e a família, em foto mais recente (Foto/Arquivo Pessoal)

A mãe foi para casa e começou a restabelecer o vínculo com o caçula, depois de tanto tempo longe. Novamente, não poderia amamentar, entretanto, foi mais fácil aceitar. “Aquelas coisas que me machucavam antes já não me machucavam tanto. Doía? Doía. Até hoje, às vezes, vêm as lembranças, vem aquele sentimento… Mas eu logo paro e tento aproveitar os momentos que tenho com ele”, comenta.

Precisamos falar sobre psicose pós-parto, sim!

Hoje, Nahiane está bem melhor, segue fazendo acompanhamento com especialistas e ainda está tomando medicações. No entanto, resgatou a relação com os filhos, depois do tempo afastada. Segundo ela, uma nova gravidez está fora de cogitação, embora, no início do casamento, ela e o marido sonhassem com uma família grande. “Dói porque, de certa forma, não fui eu que decidi que não queria mais ter filhos. É que o risco de sofrer tudo novamente é enorme”, pontua.

Por mais dolorosa que seja sua história, ela acha importante compartilhá-la com outros pais e outras mães, para que as pessoas conheçam o assunto, saibam buscar ajuda e percebam que não estão sozinhas. Além disso, é um lembrete para julgarmos menos. “Às vezes, as pessoas falam: ‘Ah, é só uma depressãozinha, é só mimimi’. Mas não! Pode ser algo mais grave! No meu caso, eu não tinha comportamento psicótico em relação às crianças, mas vai saber, se eu não tivesse ido para a clínica e se não tivesse rede de apoio, se não poderia chegar a eles?”, reflete.

A mãe faz questão de reforçar que a sociedade ainda precisa trabalhar muito e que nenhum ser humano é perfeito. “Eu me cobrava, mas, hoje, tento dar o meu melhor, ser a melhor mãe que eu posso ser, dentro da minha realidade. Vou acertar, vou errar, vou cair, vou tentar de novo, e assim vai”, completa. Se você sentir que precisa de ajuda ou se está perto de uma mãe que talvez precise, não hesite em procurar uma avaliação profissional. Cuidar-se também é uma forma de amar os filhos.

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