“Descobrir um câncer enquanto amamentava me fez enxergar meus privilégios”

A doença fez Vanessa questionar os desafios enfrentados pela mulher na sociedade e passar por um corajoso processo de desconstrução.

A professora universitária e mãe Vanessa Martins do Monte, hoje com 38 anos, vive a última etapa de seu tratamento contra o câncer de mama. O tumor em si, descoberto em 2017, já foi embora, mas ela está no terceiro ano de hormonioterapia, tratamento que impede que tumores estimulados por hormônios reapareçam.

Todo este processo trouxe aprendizados pessoais importantes e reflexões sobre machismo, privilégios sociais e estigmas relacionados ao câncer, como ela descreve abaixo. Para encerrar o Outubro Rosa, leia na íntegra seu depoimento:

“Em janeiro de 2017, meu filho, Pedro Bento, completou 2 anos, e eu estava vivendo um dos períodos mais felizes da minha vida. Depois da festa de aniversário dele, tive finalmente um tempo livre e fiz os exames de rotina solicitados pela minha ginecologista. Como estava amamentando ainda, confesso que não dei muita importância a eles, que ficaram uns três meses na gaveta.

Já no ultrassom, lembro de a médica ficar bastante tempo com o aparelho em meu seio direito, e achei que ela estava vendo muitos cistos de leite, porque meu filho mamava muito. Levei os resultados à minha ginecologista, que recomendou que eu visse uma mastologista o quanto antes, porque o resultado do ultrassom* requeria uma investigação mais aprofundada.

A mastologista avaliou o resultado e disse que seria necessária uma biópsia. De dentro da sala dela, eu e meu marido ligamos para a minha cunhada, que é patologista em um laboratório renomado e especializada justamente em câncer de mama. Essa foi minha primeira sorte!

Uma vida nova

A partir dessa ligação, minha cunhada guiou todos os meus passos médicos, foi um verdadeiro anjo. Ela veio pessoalmente dar o resultado da minha biópsia, que, diferente da nossa expectativa, mostrava mesmo um tumor maligno de mama, com receptores positivos para progesterona e estrógeno.

Uma amiga estava comigo na hora, eu tinha passado o dia tentando contar para ela sobre a suspeita, mas não tinha conseguido. A elaboração interna de situações assim é um processo muito lento. Tive dificuldades de contar também para os meus pais, e olha que me considero uma pessoa bem resolvida e aberta.

Depois disso, entrei numa vida inteiramente nova. Nunca tinha sido operada e meu parto havia sido domiciliar. O batalhão de exames pós-diagnóstico foi um período delicado e angustiante. Lembro de ficar pesquisando estudos para tentar entender por que raios eu, uma mulher saudável, sem nenhuma doença, amamentando há dois anos, tinha sido acometida por uma doença tão difícil.

Por que eu?

O câncer ainda carrega muitos preconceitos, e um dos mais cruéis é o de que o doente, de alguma maneira, é responsável pela “produção” do tumor. Como se eu não tivesse sido capaz de resolver algum problema emocional e essa decantação de coisas mal resolvidas se transformasse em um câncer.

Essa perspectiva é terrível para o paciente oncológico, que pensa: “se eu gerei um câncer uma vez, o que garante que eu conseguirei sanar todos os meus problemas emocionais e dificuldades para que ele não volte?”. O pensamento me perseguiu, mas mergulhei nos textos científicos sobre o assunto, e creio que isso me ajudou a enfrentar racionalmente a doença.

Comecei a fazer psicanálise, conversei com médicos humanos, não tecnocratas, com outras mulheres jovens que tiveram câncer em situações parecidas, e hoje sei que há outros fatores que influenciam nesse processo. Entre eles, os ambientais (como a poluição e alimentação rica em agrotóxicos), os genéticos e o uso continuado de anticoncepcionais hormonais.

Este terceiro, para mim, mostra como a sociedade ainda é bastante machista, pois a mulher é a maior responsável pela anticoncepção, normalmente por métodos hormonais, que podem ter repercussões negativas. Se os homens também fossem responsáveis por esse aspecto, e se eu tivesse informações sobre outros métodos de contracepção, como o DIU de cobre, com certeza teria pensado melhor antes de adotar as pílulas.

O tratamento

Fiz uma cirurgia conservadora, que removeu um quadrante do seio, outro procedimento para deixar o seio sadio mais simétrico, além de radioterapia e hormonioterapia. Me livrei da quimioterapia por pouco, pois já estava na véspera de colocar o cateter para receber a medicação quando descobri que o câncer que eu tinha era de baixo risco e não exigiria o tratamento.

Foi mais um privilégio, já que esse achado só ocorreu porque minha cunhada conseguiu a realização de um exame nos Estados Unidos. A ampla maioria das mulheres brasileiras não têm condições de realizar esse teste, que não é oferecido pela rede pública. Para mim, isso indica que talvez muitas estejam recebendo quimioterapia desnecessariamente.

Agora, estou no terceiro ano da hormonioterapia, que dura cinco anos e visa diminuir a chance de o tumor reaparecer. Essa foi uma fase bastante difícil e sofrida, pois entrei em uma menopausa química e passei por todos os seus sintomas: falta de libido, secura vaginal, fogachos e suores noturnos. Esse momento também me trouxe a percepção de o quanto as mulheres são ensinadas a não escutar o próprio corpo.

Eu tentava fingir que era tudo exagero da minha parte, que não era tão difícil assim. Quando finalmente assumi que estava sofrendo, as coisas começaram a melhorar e dividi isso com meus médicos. Ter uma médica mulher do meu lado, minha ginecologista, foi fundamental. Passei a tomar fitoterápicos para combater os sinais da menopausa e este ano voltei a menstruar, o que foi uma imensa alegria.

Reflexões e conselhos

A doença me deu a perspectiva de ter mais um privilégio, além da cor branca: o do acesso a um sistema de saúde muito eficiente. Fiquei pensando em quantas mulheres descobrem tarde demais o câncer de mama porque estavam esperando em filas intermináveis de exames e porque não podem fazer ultrassom, que é um exame mais caro.

Fora o aspecto social, o câncer de mama trouxe uma dimensão importante sobre minha finitude e redefiniu minha relação com o tempo. Hoje o gasto de uma maneira mais atenta, e descobri que o amor que sinto pelas pessoas é refletido pelo tempo que dedico a elas.

Outro aprendizado é o de que nossos filhos não são, de fato, nossos, mas do mundo. A perspectiva da morte, por melhor que seja o prognóstico, deve ser encarada de frente, com o perdão da redundância. Ela nos dá uma segurança essencial à maternidade: a certeza de que, na sua ausência, alguém será capaz de cuidar muito bem de seus filhos.

Para as mulheres que estão passando por isso, diria para se reconectarem com suas forças interiores e com nossas matriarcas ancestrais, pois temos corpos fortes e capazes de enfrentar as intempéries. Precisamos manter o otimismo e, para isso, é preciso elaborar a doença dentro de nós, nos livrarmos de preconceitos e conversar com quem passou pela mesma situação.

Para as que são mães, recomendo aproveitar os momentos doces com os filhos, e pedir bastante ajuda da rede de apoio, pois muitas vezes sentiremos a necessidade de ficar sozinhas e precisaremos de pessoas de confiança para cuidar das crias. Tive a sorte de ter uma rede de apoio extensa e solidária, e mais sorte ainda de ter pais e família sempre perto de mim.

Essa dimensão coletiva do trabalho de cuidar talvez seja um dos meus principais aprendizados com o câncer. Hoje tenho plena consciência de que sou uma mãe que traz várias mães dentro de mim, e isso me deixa leve e tranquila em relação à vida do meu filho.”

* O ultrassom de Vanessa teve o BiRADS 4 como resultado, quando há suspeita de nódulos malignos.

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