Consumo de açúcar na infância: quando dar o primeiro doce ao bebê?

Açúcar não deve ser oferecido para menores de dois anos. Entenda por que e veja dicas para equilibrar o cardápio depois dessa idade.

Em novembro, o Ministério da Saúde lançou a nova edição do seu Guia Alimentar para Crianças Abaixo dos 2 anos. No documento, que visa combater as taxas de obesidade infantil, a entidade foi mais enfática na questão de que o açúcar não deve ser oferecido nos primeiros anos de vida.

A principal preocupação é com a categoria dos ultraprocessados. Bebidas prontas, sucos industrializados, bolachas, queijos tipo petit suisse, iogurtes saborizados exigem moderação, mas parecem parte natural da introdução alimentar brasileira. “Vários estudos mostram que, infelizmente, temos um hábito alimentar ruim, e 83% das crianças são apresentadas a esta categoria na primeira infância, o que não é adequado”, comenta Marisa Coutinho, nutricionista do Hospital e Maternidade Santa Joana.

Nessa fase da vida, os bebês estão iniciando sua relação com a comida, e qualquer hábito introduzido ali tende a se perpetrar. “É um momento delicado, de desenvolvimento de preferências alimentares e queixas de aceitação. Se cedemos ao doce nesse momento a tendências é que a criança passe a preferi-los depois”, destaca Raquel Ricci, nutricionista do Centro de Dificuldades Alimentares do Instituto PENSI e da clínica Nutrociência.

Fora isso, há a própria questão da saúde. Cardápios ricos em doces e ultraprocessados estão associados ao risco de obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares na vida adulta e até mesmo na infância. A prevenção dessas doenças esbarra na relação popular e profunda que temos com o açúcar — quem nunca ouviu alguém dizer que sente dó de crianças que não podem comer doce? — e ninguém vai falar para nunca apresentar um brigadeiro ao pequeno.

Mas demorar para apresentar este universo vale a pena. “Os pais são julgados, mas podem ter certeza de que estão tomando a melhor decisão pelo futuro dos filhos”, destaca Marisa. Uma das vantagens aqui é dar tempo para que a criança desenvolva seu paladar com sabores mais naturais.

Se isso foi feito com sucesso, é provável que ela até desfrute um doce ou outro de vez em quando, mas sem ficar vidrada neles no futuro.

E depois dos dois anos?

A ideia é não proibir nem liberar geral, mas consumir com moderação. “A recomendação atual é de 25g ao dia, ou seis colheres de chá”, esclarece Virginia Weffort, presidente do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Parece muito, mas esse valor considera todo o açúcar adicionado em sucos e tantos outros alimentos que costumam estar na lancheira.

Um achocolatado já bate esta meta. “E uma lata de refrigerante chega a ter 35g”, completa Virginia. Para se ter ideia, nos Estados Unidos estima-se que as crianças comam até 80g de açúcar.

A Organização Mundial de Saúde dá uma recomendação semelhante à norte-americana, um pouco mais estrita, em torno de 5% das calorias diárias. Fazer essa conta é um pouco difícil na prática, mas você pode considerar que trata-se de uma porção bem módica. “Essa quantidade pode ser suprida com o próprio açúcar natural das frutas”, aponta Raquel Ricci.

Mas e o suco?

Ele faz parte do hábito alimentar brasileiro e tudo bem, pois as frutas oferecem nutrientes para as crianças. O problema principal está nos sucos que não são feitos só com a fruta, como os néctares, onde a porcentagem do vegetal é pequena e a de açúcar é alta. Prefira os integrais, sem a presença de aditivos.

“O suco processado integral pode ser ofertado, mas intercalado com outras opções, como o suco natural feito em casa, que é diluido na água e, portanto, pode ter menos frutose”, ensina Raquel Ricci. Outra dica é não coar, para preservar um pouco das fibras da fruta. A água de coco natural também é considerada uma opção válida para a lancheira — só confira as letrinhas miúdas do rótulo. 

Por último, fique atento à porção. A Associação Americana de Pediatria diz que mesmo os sucos naturais só devem ser oferecidos depois do primeiro ano. Entre 1 e 3 anos, a quantidade ideal é de 120 ml ao dia. Para crianças entre 4 e 6 anos, são 180 ml. Algumas embalagens contêm bem mais do que isso. 

Exemplo é fundamental

Se a casa vive com refrigerante na geladeira e o lanche da escola sempre leva bolacha recheada, será difícil que a criança compreenda sozinha que deve maneirar no consumo destes itens. Por isso, o ideal é deixar as fontes do açúcar livre para situações esporádicas e dar o exemplo. “Eventualmente, ele pode estar em uma saída ou no lanche da escola, mas ter em casa é estabelecer aquilo como um hábito”, ensina Marisa.

Veja outras dicas para fazer as pazes com a doçura:

  • Aproveite o dulçor natural de frutas para fazer sucos com menos açúcar. Melão e melancia são exemplares bem adocicados.
  • Compre uma quantidade limitada do alimento desejado e estabeleça limites para a criança. Se ela pede uma bolacha recheada no mercado, por exemplo, explique que poderão levar um pacote ao mês e que ela deverá comer entre duas e três unidades por mês.
  • Conforme a criança crescer, converse com ela sobre os malefícios do excesso de açúcar, sem botar terror, mas deixando claro que, em excesso, ele pode fazer mal à saúde. Mas dê o exemplo na prática, também.
  • Se o pequeno já demonstra um apetite maior por doces, o ideal é fazer reduções graduais, sem cortes abruptos, mas oferecendo trocas saudáveis e diminuições progressivas no açúcar usado no preparo das bebidas.
  • Fique atento ao rótulo dos alimentos. Eles não são obrigados a apontar o teor de açúcar mas, no caso das bebidas prontas, praticamente todo o carboidrato apontado na tabela de informação nutricional é doce. A lista de ingredientes também dá pistas importantes sobre o açúcar escondido. Glicose, xarope de milho e frutose são alguns dos nomes que indicam sua presença. Os ingredientes estão dispostos em ordem decrescente: o primeiro é o mais abundante.
  • Em festas e ocasiões especiais, permita o consumo. A alimentação saudável é a equilibrada, sem neuras ou culpas.
  • Adoçantes só são recomendados em casos específicos para crianças diabéticas ou em tratamento contra a obesidade. Oferecê-los como alternativa ao açúcar por conta própria pode fazer a criança privilegiar ainda mais o sabor doce, que é muito potente nos adoçantes artificiais.

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