Cultivo Materno Jornalista fundadora do Co.madre, Juliana Mariz acredita que mães não têm superpoderes, são mulheres de carne e osso sobrecarregadas e que merecem um lugar de destaque na sociedade

Ser mãe é viver no futuro: somos oráculos ambulantes!

Com o intuito de prevenir acidentes, frustrações, tristezas, queremos ter o controle do que está ao nosso redor. Mas será que isso não é um grande placebo?

Por Juliana Mariz Atualizado em 21 dez 2021, 18h09 - Publicado em 26 dez 2021, 16h00

Semana passada estava em uma confraternização da turma de ginástica artística da minha filha de nove anos e na mesa, compartilhada por crianças e suas mães, vi um copo de suco de laranja no canto, pronto para se espatifar no chão (ao menos na minha imaginação). Na hora, pedi licença para a menina, que eu não conhecia, e coloquei o suco mais ao centro. “É sempre bom prevenir”, falei.

Essa cena me lembrou uma condição comum à todas as mulheres que se tornam mães: a antecipação. Passamos o tempo todo tentando precipitar o que vai acontecer com nossos filhos e, com isso, acionamos um estado de alerta ininterrupto. Você se identifica?

Nossa mente parece abrigar uma bola de cristal. Somos como oráculos ambulantes. Com o intuito de prevenir acidentes, frustrações, tristezas, queremos ter o controle do que está ao nosso redor. Prever o suco que vai cair da mesa, a criança que vai escorregar, a fome que vai dar as caras antes de chegarmos ao final do passeio. 

O auge da mãe antecipadora se dá naquela pergunta diária que fazemos aos filhos, independentemente da idade: “pegou o casaco?”. Porque uma mãe é também uma especialista em meteorologia. Antes de sair de casa ela já sabe que a temperatura vai cair e que só um casaco na mochila, debaixo do braço ou no carro vai prevenir gripes e resfriados. Uau, que cansativo! 

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O placebo do controle total

Existe, sim, uma linha tênue entre cuidado e antecipação. Ao predizer acontecimentos temos a intenção de cuidar, claro. Mas me questiono o quanto isso é um pouco ingênuo da nossa parte, como um placebo que finge nos transmitir todo o controle. Enquanto conseguimos checar o uso do casaco temos a ilusória sensação de que estamos monitorando nossos filhos. Pura ilusão.

Me compadeço das mães e esse permanente estado de vigilância. Parece um hábito fixado com velcro que custa a desgrudar. Enquanto o mantra é: vamos viver no presente, estamos constantemente passeando no futuro. Isso é desgastante. Sabemos de todos os benefícios de viver o aqui e agora, mas mãe que é mãe parece só se sentir completa se der uma passadinha no amanhã.

Estamos chegando ao final de um ano que não precisa de predicado. Gostaria muito de poder usar minha bola de cristal materna e dizer que ano que vem tudo será diferente. Adoraria, principalmente, poder atestar isso para as minhas filhas. Mas não dá.

Uma grande lição dos nossos últimos tempos é a de que não temos como controlar nada – tampouco se o copo de suco de laranja vai cair. Mas seguimos sonhando e desejando.

Um lindo final de ano para vocês.

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