Ei, podemos conversar sobre a solidão materna?

Nenhuma mulher deve passar sozinha por todas as revoluções que a maternidade traz.

No imaginário das mulheres o momento da gestação, parto e maternidade jamais são solitários, mas na prática, muitas vezes isso não é verdade. Muitas mães têm dificuldade de reconhecer essa solidão, embora a grande maioria delas vá experimentar esse sentimento em algum momento da sua maternidade.

Eu me chamo Vivian, tenho 40 anos e sou mãe de dois meninos que hoje têm 8 e 5 anos. Eu descobri a minha primeira gravidez em meio a uma revolução profissional e na época, mesmo cercada de pessoas, eu me senti muito solitária e gostaria de compartilhar parte da minha história e pensamentos que podem ajudar outras mulheres que possam estar vivendo a solidão materna.

No final de 2010, quando engravidei, eu era uma executiva em uma grande multinacional e tinha acabado de voltar de uma viagem internacional de trabalho. Eu vivia correndo tanto e tão desconectada do meu próprio corpo que demorei muito mais do que o normal para descobrir a gestação. Minha antiga chefe, que conhecia o meu desejo de engravidar, tinha recém-saído da empresa e eu estava ligada a um novo diretor que eu ainda não conhecia bem. Tinha acabado de ser promovida a gerente sênior de marketing e quando contei ao meu chefe a respeito da gestação ele teve uma reação bem típica: deu parabéns ao mesmo tempo que o seu semblante mudava ao receber a notícia. Ele fez uma cara que estava muito longe de ser tranquila.

Na verdade, foi o oposto disso, em palavras ditas nas entrelinhas ele se demonstrou preocupado a respeito do momento que eu estava vivendo ser compatível com o trabalho que eu estava assumindo. Na época, a minha reação foi pensar que eu precisava provar que uma gestação e licença-maternidade pouco fariam diferença para a entrega do meu trabalho, e que eu poderia render tanto ou mais do que antes.

Comecei a trabalhar mais do que nunca. Chegava muito cedo e saía muito tarde, levava trabalho para casa e adiantava o que eu podia nos finais de semana. Se por um lado eu estava realmente me entregando ao trabalho, do outro lado eu estava cada vez menos conectada com a gestação. Estava extrapolando os limites do que era saudável e eu nem pensava muito sobre isso. O resultado dessa tentativa de me colocar como uma supermulher grávida foi uma insuficiência imuno-cervical que me colocou de repouso absoluto às 21 semanas de gestação.

Eu quis contar um pouco da minha história para trazer o contexto que vivi, mas a verdade é que, mesmo com histórias diferentes, muitas mulheres experimentam um sentimento de grande isolamento relacionada à chegada dos filhos e ao trabalho. Essa solidão pode acontecer na gestação, durante a licença ou mesmo no retorno ao trabalho. E eu me senti sozinha em todas essas ocasiões.

Quando pensamos sobre o que estamos vivendo e compartilhamos os nossos sentimentos, nos tornamos mais fortes e mais preparadas para passar pelas grandes mudanças que acompanham a nossa história. Esse texto é um convite para você pensar e se preparar para reconhecer que ser vulnerável e falar sobre os nossos medos e sentimentos pode ser uma importante atitude para espantar uma solidão prolongada.

Eu sempre imaginei que um filho fosse uma garantia de não solidão para todas as mães e por muito tempo eu associei o sentimento com pessoas que vivem sozinhas. A solidão materna desperta estranhamento e normalmente temos a tendência a fugir do que é desconhecido. Então é importante encarar a verdade: mães podem estar conectadas com os seus filhos e, ao mesmo tempo, viverem uma desconexão com todas as outras áreas da vida e com isso sentir solidão.

Quando uma mãe está experimentando a profunda conexão com o seu bebê, uma grande alteração no corpo, na mente, nos relacionamentos e na carreira está em andamento. A mãe nesse momento enfrenta a luta da perda do antigo eu e se prepara para um renascimento, que vai demandar um reconhecimento de si mesma nessa nova identidade: ser mãe! Vamos investigar juntas essa ideia.

Mergulho na solidão materna

A solidão pode vir para mães que são as primeiras entre as amigas a experimentarem a gestação. Ser a primeira não é fácil porque, ao mesmo tempo que no começo você recebe toda atenção, você começa a viver uma transformação que as suas amigas talvez não sejam capazes de compreender. Também pode ser difícil explicar para quem está do nosso lado as mudanças pelas quais estamos passando.

Muitas mulheres ainda descrevem um grande sentimento de solidão na gestação quando a gravidez não é bem recebida pela família ou por seus companheiros ou quando é uma gravidez não planejada. No meu caso, eu comecei a me sentir sozinha perto das 23 semanas de gestação, no momento que entrei de repouso e fui afastada do trabalho, conforme os dias foram passando e eu fui diminuindo a agitação em que estava vivendo e mergulhando dentro de mim.

O corpo ganhando novos contornos, meu eixo de equilíbrio sendo alterado, o sono ficando mais difícil a noite. O tempo muda, tudo parece andar mais devagar. Ao mesmo tempo que pensava em tudo que ia mudar, na segurança do bebê, em tudo que eu precisava preparar para a sua chegada, no sentimento de que uma vida ia dentro de mim, eu sentia uma necessidade extrema de pensar no futuro.

Todos esses sentimentos misturados me levaram para um lugar de silêncio, um silêncio bom, mas solitário. Eu não conversava sobre isso com ninguém e ficava imaginando se tudo que estava vivendo era algo “normal”. Tinha medo desse afastamento da empresa acabar prejudicando a minha carreira, porque sentia que era importante garantir um trabalho. Eu ia ter um filho e trabalhar ganhava um outro significado: eu pensava que agora não era só por mim, mas um meio de garantir um bom futuro para toda a família. Então, o fato de eu estar tendo uma gestação complicada, provavelmente ocasionada pelo excesso de trabalho, me fazia pensar muito sobre como tudo isso impactaria a minha carreira.

O ano era 2011 e me dou conta como eu queria ter conseguido me abrir com uma amiga, alguém que já tivesse passado por isso, alguém com quem conversar. Mas eu não tinha e não sabia onde procurar ajuda. A médica que me acompanhava nunca me perguntou se eu me sentia sozinha ou com medo. Todas as consultas eram sobre a minha saúde e a do bebê. Hoje penso em como a assistência às mulheres grávidas precisa ir muito além da saúde física, decisões de parto. Precisa envolver uma assistência muito mais ampla.

Perdas e ganhos no puerpério

Só de lembrar dessa fase tenho vontade de chorar. Agora não mais de solidão, mas para acolher a antiga eu. Durante a licença-maternidade e nos primeiros meses da criança a solidão pode aparecer quando uma mãe está hiperconectada com o seu bebê (o que é esperado) e ela passa longas horas com ele, porque uma grande conexão está sendo construída. Por outro lado falta a interação com outros adultos que compreendam a sua jornada. Falta diálogo e muitas amigas se afastam por sentirem que, como mãe, não iremos manter a nossa participação social ativa como antes.

O bebê nasce, você se sente tão feliz e com ele desperta o sentimento de responsabilidade, de responder com habilidade. A situação é nova e a necessidade de respostas vem mais rápido do que a habilidade de respondê-las. Muitas de nós estão longe da família e nos vemos sozinhas durante um longo período nos primeiros meses do bebê. A licença paternidade de cinco dias acaba rápido, perdemos a presença dos companheiros nesse aprendizado que estamos vivendo e, para quem não tem a mãe ou outra pessoa para ajudar, os dias se transformam em horas de interação exclusiva com o bebê.

Os hormônios, a falta de sono, as muitas horas amamentando e trocando fraldas sugam rápido a nossa energia e a necessidade de conversar com adultos, de falar das nossas emoções abre espaço novamente para solidão. Durante a minha primeira licença eu recebi ajuda da minha mãe e da minha sogra durante duas semanas. Meu companheiro tirou também 15 dias de férias após a licença-paternidade. Um privilégio que passou rápido demais. Depois, todos voltaram para as suas rotinas.

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Mulheres que ajudam mulheres

Eu começava a compartilhar uma grande alegria em sentir o amor e o vínculo com o meu filho crescendo dia após dia e, ao mesmo tempo, me sentia cansada. Eu tive uma grande dificuldade em amamentá-lo e foi em um grupo de apoio chamado MATRICE, que fica em São Paulo, que encontrei ajuda e um caminho para espantar a solidão. Semanalmente, eu ia aos encontros gratuitos do grupo e ficava em contato com outras 20 ou mais mães, todas com bebês pequenos. Aquilo mudou a minha vida.

Durante os encontros, aquela troca ia para além dos ensinamentos sobre a amamentação e as mulheres falavam de seus medos e dificuldades abertamente. Reconhecer que o que eu estava vivendo era compartilhado por outras mães e escutá-las me deu força para entender esse processo. A amamentação fluía cada vez melhor e os encontros semanais eram para mim um oásis de conexão com o meu feminino e com o ser mãe.

Eu só tenho a dizer que ninguém deve passar sozinha por um puerpério. Quero recomendar que todas as mulheres procurem os grupos de mães, de amamentação porque essa é a forma moderna de encontrarmos a nossa aldeia. Essa é a forma de criarmos uma rede de apoio que nos ajuda mais do que é possível explicar. Hoje, faço parte de tantos grupos de mães que não saberia contar, um aprendizado que me ajudou na minha segunda gestação e que me auxilia em tudo na vida.

Mulheres, reúnam-se! Estejam ao lado de outras mulheres e uma revolução feliz vai se iniciar.

A maternidade é uma potência para mulher

Eu preciso muito falar de maternidade e trabalho. Preciso falar porque hoje, após muitas revoluções, sou diretora-executiva na Maternativa, uma empresa focada em apoiar mães em seus desafios profissionais. Entre todas as solidões que vivi como mãe, a maior delas estava relacionada ao trabalho. Ela aparece quando sentimos que a nossa gravidez não é bem vista pela empresa, chefes e colegas e essa é uma solidão muito comum, que vem acompanhada do medo. No Brasil, assim como em muitos países, temos altos índices de demissão de mães no final do período de estabilidade legal.

Acho que todas nós conhecemos alguma mãe que foi demitida depois da licença. Isso acontece porque o Brasil tem números que indicam como a maternidade é um grande degrau quebrado na carreira das mulheres. Segundo pesquisa da FGV, 48% das mulheres deixam o mercado de trabalho antes dos filhos completarem um ano. Sabendo disso como é que uma mãe pode não sentir medo e solidão?

Mas não se engane, há muita potência dentro de você e eu quero convidá-la a reconhecer todo aprendizado que está vivendo como algo muito importante. A sua visão de mundo e o propósito de vida se expandem consideravelmente e todo esse crescimento vai ajudá-la inclusive no trabalho. De acordo com dados da Consultoria McKinsey, as empresas que contam com mulheres na liderança têm 21% a mais de chances de terem um desempenho acima da média.

Quem tem dúvidas de que a maternidade é uma grande locomotiva, um impulso para o desenvolvimento de inúmeras habilidades, provavelmente não é mãe. A própria experiência de gestar, parir, amamentar e cuidar de uma criança é por si só uma das maiores transformações possíveis que um ser humano pode atravessar. Essas mudanças e grandes transformações trazem consigo uma infinidade de aprendizados.

Uma mãe tem uma ampliação de sua visão do que significa vida, um ganho de senso do coletivo, um ganho de olhar e um impulso para transformar o futuro do mundo. Uma mulher mãe passa a perceber ainda mais o mundo para além de si mesma e investe energia e emoção para o outro.

Solidão tem solução!

Conversar mais e buscar se conectar com outras mães. Nós podemos passar por esse período juntas! A solidão materna pode ter algumas soluções e e esses caminhos envolvem não estar só. Hoje em dia a tecnologia tem ajudado a nos aproximarmos de outras mães. Podemos encontrar com mulheres que estão passando pelo mesmo processo que a gente. Grupos no Facebook, perfis no Instagram, grupos de apoio a gestantes e mães, grupos de apoio à amamentação se formam como aldeias modernas que acolhem e nos trazem um sentimento de pertencimento.

Nós também precisamos ter a coragem de falar, conversar e pedir ajuda. Não cometam o mesmo erro que eu tentando ser uma supermulher que dá conta de tudo sozinha. A chegada de um filho nos torna vulneráveis sim e passar por essa experiência, atravessar essa revolução, nos transforma e nos ajuda a saber que a força e a coragem podem andar juntas com o medo.

Quando sentimos que não podemos compartilhar o que vivemos, quando percebemos que não podemos ser quem somos, nos sentimos sozinhas. Então reúna-se, encontre a sua tribo, o seu grupo, comece a construir a sua rede de apoio. Nenhuma mulher deve passar sozinha por tantas revoluções que a maternidade traz. Meu convite é: vem com as mães! O caminho ainda terá muitos desafio, mas se você for na direção de outras mulheres, poderemos caminhar juntas.

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