Mãe escreve livro de superação após passar por perda gestacional

Quando estava grávida de 7 meses, Patricia Bellas recebeu uma triste notícia, mas resolveu ajudar outras mulheres que enfrentaram a mesma dor.

“Eu poderia imaginar qualquer coisa quando se iniciou a frase: ‘Mãe, é difícil, mas tenho que lhe falar…’. Eu não queria que me poupassem de nada, então perguntei se o bebê estava com algum problema. Pensei ser alguma deficiência. Eu estaria preparada para ajudá-lo, mas infelizmente não tinha mais o que fazer”. Foi assim que a farmacêutica Patricia Bellas, de 31 anos, que estava grávida de sete meses e meio, recebeu a notícia de que o seu filho Bento tinha falecido.

Sem estar preparada, ela teve que escolher se faria um parto normal ou cesárea e até se queria conhecer a criança. Como parte do processo de superação, a carioca resolveu escrever para reorganizar as ideias e os relatos deram origem ao livro Ele se foi, e agora? – Como superar a perda gestacional. A obra, publicada em junho pela Editora Novo Século, conta com 20 capítulos e traz dicas para as famílias que estão enfrentando esse difícil momento. Batemos um papo com a autora sobre o assunto. Confira a seguir:

No livro você comenta que teve trombofilia. Esse foi o motivo do aborto?

Patricia Bellas (P.B.): Muitas mulheres têm essa doença e não sabem. Eu só descobri quando engravidei porque fiz os exames e recebi o diagnóstico de trombofilia hereditária. Tomei injeções todos os dias na barriga para tratar, mas os médicos suspeitam que eu tive uma crise de pré-eclâmpsia. Eles acreditam que houve um pico hipertensivo na madrugada, já que não acordei bem no dia seguinte. Então liguei para a minha médica, disse que achava que estava resfriada e fui fazer os exames. No ultrassom o médico comunicou que o coração do Bento não estava mais batendo e que isso tinha acontecido há poucas horas. A primeira coisa que senti é como se o chão estivesse se abrindo e o meu marido estava comigo nesse momento. Mas tive sorte de ter uma ginecologista e obstetra excelente ao meu lado, que me poupou de um sofrimento maior e deixou que eu escolhesse tudo. Decidi fazer cesárea e também optei pela anestesia geral, já que não queria estar acordada porque sabia que não tinha estrutura psicológica para pegar nos braços o bebê que eu não poderia salvar. Fiquei desacordada e não vi o Bento, mas em nenhum momento me proibiram de nada. A médica sabia que eu queria muito enterrar o meu filho e, no dia seguinte, ela conseguiu me liberar para que fizesse isso.

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Como surgiu a ideia de publicar um livro para falar da sua experiência?

(P.B.): Tudo começou com um diário porque fiquei muito tempo em casa e estava um pouco depressiva. Resolvi escrever porque sentia que precisava sair daquela situação de alguma forma. Quando tive a perda gestacional, pensei em colocar no papel o que estava na minha cabeça e fiz isso em duas semanas, ainda no período do resguardo. Eu sempre comentei com o meu marido que queria ajudar as outras mães que tinham passado por isso, só que não sabia se teria estrutura suficiente. Mas o meu esposo leu escondido as coisas que eu tinha escrito e questionou: ‘por que você não publica isso?’. Eu disse para ele que tinha apagado o que tinha feito porque estava muito pesado. Mas a partir disso, eu comecei a focar na parte boa, vi que estava leve para mim e que poderia ficar assim para outras pessoas também.

E o livro é dedicado somente para as mães que vivenciaram essa situação?

(P.B.): Não. Ele é indicado para todo mundo. Eu falo muito da sensação que as mães têm em relação ao comportamento de amigos e familiares. E acho que também abordo questões que podem ajudar qualquer pessoa que esteja passando por um momento conflituoso – como, por exemplo, um problema na família ou uma perda de emprego – porque falo de coisas que realmente a gente precisa superar no dia a dia e conto os meus passos. Eu tive que trabalhar a mente, a autoestima, a fé e não permitir que bloqueios fossem criados dentro de mim.

Na sua opinião, o que não deve ser dito para uma mãe que enfrentou uma perda gestacional?

(P.B.): Eu acho que o que mais dói é escutar: ‘não fica assim. Deixa pra lá que daqui a pouco vem outro’. Essa é a pior frase porque parece inofensiva, mas faz com que a mulher sinta que o seu filho foi descartado. E não é. Uma criança não substitui a outra. A sociedade tem o problema de minimizar essa dor porque não viu o rosto da criança, mas as pessoas se esquecem que ela existiu. Eu falo para as mães que a dor deve se transformar em uma lembrança, que vai se transformar em uma saudade boa. Eu ando com um pingente de menininho no pescoço porque, para mim, o Bento é o meu filho. Eu sempre vou considerar isso.

Qual conselho você daria para as mães que estão passando por essa dor?

(P.B.): Eu diria para não deixar de ter fé. Não importa a religião, mas ter fé na vida porque tudo vai dar certo. Outra coisa que eu falaria é para elas não se esquecerem de que são mães, por mais que todo mundo fale o contrário. Muitas vezes, essas mulheres se sentem mal ao conversar com as pessoas porque elas têm vergonha de falar sobre o assunto, uma vez que a sociedade não as enxerga como mães. Mas elas têm que acreditar nisso: que o filho saiu de casa muito cedo para ir para algum lugar abençoado e entender que não existe uma barreira para esse amor.

(Divulgação/Divulgação)

Livro: Ele Se Foi, e Agora? Como Superar a Perda Gestacional
Autora: Patricia Bellas
Editora: Novo Século
Preço: R$ 29,90
Número de páginas: 112

 

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