Brasil é o único país com mais de 200 gestantes mortas por Covid-19

O triste recorde é um reflexo da desigualdade no acesso à saúde. Risco de morte é duas vezes maior entre grávidas negras que contraem a infecção

O Brasil ultrapassou na primeira semana de agosto o marco de 200 mortes de gestantes e puérperas por conta da Covid-19, confirmando sua posição como o país mais perigoso para grávidas no contexto da pandemia. 

Os dados são do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe) e foram compilados por pesquisadoras que há meses acompanham a evolução da doença nas gestantes. 

O grupo é composto por enfermeiras e obstetras de 12 instituições, entre elas a Fiocruz, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Recentemente, elas publicaram um estudo onde indicam que 77% das mortes mundiais neste público ocorreram no Brasil.

Para se ter ideia, nos Estados Unidos, até o dia 28 de julho, 35 óbitos maternos foram registrados, como informa o Centro de Controle de Doenças do país. Os norte-americanos lideram o ranking mundial de casos e vítimas fatais da Covid-19.

Dados indicam dificuldade no atendimento

Não é que a Covid-19 no Brasil seja mais perigosa em si. O que o estudo publicado previamente pelo grupo sugere é uma dificuldade no acesso ao atendimento adequado para versões mais graves da doença. 

Neste trabalho anterior, 22,6% das vítimas não chegaram a ser internadas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) antes de morrerem e 36% não foram intubadas, um procedimento necessário quando o pulmão está bastante comprometido pela infecção. 

Gestantes negras morrem mais 

Apesar de terem idades e condições pré-existentes de saúde semelhantes, mães negras e brancas são atingidas de maneira diferente pela Covid-19 no país. O grupo publicou uma pesquisa voltada ao recorte de raça no periódico Clinical Infectious Diseases, da editora da Universidade de Oxford. 

O trabalho aponta que gestantes negras têm quase o dobro de chance de morrer caso contraiam a doença – 17% contra uma probabilidade de 8,9% entre as brancas. Além disso, as negras estão mais sujeitas a darem entrada no hospital já com sintomas mais graves, como falta de ar e baixa saturação, e precisam mais de UTI. 

Para as autoras, os números refletem o racismo estrutural de uma sociedade onde mulheres negras estão em condições piores de trabalho e moradia, além de terem menos acesso à saúde de qualidade, o que atrasaria tanto a busca por atendimento quanto prejudicaria a qualidade da assistência.

Fora do contexto atual, o índice de mortalidade materna já era 2,5 vezes maior para as pretas brasileiras, que estão ainda sob maior risco de serem vítimas de violência obstétrica.

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