Samara Felippo: “Quando Alícia quis alisar o cabelo, acordei pro racismo”

Depois do caso de racismo que a filha Alícia viveu, Samara contou em detalhes os desafios que enfrenta como mãe branca de duas meninas negras.

Samara Felippo, atriz conhecida por novelas como ‘Chocolate com Pimenta’, ‘A Casa das Sete Mulheres’, da Globo, e agora ‘Topsíssima’ na Record, é também mãe de Alícia (10) e Lara (6), frutos do relacionamento com o jogador de basquete Leandro Barbosa. No Instagram, ela sempre mostra momentos divertidos com as filhas, entretanto, na última segunda-feira (9), o seu tom foi outro: ela relatou um caso de racismo que a mais velha sofreu.

Em uma conversa exclusiva com o Bebê.com.br, ela explicou em detalhes o que motivou o post. Junto com outros pais, Samara estava em uma festa comemorando o fim do Ensino Fundamental de Alícia, quando ela e outras crianças correram até os adultos para relatar o que estava acontecendo.

“Elas estavam no parquinho brincando com os amigos e esses adolescentes –  três meninos de 14 anos, que não são da escola, quero deixar isso claro porque elas estudam em lugar que eu gosto muito – começaram a importunar”, contou ela, que ficou chocada quando a filha relatou que foi chamada de “neguinha do cabelo duro”.

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Samara detalhou os sentimentos que a tomaram ao ver a filha sofrendo racismo e como decidiu se posicionar diante dos adolescentes que a machucaram. “Eu sempre falo muito nas minhas redes, sempre levanto muito a bandeira, porque eu sei que nós somos um país de 54% de população negra e isso é histórico. Eu falo muito, mas nunca tinha passado por isso diretamente”, contou ela, que foi tirar satisfações.

Ao vê-los fazendo pouco caso, a atriz precisou ir por outro caminho para abordá-los. “Sou a primeira pessoa que se levanta a favor do diálogo, da paz, do questionamento, do ‘vamos ensinar’. Mas nessa hora quem é mãe me entende, quem é negro e já passou por isso entende. Mistura tudo”, contou ela e completou: “Eu falei ‘vocês são três racistas. Seus pais têm que ensinar o que é isso'”.

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“Ser mãe de duas meninas negras me abriu pra um mundo eu onde eu descobri que não sabia nada. Nao sabia sequer enxergar a dor do outro. Onde eu enxerguei privilégios por ser uma mulher branca numa sociedade tão racista.” Esse é um trecho de uma fala minha na peça @mulheresquenascemcomosfilhos, que num dia de ensaio me veio aos prantos. Eu sempre falo, escrevo mas nunca tinha passado com minhas filhas por uma situação de racismo. E pela primeira vez me deparei diretamente com o que muitos passam DIARIAMENTE. Estávamos na festa de formatura da Alícia, enquanto os pais conversavam no salão de festas as crianças brincavam no parquinho ao lado. Quando uma delas veio até a mãe: “Mae, tem dois adolescentes zoando e implicando com a gente” Eu imediatamente levantei e fui a passos largos. As crianças relatavam: “Aqueles três, puxaram o cabelo do fulano, zoaram com a ciclana” Meu sangue começou a entrar em ebulição, fui que nem um bicho pra cima dos moleques e falei tudo que tenho vontade pra racistas, mesmo os ainda nem sabem que são. Garotos brancos de 14 anos, classe média de merda, com a camisa verde e amarela. Os xingamentos para minha filha eram: marrenta, neguinha e cabelo ruim. O clássico do racismo naturalizado. Agradeço ao que me fez sair da minha bolha branca e ter desde cedo esclarecido minha filha, enaltecido sua esperteza, beleza, coragem, seu cabelo, sua pele, suas raizes…e feito ela sair dessa situação de cabeça erguida e fortalecida. E assim continuo fazendo. Sei que não será a primeira e nem última vez que ela passará por isso. Agora eu te pergunto: se eu como mulher branca, cheia de privilégios, minhas filhas negras mas ainda sim com seus privilégios, seja por classe social ou tom de pele( Sim, tom de pele conta nesse país!!Quanto mais preta a pele mais preconceito sofre-se, leia sobre Colorismo)passamos por isso, imagina quantas meninas pretas passam todos os dias? Te pergunto: se eu mulher branca estou até agora chorando sozinha, com ódio e raiva, querendo esfolar a cara daqueles moleques e os pais deles, como não validar e enxergar a raiva e ódio de SÉCULOS de humilhação e violência? Acordem!

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Por racismo ser considerado crime, ir para a justiça era uma opção, mas não foi assim que Samara decidiu lidar com a situação, especialmente por perceber que conversar com os adolescentes pode ter sido efetivo de outra forma. “Nessas horas você vira uma leoa. E aí o que me bateu, desse caos, é que eu não vou para justiça. Não consegui nem chegar até os pais deles! Espero que eles tenham ido para casa pensando um pouco no que ouviram, pelo constrangimento que eu fiz eles passarem assim como eles constrangeram a minha filha”, contou.

Além das consequências diretas para os adolescentes, a situação também foi um lembrete para a própria Samara de como a criação das pequenas é importante. “Esse episódio serviu para eu entender que eu estou em um caminho certo, o que eu tenho feito de trabalho com a minha filha de empoderamento. Ela não saiu humilhada e se odiando dali – pelo contrário, eu vi o quanto ela está fortalecida e o quanto eu ainda preciso fortalecer.”

E como se empodera uma criança negra sendo uma mãe branca?

A construção desse sentimento de resiliência de se reconhecer como mulher negra é um trabalho diário e gradativo de Samara com Alícia e Lara. “Em primeiro lugar, [é dizer] que elas são negras, ponto final. A Alícia, por exemplo, já perguntou por que a mãe tem o cabelo liso e ela não, e isso é uma pergunta óbvia que vai vir para qualquer mãe que tenha crianças negras. E aí você explica, é tudo muito simples, as pessoas que fantasiam. Eu falei: seu pai é negro, a família toda dele é negra, sua raiz é negra. Você tem um pouco da mamãe e um cabelão que veio do papai. Sua descendência é basicamente negra e ponto final”.

A atriz também defende sobre repetir frases que fixem no subconsciente da criança o quão importante e capaz ela é. “[É dizer que] ‘ela é a minha pretinha’, ‘que cor maravilhosa’, ‘eu amo esse cabelo’, ‘como você é incrível’, ‘como você é esperta no que você faz'”, relata.

Só que a consciência não esteve sempre presente na vida de Samara, até que a bolha estourou. “Eu cresci uma menina branca classe média, privilegiadíssima, sem nem saber o que era isso. Contando piadinha racista na roda com a minha família, usando termos racistas até poucos anos atrás. Até que a Alicia começou a querer alisar o cabelo aos sete anos e foi aí que eu acordei”.

“Espera aí tem alguma coisa errada, o que está acontecendo para você querer alisar o seu cabelo que é maravilhoso? Pensei: bom, acho que é o meu. A mãe dela tem o cabelo liso, deve ser por isso. Ah não, deve ser porque ela viu o filme da princesa que todas são lisas. E eu fui começando a perceber que todas as amigas da escola eram meninas brancas de cabelo liso. Todas as princesas eram brancas, loiras, magras. Então, que referência que minha filha tinha? O desenho do livro de literatura da escola tem ilustrações com crianças brancas. Cadê as crianças negras, onde elas se viam? E como você vai crescer em um lugar sem se ver, que existência é essa?”, indaga Samara.

Um dos caminhos para contornar essa situação foi trazer representatividade para a vida das filhas em todas as áreas que conseguisse. “Foi isso que me impulsou a fazer o canal do YouTube. A gente já tem bastante vídeo bacaninha lá. Foi um estopim para eu falar: ‘eu preciso ensinar minha filha a amar esse cabelo. De que forma eu vou fazer isso?’. A gente brinca de cuidar, descobre cremes novos, com cheiros diferentes, penteados diferentes que a gente copia…”.

O resultado disso é uma relação muito mais saudável de Alícia com os fios cacheados. “Agora, com dez anos, ela hidrata, finaliza, acha os cremes que gosta sozinha, sabendo que tem petrolato, sulfato, parabeno, tudo que não faz bem para o cachinho dela. Pintou as pontas de azul e fez franja, porque disseram que o cabelo cacheado não pode ter franja. E na rebarba vem a minha pequena (Lara) que acaba absorvendo mais naturalmente”.

A importância de falar sobre colorismo 

Mesmo com toda a influência que Alícia tem sobre a irmã, Samara se deparou com o colorismo entre elas, a variação que existe entre o tom de pele de negros. Isso está diretamente relacionado ao quanto de discriminação essa pessoa pode sofrer ao longo da vida.

Assim como ela publicou um relato detalhado sobre o que aconteceu com Alícia na formatura, a atriz fez um desdobramento do assunto com um post no Instagram sobre o que é colorismo e a relação dele com a caçula, Lara.

“Muita gente não sabia o que era. Elas são filhas do mesmo pai, então, como uma pode ser branca e a outra negra? A Lara é uma menina preta de pele clara. Então, para ela não entrar em um limbo de ‘quem eu sou’, ‘de que raça eu sou’, ‘de onde eu vim’, eu preciso dizer que ela ainda vai crescer com a sociedade mandando ela abaixar o cabelo, dizendo que seu nariz é um pouquinho mais largo, mas sua pele é clara. Ela vai crescer com mais privilégios de que uma menina retinta, mas ainda assim ela precisa saber que ela é negra”.

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Vocês já ouviram falar sobre “Colorismo”? Apesar de repetir sempre que mesmo não tendo lugar de fala dentro do racismo eu me vejo no dever de aponta-lo, de lutar contra e ensinar minhas filhas. Não dá pra ficar calado. Qual seu papel como branco? Reconhecer seu privilégio de branco. Ponto. Leia sobre “privilégios”. Recentemente vimos o caso racista no @pgmsilviosantos. O que a moça branca deveria ter feito diante de tanta injustiça? Reconhece-la!!!! Pegar o prêmio que lhe foi dado num ato racista do apresentador e passa-lo para a campeã, @onomedelaejeniferoficial que claramente e com toda razão se sentiu constrangida, ofendida e prejudicada. Aqui nesse post quero falar sobre o privilégio do tom de pele. Aí que entra a questão: você considera a Alícia uma menina negra? E a Lara? Levando em conta que elas são irmãs, do mesmo pai. Meninas negras de pele clara crescem num limbo quando não há conhecimento e reconhecimento da sua raça. Lara não deixa de ser negra por ter a pele mais clara, mas crescerá com muito mais privilégios que meninas mais retintas. Será mais “aceita”. Talvez não a chamem de “neguinha” mas como já aconteceu muitas vezes, mandarão ela “abaixar” o cabelo. Ela não abaixará e não crescerá jamais na dúvida de sua existência como menina negra. Estou fazendo esse texto pra que chegue ao maio número de pessoas essa questão e porque me questionaram sobre a Lara, depois do episódio racista que passei com Alícia. Deixei nos stories um link onde vc poderá entender melhor pelo @portalgeledes, antes de vir depositar sua revolta equivocada e racista aqui e em outros canais. Viva a diversidade!!! ✊🏾✊🏿✊🏽✊🏼✊🏻 . . #antirracismo #racismoécrime #nãopassrão #colorismo #jeniferolivercampeã #silviosantosracista 📷  @danielajustusfotografia

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O que fazer na prática para combater o racismo

Junto com a consciência de assuntos que permeiam o tema, Samara reflete sobre a importância de reconhecer as regalias que tem em relação a pessoas de outras raças para conseguir combater o preconceito. “É sair do meu lugar de conforto na sociedade racista, reconhecer os meus privilégios. Fazê-las também reconhecer os privilégios delas, porque elas são filhas de duas pessoas de classe social bacana, de uma mãe branca, são meninas que têm uma vida relativamente confortável. Ensiná-las dos privilégios e eu reconhecer os meus. E meu desafio é esse: fazê-las se amarem e aprenderem a se defender”.

A atriz também enfatiza que nunca é cedo demais para conversar com as crianças sobre o assunto. “Muita mãe pergunta: já é para falar para o meu filho pequeno sobre racismo? Sim, já é. Vivemos nessa sociedade de ‘somos todos iguais!’, de ‘racismo é um absurdo!’. Óbvio que o discurso é lindo, mas a gente não vive assim. Então, é ensiná-la a reconhecer o racismo para, então, combatê-lo. Com ela e com os outros”.

Por fim, Samara resume e alerta: “Não deixe passar reto qualquer coisa que aconteça pelo seu filho. Sempre enalteça a beleza dele. Procure referências da raça dele. Presenteie-o com histórias de seus ancestrais. Ensine-os a reconhecer o racismo para que eles possam combater e se defender. É sempre estar atenta, porque a gente vive em uma sociedade muito cruel”.

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