Mariana Xavier: “Nunca quis ser mãe, mas amo muito ser madrasta!”

A atriz conta como é fazer parte da rotina dos filhos gêmeos de seu namorado, Diego Braga, e repensa o papel da madrasta na sociedade.

Foi o jeito carinhoso que Diego Braga falava sobre os filhos gêmeos, durante uma aula, que despertou a atenção de Mariana Xavier. A atriz, conhecida pelas novelas da Globo e pela sequência de filmes de “Minha mãe é uma peça”, conheceu o namorado, também ator, num curso e assim, logo de cara, descobriu que ele era pai de duas crianças.

A paixão bateu e, naturalmente, Mari passou a fazer parte da vida dos irmãos Diana e Danilo, de quatro anos. A convivência ficou ainda mais forte com a quarentena, quando os quatro passaram a viver alguns dias por semana na casa da atriz.

Aos poucos, com carinho e entendimento, Mari foi fazendo parte desta família e ocupando um lugar bacana e novo: o de madrasta. “Agora eles já entendem, mas a primeira vez foi um susto. Porque existe este imaginário da Disney de que são malvadas, né? Eles diziam: ‘não, você não é madrasta. Você é a Mari!'”, ri. 

Bem consciente de que a maternidade compulsória não significa felicidade na vida de uma mulher, Mari conta neste confessionário que não deseja ser mãe, mas que está curtindo muito ser uma presença constante – e responsável – na vida destas crianças.

Em uma postagem que fez sucesso em seu Instagram, a atriz repensa o título “madrasta” e questiona: “‘Boadrasta’ ou ‘ótimadrasta’. O trocadilho é intuitivo, é divertido, mas será que é necessário? Eu tenho tentado me reeducar pra não usá-lo mais, porque vejo quanto preconceito com as mulheres existe em suas entrelinhas. Ou você já viu algum padrasto entrando numa relação já precisando atenuar o termo que o designa pra provar que não é um bruxo cruel?”. Aqui, ela estende a pensata e conta mais das delícias e desafios desta etapa de sua vida.

Conhecendo os gêmeos…

“Uma das primeiras coisas que eu soube sobre o Diego foi que ele era pai de gêmeos. Foi justamente o que me chamou atenção nele, porque eu achei muito doce, muito gentil a forma como ele falou dos filhos. Mas foi uma admiração totalmente sem pretensões amorosas. Eu não estava lá com este foco e o Diego é também muito diferente do tipo de cara para quem eu olhei a minha vida inteira. 

Eu já tinha sido madrasta de uma adolescente em um relacionamento de 12 anos atrás. Na época, minha enteada tinha 15 e foi incrível. Somos amigas até hoje. Ela diz que as melhores lembranças que tem do pai são do período em que estávamos casados. 

O Diego conversa muito com os filhos e já foi preparando o terreno, contando quem eu era. Mas só nos sentimos confortáveis para um encontro quando a mãe das crianças já estava sabendo do namoro e manifestou simpatia em relação a mim, acompanhada de uma sensação de que eu as trataria bem. Ser uma figura pública querida por muita gente facilitou nesse caso, né? A primeira vez que o Diego veio com os filhos foi muito legal, eles foram acolhedores e a gente tem fotos e vídeos deles brincando aqui. 

É uma idade muito desafiadora! Um amigo meu psicólogo, Alexandre Coimbra Amaral Vicente, diz que quatro anos é a adolescência da infância. Que é quando eles estão se entendendo como indivíduos separados dos pais e eu acho que, talvez por serem gêmeos, esse processo fica ainda mais intenso.

Imagina o que que é você viver junto com alguém o tempo inteiro! E com as pessoas achando que têm que dar presente igual, que não pode ter ciúme… E este é um dos nossos maiores desafios: estimular a individualidade de cada um, sem virar uma competição, num processo de entender as particularidades.

E cada um tem o seu jeitinho mesmo. A Diana, por exemplo, desde o começo, sempre foi muito aberta e carinhosa, já o Danilo é um pouco mais desconfiado. Aos poucos, fui sentindo ele se aproximar, ficar mais seguro e confortável, se encostando em mim, me pedindo carinho… Hoje eles falam o tempo inteiro que me amam. Dizem ‘Mari, você é minha melhor amiga’, ‘você pode ser minha amiga pra sempre?’.” 

Farra na quarentena!

“Durante o período mais severo de isolamento, eu convidei o Diego para ficar aqui em casa. As crianças ficam com ele 3 ou 4 dias por semana, então foi um processo de convivência e aprendizado intenso. Foi bem legal! Agora o Diego está retomado um sonho antigo de morar sozinho e tá alugando um apartamento. Sinto que a quarentena foi um processo de empoderamento dele. Fico muito feliz de ter podido ajudar a reforçar essa conexão dele com os filhos, em que agora se sente apto e capaz de gerir uma casa em que, metade da semana, ele vai estar com duas crianças.

Na quarentena, tivemos fases. A gente brinca de tudo: dança, desenha, eu amo fazer brinquedo de reciclagem… A presença deles neste momento foi vital. Embora desafiador, as crianças trazem uma alegria e energia, que ajuda a atravessar este momento tão difícil.

Pai em transformação

“É muito nítido o amor que ele tem por essas crianças, era um grande sonho. Sinto que ele é um pai que está em processo de buscar ser melhor a cada dia, de dar afeto e boas referências. Ele também faz terapia, o que para mim foi fundamental para que a gente estivesse junto. Ele tem uma coisa de não querer passar as dores e os traumas adiante.

Somos de uma geração que não foi ensinado a lidar com sentimento. Nos mandavam engolir o choro ou dariam um motivo de verdade pra gente chorar. Então é muito bonito ver o Diego empenhado numa educação que dê autonomia para as crianças e as ensine a olharem para os seus desejos, para suas dores desde muito cedo. Fico babando, muito orgulhosa. 

Achei bonito que a mãe deles disse pro Diego: “Eu sei quem é sua namorada e adorei. Sei que ela vai cuidar muito bem das crianças”. Temos pouco contato, falamos sobre a educação e o comportamento deles, quando vamos buscá-los, mas há muito respeito.

Sempre procuro, como mulher, me colocar no lugar dela nas situações. Sei que ela tem a preocupação que qualquer boa mãe teria de querer alguém que cuide bem e que ame os filhos dela. Nos falamos por vídeo, as crianças pedem pra ele me mostrar pra ela e é bem tranquilo entre nós.”

‘Boadrasta’ não!

“Agora eles já entenderam que sou madrasta. A primeira vez foi um susto e foi até o que motivou o meu post, porque existe este imaginário da Disney, de que são malvadas, né? Eles disseram ‘não, você não é madrasta. Você é a Mari’. O Danilo adora uma caneca minha (que ganhei de um projeto lindo do Instagram @somosmadrastras) que diz “Madrasta não é palavrão”. 

Me incomoda que a gente precise usar de um eufemismo e de trocadilhos, como eu mesma fiz durante muito tempo, de falar ‘boadrasta’ como se precisasse reafirmar que ‘eu sou madrasta, mas eu não sou malvada’. Tem a ver com o imaginário das histórias que incentiva a rivalidade feminina e a disputa pelo amor de um homem. É como se uma mulher não pudesse compartilhar de bons momentos, não pudesse tratar com amor esses filhos que não são dela.

São coisas que eu tenho aprendido e repensado nesse meu processo de desconstrução. E isso acontece com vários termos. Que embora na origem não sejam negativos, no imaginário coletivo acabam se tornando. Um bom exemplo é a palavra ‘gorda’, que as pessoas vêm com sentido pejorativo, mas que é só uma característica, não é um xingamento. E madrasta também não!”

Este papel que eu ocupo é de alguém que participa ativamente da vida e da educação dessas crianças, com todo amor que eu posso dar.

 

 

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Ontem à noite numa conversa com as crianças eu usei a temida palavra: MADRASTA. Disse "Estamos estudando e testando umas coisas novas porque papai quer ser um pai melhor e eu também quero ser uma madrasta melhor pra vocês". ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Primeiro o espanto nos rostinhos dos dois, depois Diana me abraçou contestando: "Você não é madrasta, você é Mari! Madrasta é malvada, igual à da Branca de Neve!".⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Eu entendo a surpresa de Danilo e Diana. As histórias infantis sempre pintaram as novas companheiras dos pais como mulheres malvadas, competitivas, incapazes de tratar com amor filhos que não fossem seus, e isso ficou no inconsciente coletivo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Eu mesma sempre disse "BOADRASTA", ou "ÓTIMADRASTA", e também já tive esse título outrora. O trocadilho é intuitivo, é divertido, é carinhoso, mas será que é necessário? Eu tenho tentado me reeducar pra não usá-lo mais, porque hoje vejo quanto preconceito com as mulheres existe em suas entrelinhas. Ou você já viu algum padrasto entrando numa relação já precisando atenuar o termo que o designa pra provar que não é um bruxo cruel??? ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ MADRASTA não é palavrão, portanto não precisa de eufemismos. ❤ Me diz o que você acha dessa reflexão? ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ #madrasta #crianças #gêmeos #feminismo #familia #educacaonaoviolenta #parentalidadepositiva

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Maternidade compulsória pra quê?

“Eu nunca desejei ser mãe, e continuo não desejando. Esse é o tipo de declaração que as pessoas distorcem horrores, né? Acham que se você não quer ter filhos, é porque você não gosta de criança. Eu adoro! Mas também adoro a minha autonomia, a minha liberdade… Pra deixar o clima mais leve, já que algumas pessoas não sabem lidar com verdades diferentes das suas próprias, eu costumo dizer aos risos que eu adoro criança dos outros, que tem hora pra devolver. E nesse aspecto, ser madrasta é maravilhoso!

A maternidade, especialmente a biológica, nunca foi um sonho para mim. Quando eu era criança, era muito medrosa com médico, injeção, anestesia, bisturi… aí dizia que eu ia adotar, porque assim resolvia duas coisas de uma vez: não precisava passar pelas intervenções no corpo, e ainda daria carinho e amor de mãe pra uma criança que precisasse. Cresci e os medos físicos passaram, mas felizmente outros motivos bem mais sólidos passaram a sustentar a minha escolha, porque não foram poucas as pressões sociais pra que eu tivesse um filho, especialmente quando fui casada.

Não acredito nessa ideia de que a gente só se torna mulher quando tem um par ou quando gera uma vida. Acho que ser mãe é uma decisão tão definitiva, de uma responsabilidade e de uma doação tão grandes, que é o tipo da coisa que não se pode fazer com dúvida, pra realizar sonho ou suprir expectativa de qualquer outra pessoa que não seja você mesma.

Acho super legítimo quem quer tanto ser mãe que se encoraja a uma inseminação, a uma produção ou adoção independente, só não é a minha. E viva a diferença! O triste é que ainda vejo muita gente seguindo esse protocolo da maternidade compulsória, porque alguém disse que é a única e verdadeira forma de realização feminina. Não! E não é à toa que a hashtag que eu mais uso é #sejaseuprópriopadrão.

Isso vale para tudo: corpo, carreira, relacionamento e vale principalmente para você entender que pode e deve experimentar possibilidades até encontrar o seu próprio modelo de felicidade.”

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