Como o homem pode se preparar para ser pai?

Cuidar de corpo e mente é importante para aproveitar a paternidade em sua plenitude. Veja as dicas dos especialistas da concepção ao puerpério.

A mulher ganha uma boneca para “cuidar” ainda criança, começa a ir no ginecologista na adolescência, é questionada constantemente se terá ou não filhos quando adulta e, assim que engravida, passa por mudanças bruscas que apresentam fisicamente a maternidade. Para o homem, a saúde sexual quase nem é tópico de discussão e a construção da paternidade geralmente fica no imaginário, só se concretiza quando filho já está nos braços.

Este cenário tem mudado nos últimos anos, mas estereótipos ainda atrapalham o cuidado com a saúde física e emocional do homem. “Durante muitos anos houve a visão de que a mãe era a responsável pela criação dos filhos e rotinas domésticas, então o homem se afastou desse universo, e as orientações ainda são muito voltadas para a mulher”,  destaca Mariana Bonsaver, psicóloga da Maternidade Pro Matre Paulista. 

Como para eles ter um filho também traz novas emoções e responsabilidades, o ideal seria se preparar psicológica e fisicamente para esse momento.

Antes de engravidar

A responsabilidade do sucesso da gestação fica muito em cima da mãe, mas não deveria mais ser assim. A saúde do homem influencia na concepção e deve ser tratada com atenção pelo casal tentante.

De fato, algumas medidas aumentam as chances de engravidar. A primeira delas é controlar fatores de risco para infertilidade, como obesidade, doenças e estresse crônico. A mulher precisa tomar ácido fólico antes de engravidar para o desenvolvimento adequado do feto, mas os especialistas não recomendam nenhuma vitamina ou nutriente extra para os homens em geral.

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“O uso de suplementos para fertilidade é muito controverso, eles devem ser restritos a casos específicos”, aponta o urologista Marcelo Vieira, coordenador da Área de Reprodução da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Além da concepção em si, a saúde dos espermatozoides pode interferir no sucesso da gestação. “Gestações de homens que fumam, por exemplo, têm maior risco de complicações”, pontua Guilherme Wood, urologista e especialista em reprodução assistida da Huntington Medicina Reprodutiva.

Outro ponto a ser considerado é a idade de ter filhos. “O homem produz gametas, que são células reprodutivas, a vida inteira, mas se sabe que, por volta dos 45, aumenta o risco de haver danos no material genético dos espermatozoides, o que por sua vez eleva a incidência de certas doenças, especialmente neurológicas, no bebê”, destaca Wood.

Não dá para fazer nada específico para diminuir a ação do tempo, mas o fato de ser mais velho também não é nenhuma sentença de eventos negativos na gravidez e saúde do bebê. Vale lembrar que fatores ambientais, como poluição, má alimentação e sedentarismo também podem interferir na saúde dos espermatozoides – o que reforça a importância do estilo de vida saudável.

Para os homens acima dos 40, um alerta. “Tratamentos de reposição de testosterona, que são ofertados por volta dessa faixa etária para melhorar a fertilidade e outras promessas, estão sendo feitos em homens que não precisam e não são recomendados, pois o hormônio na verdade tem efeito contrário, atua como um anticoncepcional”, avisa Vieira.

Durante a gestação

Hora de trabalhar o psicológico. “O homem já sente que será pai, mas tende a só concretizar esse papel com o contato físico com o bebê, enquanto a mulher já sente as alterações fisiológicas da gravidez”, destaca Mariana. Alguns fatores, como ter um histórico pessoal ruim neste aspecto – um pai ausente, por exemplo – podem afetar o contato do homem com a própria paternidade. 

“Nesse caso, a influência pode tanto ser negativa, pela falta de referência de como agir como pai, mas também positiva, pois pode ser que ele queira fazer as coisas de outra forma e ser mais presente”, comenta a psicóloga. Se o problema for falta de exemplo, hoje existem cursos voltados para o homem, seu papel no parto e cuidados com o bebê.

Meio excluído dos debates sobre criação dos filhos, o homem tende a não perguntar muita coisa. A troca de figurinhas com outros homens que são pais pode ajudar. Se envolver nas consultas pré-natais, exames, compra de enxovais e outros detalhes da chegada do bebê ajudam a concretizar a noção de paternidade. Tarefas não faltam. 

Depois do parto

Quando o filho nasce, começa o puerpério, período intenso para a mulher, que pode ter sua saúde mental abalada pelas mudanças tão radicais na rotina e as demandas do recém-nascido. “O pai fica de fora de cuidados como a amamentação, mas pode contribuir nos arredores, nos afazeres domésticos, oferecer suporte emocional para a mãe e se organizar para estar mais presente nesta fase”, ensina Mariana.

A chegada do bebê, especialmente se ele for o primeiro, é um período conturbado para a casa toda, cheio de novidades e emoções, por isso hoje já se fala até em depressão pós-parto paterna. “Infelizmente, ainda há muita pressão para que o homem dê conta de tudo, não fale sobre sentimentos e não sofra, o que pode favorecer o aparecimento de um quadro depressivo”, comenta Mariana.

Não há estimativas ainda sobre a prevalência do problema no Brasil, mas o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos estima que até 10% dos pais pode ser atingido pelo problema. Um estudo norte-americano deste ano, feito pela Universidade de Nevada, vasculhou a internet à procura dos temas que afligem os novos pais e impactam a busca por ajuda.

Entre eles, o desconhecimento sobre o assunto, o mesmo estereótipo citado por Mariana de que é preciso ser “durão” e a dificuldade de expressar tantas emoções que surgem no pós-parto: exaustão, incapacidade, solidão, se sentir preso e a falta de sono, que pode exacerbar sintomas depressivos. Justamente por conta de tantos tabus envolvendo a masculinidade, pode ser difícil flagrar a depressão masculina.

Nos homens, ela costuma se manifestar com mudanças abruptas de comportamento, alterações de sono, de apetite, diminuição da vontade de fazer atividades que antes eram prazerosas, distanciamento das pessoas próximas e do próprio filho. Se esses sinais forem intensos e persistentes, o ideal é procurar ajuda.

Depressão e ansiedade são questões tratáveis, e toda família ganha quando o sofrimento não fica escondido embaixo do tapete. 

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