Saúde

O que você precisa saber sobre vitiligo em crianças

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Um pequeno guia para que os pais saibam identificar a condição em seus filhos, como proceder com o diagnóstico e formas de olhar com carinho para as manchinhas na pele.

“Minha pele é meu orgulho. Ela quem me define, ela é minha potência, é a representação artística das minhas emoções”. Ter vitiligo, para o músico e modelo Vitor Macedo, hoje é motivo de amor e admiração – mas nem sempre foi assim. Tendo descoberto a condição bem novinho, com cinco anos de idade, ele teve que lidar com comentários negativos de alguns colegas e olhares de quem não entendia bem as manchas pelo seu corpo.

Mas se antigamente o vitiligo era ainda pouco compreendido, hoje já existem uma série de informações, tratamentos e, principalmente, redes de apoio, formadas por pessoas que mostram como é possível ter um outro olhar para a própria pele – que envolve ressignificar as marquinhas e tratá-las com carinho.

Pensando nisso, preparamos este pequeno guia de ajuda para os pais. Para que saibam identificar o vitiligo o quanto antes em seus filhos, entendam como proceder se a condição for diagnosticada e consigam encará-la da melhor forma, para afastar as próprias inseguranças e fortalecer a autoestima do pequeno.

O que é o vitiligo?

“Vitiligo é uma doença autoimune caracterizada pelo surgimento de manchas brancas na pele por ausência de melanina. Ela ocorre devido à destruição dos melanócitos, que são as células responsáveis pela síntese de melanina – substância que dá cor à pele”, explica o Dr. Celso Lopes, dermatologista especialista no tratamento de vitiligo. 

De acordo com ele, a doença afeta cerca de 1% da população mundial e atinge pessoas de todas as idades, sendo que, na infância, o aparecimento costuma acontecer depois dos três anos de idade.

Apesar de ocorrer nas diferentes faixas etárias, as manifestações do vitiligo podem variar – sendo dois tipos mais comuns em crianças. “Observo nelas mais a forma focal, em que uma, duas ou poucas manchas se concentram em alguma região do corpo; e a forma segmentar, que é um tipo de vitiligo que acomete uma região enervada por determinado ramo neural e geralmente fica restrita à esta área”, esclarece o doutor.

Como identificar?

O dermatologista indica que os pais estejam atentos ao surgimento de qualquer mancha branca na pele do filho. Isto é, qualquer região em que haja diminuição ou ausência total do pigmento.

“Se os pais observarem qualquer mancha branca, devem procurar imediatamente um dermatologista para o diagnóstico – lembrando que existem também outras causas para o surgimento de manchas brancas na pele”, recomenda Dr. Celso. Ele ainda acrescenta que, quanto mais precoce o diagnóstico do vitiligo, melhor. “Quando tratado na fase inicial, há maior chance de controle da doença e de repigmentação”.

Como são os tratamentos?

Como a maioria das doenças, os tratamentos são variáveis e cada caso deve ser avaliado individualmente. “Nas crianças, geralmente usamos ou os corticosteróides tópicos ou imunomoduladores tópicos, mas todos esses medicamentos devem ser administrados com muito cuidado, devido a seus efeitos colaterais sobre a pele, principalmente em relação ao surgimento de atrofia ou estrias”, afirma o médico.

“Temos também os imunomoduladores, que usamos amplamente nas crianças e a fototerapia focal – como os lasers, que podem ser aplicados no local da mancha protegendo a área ao redor”, acrescenta. 

Por ser uma condição que envolve muitos fatores, como a região afetada, o tamanho da mancha e o tempo de evolução, os resultados também podem variar bastante. “Por isso, o quanto mais precocemente iniciado o tratamento, maiores as chances de sucesso”, diz o Dr. Celso. A boa notícia, segundo ele, é que geralmente as crianças respondem melhor que os adultos aos tratamentos. 

Protetor solar não pode faltar!

Além dos procedimentos específicos para conter o avanço da doença, há um cuidado básico que vale para todos os pacientes: o uso de protetor solar. “Geralmente indico filtro solar específico para crianças, com fator de proteção em torno de 50 e peço aos pais que evitem a exposição dos filhos ao sol em horários de pico (entre 10h e 16h). O uso de bonés e outras roupas já contendo filtro solar também ajuda bastante a evitar queimaduras”, prescreve Celso.

Mas quantas vezes aplicar o protetor ao longo do dia? Isso depende da rotina da criança e do quanto ela estará exposta aos raios solares, segundo o dermatologista. Se for praticar atividades ao ar livre, como brincar no parque ou jogar futebol, a aplicação é fundamental.

“Já se a família estiver na praia, procure colocar a criança sob a proteção de uma barraca de tecido bem espesso – de lona, e não de tecido sintético ou fino, que deixam passar os raios solares”, recomenda. “São proteções fáceis de serem realizadas e que ajudam na prevenção das queimaduras.”

Quando a insegurança parte dos pais...

Nos pequenos em idade pré-escolar, as manchinhas na pele podem passar desapercebidas, sem que eles nem se incomodem com a condição. Pela própria experiência do dermatologista em seu consultório, são os pais que geralmente sentem mais o impacto do diagnóstico, e surgem com preocupações em relação à evolução da doença, à aceitação do filho na escola e até mesmo ao medo do bullying.

Por isso, o dermatologista reforça a importância de um tratamento multidisciplinar, que acolha tanto as demandas dos adultos quanto das crianças. “É muito importante que o profissional que trata o vitiligo esteja atento a essas condições. Muitas vezes precisamos da ajuda de psicólogos, para orientar os pais em como se comportarem diante do diagnóstico e como lidarem com a ansiedade”, diz.

Celso fala também sobre como a abordagem da família desde o início do tratamento possui papel decisivo na relação que a criança irá desenvolver com o vitiligo. “É fundamental não deixar que a doença altere muito a dinâmica da família e o comportamento do paciente e não impor limites em excesso – às vezes vemos os pais não deixando o filho sair no sol ou ir à praia, à piscina… Isso só prejudica a qualidade de vida dessas crianças”, afirma.

Como abordar a doença com o filho

Na ansiedade de ter que dar conta de tudo, pode ser que os pais se antecipem e acabem criando questões que ainda não passam na cabecinha dos pequenos. Sobre isso, o médico recomenda: “Antes de você adiantar o problema – que seu filho não vai ser aceito pelos amigos, que vai sofrer preconceito, etc.-, perceba a demanda que ele te traz”.

A dica é conversar com a criança, de forma lúdica e de acordo com a sua faixa etária, e estar sempre atento ao seu comportamento. “Passe segurança para ela, mostre que está protegida, mas cuidado com a superproteção – e evite transmitir a ansiedade da família. Porque a criança geralmente não tem esse sentimento, ele vem dos pais”, diz o médico.

Os adultos podem também ajudar na divulgação de informações sobre a doença – um pequeno passo, mas que ajuda a derrubar preconceitos e a construir um lugar mais acolhedor para o futuro do pequeno. “Ao invés de se fechar dentro de um problema, veja isso como uma forma de ajudar outras pessoas com vitiligo, educando e instruindo a sociedade sobre o tema”, aconselha Celso.

Compartilhar é o caminho

Dividir informações e vivências sobre a doença foi exatamente o que Bruna Sanches fez. Diretora de arte, ela é dona do projeto “Minha Segunda Pele”, onde compartilha suas experiências com o vitiligo.

Neste vídeo repleto de sensibilidade, ela junta depoimentos de mães, médicos e de pessoas que descobriram as primeiras manchinhas na infância. É lindo demais ver a forma como cada um ressignificou a doença e também acompanhar de perto o ponto de vista dos pais durante o processo. ❤