Quanto menos telas e mais sono, menor a impulsividade infantil, diz estudo

Estudo canadense com milhares de crianças indica (mais um) possível benefício em controlar o uso de eletrônicos na infância. Dessa vez, o comportamento.

Por Chloé Pinheiro Atualizado em 28 ago 2019, 13h51 - Publicado em 27 ago 2019, 18h13

O uso excessivo de telas está ligado a impactos negativos no desenvolvimento do cérebro e do comportamento das crianças, além de facilitar o aumento nos níveis de sedentarismo. Um novo trabalho canadense mostra, por outro lado, que limitar o tempo passado em frente a smartphones, tablets e televisão pode ajudar a reduzir comportamentos impulsivos das crianças.

O trabalho analisou o comportamento de mais de 4.500 voluntários entre 8 e 11 anos de idade. O parâmetro para análise foi a diretriz canadense sobre movimentação infantil (Canadian 24-Hour Movement Guidelines for Children and Youth, no original em inglês). O documento sugere que, entre os 5 e 17 anos, as crianças tenham entre 9 e 11 horas de sono por noite, uma hora de atividade física de moderada a intensa e no máximo duas horas de uso recreacional – aquele não vinculado a nenhuma atividade educativa – de telas ao dia. 

Estudos mostram que crianças que seguem diretrizes como essas têm melhor função cognitiva, níveis menores de obesidade, comem de maneira mais saudável e têm qualidade de vida superior. Os pesquisadores analisaram, então, se o comportamento impulsivo delas poderia ser beneficiado pela diretriz.

Para isso, as crianças tinham que responder questionários sobre oito aspectos da impulsividade, como a tendência a abandonar uma tarefa no meio e agir em reposta às emoções, sem apelar para o lado racional antes. No fim da análise, as crianças com hábitos dentro das recomendações, em especial sobre telas e sono, se saíram melhor em todos os domínios avaliados.

  • Impulsividade menor, mas achado é relativo

    Para os autores do estudo, publicado no Pediatrics (periódico da Associação Americana de Pediatria), isso indica que usar racionalmente tablets e ter um descanso de qualidade pode fazer as crianças tomarem melhores decisões e agir menos precipitadamente. Essa ação positiva ajudaria a prevenir distúrbios ligados à ela no futuro. “O comportamento impulsivo está ligado a vários problemas de saúde mental e compulsão, incluindo transtornos alimentares e abuso de substâncias”, destacou à imprensa Michelle Guerrero, pesquisadora da Universidade de Ottawa, no Canadá, que liderou a pesquisa.

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    Cabe destacar que o elo entre telas e comportamento está sendo investigada. Assim, é cedo para dizer que elas são responsáveis por aumentar a impulsividade em crianças. “Não dá para generalizar, pois há crianças que já tem algum transtorno de base que é potencializado pelo estímulo dos eletrônicos, como o TDAH”, destaca Deborah. Mas a relação é plausível, e há hipóteses que a explicam.

    Uma delas é o estímulo oferecido pelas informações transmitidas na tela em um cérebro em formação. “É preciso levar em conta que a impulsividade é um comportamento natural da criança, pois a área responsável pelo autocontrole ainda está em desenvolvimento até por volta dos 11 anos”,  aponta Deborah Moss, neuropsicóloga mestre em psicologia do desenvolvimento pela Universidade de São Paulo (USP). 

  • Assistir um desenho ou um vídeo é uma atividade que gera excitação, mas é passiva. O ideal é balancear a telinha com meios físicos de expressar essa energia e impulso naturais da idade: atividades ao ar livre, artes, jogos e brincadeiras “offline”, que estimulam outras áreas e geram desafios que ajudarão a criança a desenvolver seu autocontrole. O problema parece estar mais no exagero, vale destacar. 

    Já a questão do sono é bem mais estabelecida, assim como a influência negativa de utilizar os gadgets antes de dormir, por conta da luminosidade e dos estímulos intensos em um momento que deveria ser de relaxamento. “Uma criança cansada é mais impulsiva e mais ‘birrenta’, e a privação do sono pode levar a prejuízos no aprendizado, na atenção e na memória”, comenta Deborah. 

    Como usar o smartphone e o tablet melhor

    A recomendação da Organização Mundial de Saúde é a de que os bebês não sejam expostos a telas no primeiro ano de vida. Para a entidade, o uso sedentário, quando a criança só fica assistindo algo, deveria ser contraindicado até o segundo aniversário. Aos dois anos, uma hora por dia, e quanto menos melhor. Já a Sociedade Brasileira de Pediatria contraindica o uso passivo antes dos dois anos e, entre os dois e os cinco, recomenda limitar a exposição a uma hora ao dia. 

  • As diretrizes, como todo pai sabe, são distantes da prática. Hoje é praticamente inevitável que o filho tenha contato com uma telinha. Entre os segredos para alcançar o equilíbrio, conversar desde cedo sobre os efeitos do uso exagerado e estabelecer limites. Participar do momento, se interessar pelo que o pequeno está vendo e avaliar o tamanho da presença dos eletrônicos na vida da família toda — o exemplo conta muito.

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