Quanto menos telas e mais sono, menor a impulsividade infantil, diz estudo

Estudo canadense com milhares de crianças indica (mais um) possível benefício em controlar o uso de eletrônicos na infância. Dessa vez, o comportamento.

O uso excessivo de telas está ligado a impactos negativos no desenvolvimento do cérebro e do comportamento das crianças, além de facilitar o aumento nos níveis de sedentarismo. Um novo trabalho canadense mostra, por outro lado, que limitar o tempo passado em frente a smartphones, tablets e televisão pode ajudar a reduzir comportamentos impulsivos das crianças.

O trabalho analisou o comportamento de mais de 4.500 voluntários entre 8 e 11 anos de idade. O parâmetro para análise foi a diretriz canadense sobre movimentação infantil (Canadian 24-Hour Movement Guidelines for Children and Youth, no original em inglês). O documento sugere que, entre os 5 e 17 anos, as crianças tenham entre 9 e 11 horas de sono por noite, uma hora de atividade física de moderada a intensa e no máximo duas horas de uso recreacional – aquele não vinculado a nenhuma atividade educativa – de telas ao dia. 

Estudos mostram que crianças que seguem diretrizes como essas têm melhor função cognitiva, níveis menores de obesidade, comem de maneira mais saudável e têm qualidade de vida superior. Os pesquisadores analisaram, então, se o comportamento impulsivo delas poderia ser beneficiado pela diretriz.

Para isso, as crianças tinham que responder questionários sobre oito aspectos da impulsividade, como a tendência a abandonar uma tarefa no meio e agir em reposta às emoções, sem apelar para o lado racional antes. No fim da análise, as crianças com hábitos dentro das recomendações, em especial sobre telas e sono, se saíram melhor em todos os domínios avaliados.

Impulsividade menor, mas achado é relativo

Para os autores do estudo, publicado no Pediatrics (periódico da Associação Americana de Pediatria), isso indica que usar racionalmente tablets e ter um descanso de qualidade pode fazer as crianças tomarem melhores decisões e agir menos precipitadamente. Essa ação positiva ajudaria a prevenir distúrbios ligados à ela no futuro. “O comportamento impulsivo está ligado a vários problemas de saúde mental e compulsão, incluindo transtornos alimentares e abuso de substâncias”, destacou à imprensa Michelle Guerrero, pesquisadora da Universidade de Ottawa, no Canadá, que liderou a pesquisa.

Cabe destacar que o elo entre telas e comportamento está sendo investigada. Assim, é cedo para dizer que elas são responsáveis por aumentar a impulsividade em crianças. “Não dá para generalizar, pois há crianças que já tem algum transtorno de base que é potencializado pelo estímulo dos eletrônicos, como o TDAH”, destaca Deborah. Mas a relação é plausível, e há hipóteses que a explicam.

Uma delas é o estímulo oferecido pelas informações transmitidas na tela em um cérebro em formação. “É preciso levar em conta que a impulsividade é um comportamento natural da criança, pois a área responsável pelo autocontrole ainda está em desenvolvimento até por volta dos 11 anos”,  aponta Deborah Moss, neuropsicóloga mestre em psicologia do desenvolvimento pela Universidade de São Paulo (USP). 

Assistir um desenho ou um vídeo é uma atividade que gera excitação, mas é passiva. O ideal é balancear a telinha com meios físicos de expressar essa energia e impulso naturais da idade: atividades ao ar livre, artes, jogos e brincadeiras “offline”, que estimulam outras áreas e geram desafios que ajudarão a criança a desenvolver seu autocontrole. O problema parece estar mais no exagero, vale destacar. 

Já a questão do sono é bem mais estabelecida, assim como a influência negativa de utilizar os gadgets antes de dormir, por conta da luminosidade e dos estímulos intensos em um momento que deveria ser de relaxamento. “Uma criança cansada é mais impulsiva e mais ‘birrenta’, e a privação do sono pode levar a prejuízos no aprendizado, na atenção e na memória”, comenta Deborah. 

Como usar o smartphone e o tablet melhor

A recomendação da Organização Mundial de Saúde é a de que os bebês não sejam expostos a telas no primeiro ano de vida. Para a entidade, o uso sedentário, quando a criança só fica assistindo algo, deveria ser contraindicado até o segundo aniversário. Aos dois anos, uma hora por dia, e quanto menos melhor. Já a Sociedade Brasileira de Pediatria contraindica o uso passivo antes dos dois anos e, entre os dois e os cinco, recomenda limitar a exposição a uma hora ao dia. 

As diretrizes, como todo pai sabe, são distantes da prática. Hoje é praticamente inevitável que o filho tenha contato com uma telinha. Entre os segredos para alcançar o equilíbrio, conversar desde cedo sobre os efeitos do uso exagerado e estabelecer limites. Participar do momento, se interessar pelo que o pequeno está vendo e avaliar o tamanho da presença dos eletrônicos na vida da família toda — o exemplo conta muito.

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