Dislexia em crianças: o que é, como identificar e tratar

Antes de mais nada, é preciso entender a dislexia como um transtorno de aprendizado, que não deve servir de termômetro para medir a inteligência da criança.

Por Ketlyn Araujo Atualizado em 19 Maio 2021, 12h40 - Publicado em 19 Maio 2021, 11h47

Derivado do grego, o termo dislexia significa “dificuldade com as palavras”. Hoje em dia, e graças a diferentes estudos sobre o tema, sabemos que a condição é ampla e considerada por especialistas um transtorno específico de aprendizagem, que tem origem neurobiológica e se caracteriza por problemas no reconhecimento preciso ou fluente das palavras, além de complicações na decodificação e dificuldades referentes à ortografia, à correlação de letras e sons do próprio idioma e, ainda, à leitura de palavras impressas.

O transtorno, informa Juliana Amorina, fonoaudióloga, mestre em saúde da comunicação humana e diretora presidente do Instituto ABCD (organização social que promove e dissemina projetos que tenham impacto positivo em brasileiros com dislexia), atinge cerca de 4% da população brasileira, mais de 7,8 milhões de pessoas.

A condição pode vir acompanhada por outros dos chamados transtornos, como a discalculia (que compromete habilidades matemáticas) e a disortografia (referente à escrita), mas nem sempre se apresenta dessa forma. Já quando não tratada ou negligenciada, a dislexia pode interferir no desempenho acadêmico, profissional ou até de atividades cotidianas realizadas pelo indivíduo.

“Essas dificuldades geralmente derivam de um déficit no componente fonológico da linguagem, muitas vezes surpreendente quando comparado a outras habilidades cognitivas e ao acesso à aprendizagem. Consequências secundárias podem incluir dificuldades na compreensão de texto e pouca experiência de leitura, podendo impedir o desenvolvimento do vocabulário e do conhecimento geral”, completa a especialista.

Pais, atenção: começa na infância!

Apesar de atingir de maneira expressiva a população adulta, ao contrário do que muita gente pensa a dislexia é um transtorno que se manifesta já na infância e permanece ao longo da vida: ou seja, um adulto disléxico, de uma maneira geral, já foi uma criança com dislexia.

É o que explica a neuropediatra especializada em neurologia infantil Mariana Espíndola. “Os sintomas começam a se manifestar ainda na infância, principalmente no início da atividade escolar. O que pode acontecer, porém, é a chamada dislexia adquirida, ou alexia, que é quando a pessoa perde a habilidade de ler e escrever devido a uma lesão cerebral, como um traumatismo, um derrame ou um AVC, por exemplo”.

Por isso é fundamental que pais e demais responsáveis estejam atentos aos sintomas de uma possível dislexia em crianças, o que vai permitir um diagnóstico e intervenção precoces, bem como a aplicação de tratamento eficaz.

  • Mas o que causa? 

    Juliana ressalta que as causas de um quadro de dislexia são múltiplas, e podem variar de pessoa para pessoa. Sabe-se, por exemplo, que o transtorno pode se manifestar graças a um componente hereditário, de modo que a interação entre fatores genéticos e ambiente no qual a criança se desenvolve influenciam na intensidade dos sintomas relacionados à dislexia.

    Além disso, completa Mariana, diferenças nos sistemas cerebrais, responsáveis pelo processamento fonológico, podem causar dificuldades referentes à compreensão dos sons das palavras e associação com letras e sequências representadas por elas. Por fim, fatores como déficit nutricional, uso de medicamentos ou drogas ainda durante a gestação também podem ter sua parcela de influência no diagnóstico da dislexia.

  • Observar a criança na escola ajuda no diagnóstico

    menina e professora em sala de aula
    Halfpoint/Getty Images

    Entre os principais indícios de que uma criança apresenta dislexia, estão a dificuldade no aprendizado, desatenção constante, dispersão em sala de aula, ansiedade e queda na autoestima.

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    Por conta desses sintomas serem melhor observados no próprio ambiente escolar, é fundamental que professores e demais educadores funcionem como aliados para um diagnóstico mais preciso da dislexia. Afinal, é durante a alfabetização que os sinais ficam em evidência, seja por conta de problemas na hora de aprender os nomes das letras, inversão de sílabas, confusão entre palavras similares e lentidão na leitura, por exemplo.

    “É importante sempre saber diferenciar o que é apenas uma dificuldade de aprendizado daquilo que é, de fato, um transtorno. No segundo caso, podem ser observados prejuízos na parte acadêmica e no funcionamento do indivíduo, e existem vários critérios que são usados para fazer essa análise, tudo de acordo com os sintomas apresentados pela criança”, destaca Mariana. Ela ainda reforça que, para que haja o reconhecimento da dislexia, é preciso descartar a possibilidade de deficiência intelectual, algo totalmente diferente e muito mais complexo.

    Após a observação desses sinais, os pais ou responsáveis devem procurar por ajuda específica e profissional. A avaliação da dislexia, de acordo com as especialistas, é geralmente realizada por uma equipe multidisciplinar, que pode variar de acordo com os sintomas apresentados pela criança e com o centro ou clínica responsável por ela.

    Geralmente, trata-se de um time que reúne psicólogos, neuropsicólogos, fonoaudiólogos, médicos (pediatras, neuropediatras, neurologistas e/ou psiquiatras) e psicopedagogos, que vão atuar em conjunto e compartilhar os resultados das avaliações especializadas para uma conclusão precisa.

    “O acesso ao diagnóstico é uma questão muito importante, pois quanto mais tardio ele for maiores os impactos na aprendizagem e, com frequência, as consequências emocionais no desenvolvimento da criança”, fala Juliana.

  • Existe tratamento ou cura para dislexia?

    A dislexia é considerada uma condição persistente, ou seja, não tem cura, mas permite tratamento que vai auxiliar a criança a desenvolver estratégias para lidar com suas dificuldades ao longo da vida – quanto mais cedo ele for feito, como já informamos, melhor. O tratamento, assim como o diagnóstico, também precisa ser colocado em prática por meio de equipe multidisciplinar: ao serem consideradas as habilidades, dificuldades e idade da criança ou adolescente, entram em cena profissionais da psicologia, que orientam a criança e a família, da fonoaudiologia, para auxiliar na leitura e na escrita, e psicopedagogos, responsáveis pelo suporte no aspecto acadêmico.

    Como a maior dificuldade de uma criança com dislexia é aprender a ler, complementa Juliana, o trabalho profissional interventivo deve ser baseado em métodos de alfabetização considerados eficazes para alunos nesta condição.

  • O papel da família é fundamental!

    A família também possui papel relevante para que a criança possa conviver com a dislexia sem maiores problemas, mas é compreensível que, por esse não ser um tema tão abordado na sociedade, alguns pais e responsáveis encontrem dificuldades na hora de promover suporte ao pequeno.

    Após o diagnóstico, portanto, é recomendado que familiares se informem e estudem sobre a dislexia, seja por meio de materiais de apoio, conversas com médicos e demais especialistas ou, inclusive, ao participar de grupos de pais e mães de crianças que apresentem a condição. Todas essas medidas auxiliam para que adultos naturalizem o transtorno e, mais ainda, evitem que a criança se sinta desvalorizada, incompreendida ou desmotivada por suas dificuldades de aprendizado, seja a curto ou longo prazo.

    “É importante que os pais aceitem o diagnóstico, reconheçam as dificuldades e procurem ajuda. Sabemos que a dificuldade no aprendizado pode estar associada a alguns mitos, como preguiça, falta de estímulo, ou de pensar que a criança tem alguma deficiência intelectual. Na verdade, crianças disléxicas são bastante inteligentes, e quanto mais cedo a gente reconhecer e intervir no problema, melhor vai ser para que elas evitem prejuízos no futuro”, explicita Mariana.

    Já no aspecto social, diz Juliana, o conhecimento sobre o tema é a chave para quebrar tabus e preconceitos. “É necessário investir na conscientização sobre a dislexia, discutindo suas características, como identificá-la precocemente, quais estratégias pedagógicas são mais eficientes para o ensino e quais ferramentas auxiliam a autonomia de quem vive com ela. Enquanto não alcançarmos um bom nível de conhecimento nessa área, as pessoas com dislexia não terão seus direitos garantidos”, finaliza.

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