Cuidados com a higiene: quando a criança pode fazer sozinha?

Tomar banho sem supervisão, escovar os dentes e se limpar por conta própria depois de usar o banheiro. Saiba identificar quando seu filho estiver pronto!

A primeira palavra, o começo do engatinhar, a experiência de provar uma papinha… O desenvolvimento do pequeno é mesmo um processo encantador. Claro que ele nunca acontece de forma linear e são muitas idas e vindas até que se chegue a uma nova etapa, não é mesmo? A única certeza é que estaremos lá comemorando cada uma das conquistas.

No entanto, apesar de sabermos que alguns marcos independem dos pais, outros acontecimentos exigem sim o aval dos responsáveis, como é o caso da higiene pessoal. E, como em muitas situações do crescimento, as perguntas são muitas: “Meu filho já pode tomar banho sozinho?” e “será que já dá conta de escovar os dentes ou se limpar sem ajuda na privada?”.

Como você já deve imaginar, não há resposta que funcione para todas as crianças da mesma forma, mas existe um certo consenso entre os especialistas de que os adultos devem priorizar a independência e iniciativa do indivíduo. “Para ilustrar o meu pensamento, vou usar uma frase da educadora italiana Maria Montessori: ‘Nunca ajude uma criança em uma tarefa que ela sinta que possa realizar sozinha’. A partir deste princípio, devemos incentivar a autonomia da criança desde sempre“, afirma a psicóloga infantil e educadora parental Grace Falcão.

Estimular a independência dos pequenos é crucial para que comecem a querer fazer coisas sozinhos, mas também possui efeitos a longo prazo e em suas personalidades, como conta a Dra. Flávia Nassif, pediatra do Sírio-Libanês: “Se eles se conscientizam de que conseguem fazer essas atividades, isto se torna um grande marco e reforça a autoconfiança deles”.

E o oposto também é verdadeiro. Ou seja, não incentivar as tentativas das crianças e repreender seus erros pode dar a elas um entendimento bastante prejudicial. “Se você estimula a dependência – por exemplo, quando seu filho começa a fazer algo você já se antecipa e ajuda – ele pode ficar com medo e ter a leitura de que não é capaz de fazer sozinho. Isto pode gerar dependência, timidez ou alguma outra questão”, explica Grace.

Quando deixar a criança tomar banho sozinha?

Já fizeram a anotação mental de “incentivar a autonomia da criança”? Então vamos ao primeiro ato de higiene: tomar banho! De acordo com as profissionais, saber a hora de deixar o filho se banhar sozinho depende dos sinais de prontidão que ele demonstra – e o primeiro deles é a vontade de realizar a atividade.

“A própria criança começa a pedir. E, se ela não demonstrar vontade, os pais podem estimular com brincadeiras – dizendo que vão dar banho no patinho ou em algum brinquedo que ela gosta, por exemplo”, pontua a psicóloga. Já os demais sinais aparecerão nos momentos de “treino”, ou seja, quando os adultos deixarem os pequenos fazerem algumas etapas da tarefa por conta própria (mas sempre com supervisão, viu?).

“Cada criança esboça essa vontade de autonomia em uma época diferente. Por volta de dois ou três anos, em média, ela pode começar a querer esse tipo independência e, a partir daí, vale a pena que os pais comecem a delegar algumas atividades para a criança na hora do banho – por exemplo, colocando o shampoo na cabeça e deixando a criança lavar e enxaguar”, afirma a pediatra.

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Segundo ela, mais que estabelecer um critério de faixa etária para o banho sem supervisão, é importante que os responsáveis procurem notar os indícios de independência e de maturidade – até mesmo motora – que o pequeno apresenta.

“Tudo vai depender de como a criança evolui nessa etapa de supervisão, mas por volta de cinco ou seis anos, ela já pode ter condições de tomar banho sozinha. Por exemplo, se já consegue colocar o shampoo na mão, lavar e enxaguar sem deixar resíduos, passar o condicionador de uma forma consciente e com a quantidade adequada, além de os pais terem que intervir menos vezes, quer dizer que a criança provavelmente está pronta para tomar banho sozinha”, acrescenta Flávia.

Cuidado com a segurança! 

O banheiro é um dos maiores focos de acidentes domésticos com as crianças. Por isso, desde a etapa de treino os pais devem ficar atentos à segurança do lugar – optando por tapetes antiderrapantes e, se possível, boxes de materiais que não apresentam perigo. Confira mais dicas de como proteger cada cômodo da casa!

Caso a ideia seja deixar os irmãos tomarem banho juntos, o ideal é estarem sempre sob supervisão. “Isso porque a higiene em conjunto acaba se tornando uma brincadeira e pode representar um risco maior no sentido de escorregar e bater a cabeça, por exemplo”, alerta a pediatra.

Existe idade certa para escovar os dentes por conta própria?

Mais uma vez, a idade varia, mas o treinamento pode começar logo cedo. “A partir de dois anos, a criança já tem condição de começar a fazer a escovação – nem que seja só dos dentinhos da frente. Claro que não será perfeita e exige supervisão e complementação dos pais, mas o interessante é começar a criar o hábito“, sugere a educadora parental. Saiba mais sobre os cuidados com os primeiros dentes do bebê.

Flávia complementa reforçando a importância de envolver a odontopediatra da criança no processo, para que ela consiga orientar a família. “Antes de chegarmos em um estágio de total independência, os pais junto com a dentista têm que ensinar os movimentos adequados para que a criança desenvolva essa habilidade”, afirma.

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O aprendizado necessário para que o pequeno realize a escovação sozinho costuma acontecer dos quatro aos seis anos, segundo a pediatra. Neste momento ele já tem a coordenação motora um pouco mais desenvolvida, “mas não é porque seu filho não conseguiu aos seis anos que ela tenha algum problema de desenvolvimento. Pode apenas demandar mais atenção”, tranquiliza a doutora.

E para se limpar sozinho depois de usar o banheiro?

“O limpar sozinho acontece um pouco mais para frente, porque exige uma coordenação motora mais desenvolvida. Podemos começar o treinamento a partir de quatro anos de idade, que em geral a criança já desfraldou e está mais autônoma em relação a ir ao banheiro”, responde Grace.

No entanto, não podemos fazer a mesma recomendação para meninos e meninas, tendo em vista suas diferenças anatômicas. “A uretra masculina não é tão próxima da região anal e isto garante uma certa proteção no sentido de que, se a higienização for incorreta, não haverá grandes prejuízos em comparação com o sexo feminino”, esclarece a pediatra.

“Já as meninas, muitas vezes acabam se limpando de trás para frente, trazendo o papel higiênico da região do bumbum em direção à vagina, e isto acaba contaminando a região vaginal e tendo maiores riscos de infecção – tanto vulvovaginites (inflamação da vulva e da vagina) quanto infecções do trato urinário. Portanto, as meninas podem precisar de uma atenção diferenciada”, conclui Flávia.

Assim, se durante a supervisão os pais perceberem que a criança consegue realizar o ato direitinho, sem levar os germes da região anal para a genitália, pode ser que ela já esteja pronta para fazer por conta própria.

A higiene sem supervisão não está funcionando. E agora?

Antes de tudo, vale lembrar que cada criança tem seu tempo e os pais devem evitar comparações. “Cada filho tem uma habilidade – ele pode não ter a coordenação motora tão desenvolvida, mas uma linguagem bem articulada, por exemplo”, pontua a psicóloga.

Neste sentido, uma dica para que o pequeno se sinta à vontade para fazer as tarefas sozinho é apostar no encorajamento e não no “elogio pelo elogio”, pois, de acordo com Grace, só elogiar pode criar um senso de satisfação na criança, como se tivesse que acertar sempre para ganhar as atenções. “Já o encorajamento, dizendo ‘não foi dessa vez, mas da próxima pode ser que você consiga’, faz com que a criança não tenha medo de errar”, explica.

Agora, se os pais começarem a sentir que o filho está com grandes dificuldades para passar pela fase do desenvolvimento – por exemplo, sentindo um medo patológico ou prendendo os esfíncteres para não evacuar – é preciso avaliar a presença de alguma tensão emocional.

Nestes casos, a educadora parental recomenda uma orientação familiar com psicólogo e com os médicos da criança. “Antes de insistirem naquilo que o filho não quer fazer, recomendo consultarem o pediatra, para que tentem identificar o que está dificultando os sinais de independência. Às vezes, pode ter sido uma experiência negativa que acabou bloqueando a criança”, conclui a doutora do Sírio-Libanês.

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