Movimento certo da língua do bebê pode resolver problemas na amamentação

E a reeducação com o fonoaudiólogo tem potencial para abrandar inclusive condições da mãe, como mastite, baixa produção de leite e dor ao amamentar.

Para que a amamentação dê certo, a capacidade de sugar adequadamente do bebê pode ser tão importante quanto o formato do mamilo da mãe ou quanto leite o seio produz. Foi o que um estudo confirmou ao criar um “bebê virtual”, que analisa com precisão os movimentos realizados pelos pequenos durante a mamada.

Com o modelo, foi possível observar detalhes que podem passar despercebidos às mães e, assim, causarem fissuras nos mamilos e mastite, inflamação dolorosa nos seios. “É comum a mulher achar e ouvir de profissionais que o problema está nela e que a pega do bebê está correta, mas nem sempre é isso o que ocorre”, aponta Flávia Puccini, fonoaudióloga e autora do trabalho, desenvolvido em conjunto com a Universidade de São Paulo (USP).

“Agora, conseguimos mostrar a importância dos movimentos do bebê e o que está em jogo para que a amamentação seja eficiente e não machuque a mãe”, completa a especialista. O estudo mostrou, por exemplo, que abocanhar muito a aréola e empurrar a língua contra o bico, numa ordenha mecânica, não é o movimento mais eficaz para a sucção.

O jeito certo de mamar

“Há até pouco tempo, achávamos que o bebê tinha que fazer movimentos peristálticos e empurrar a ponta da língua na auréola, mas esse efeito de ordenha quem faz é a mãe com o dedo, pressionando a auréola para que o leite saia”, explica Flávia. A mãe facilita o processo, mas o leite é extraído de verdade pelo vácuo criado na boca do neném a partir do movimento da língua: a ponta estável em cima e a parte média abaixada.

“Assim, cria-se um efeito parecido com o de uma seringa, que precisa de vedação para funcionar”, aponta Flávia. Se há alguma falha no posicionamento, o bebê acaba não sugando como deveria – e é aí que os incômodos começam. “Se ele não faz essa pressão, gasta muita energia para não ter a quantidade de leite que precisa, então cansa e a sucção vai ficando mais difícil ainda”, orienta a fonoaudióloga.

O cérebro da mãe, que fica com o peito cheio, por sua vez, entende que não precisa fabricar mais e, assim, a produção de leite vai diminuindo. Por isso mesmo, o ideal é analisar a pega o quanto antes. “Se demora muito, o bebê já está acostumado com o movimento incorreto, os machucados no mamilo estão grandes e a produção de leite já caiu”, conta.

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Como saber se algo está errado?

Se a pega não parece ser o problema, preste atenção nos outros sinais. Além da própria queda na produção de leite, os machucados indicam que provavelmente o bebê não está sugando adequadamente. “A criança pode usar a gengiva, por exemplo, e acabar mordendo o mamilo”, exemplifica Flávia.

As fissuras, portanto, são um sinal de alerta. “Nos primeiros dias pode até ser normal, mas depois não adianta fazer tratamentos para cicatrizar feridas pois o bebê continuará machucando”, orienta. Fazer muitos estalinhos com a boca, ruídos no nariz, mamar por pouco tempo e logo sentir sono ou querer mamar a todo instante também indicam que o pequeno não está conseguindo sugar com eficiência.

O Bebê Virtual

 (Homem Virtual (USP)/Reprodução)

Com a ajuda de exames de imagem, medidores de pressão e mamas artificiais, o grupo avaliou em detalhes o processo de sucção do leite. O trabalho é parte do Projeto Homem Virtual, da USP, que cria reconstituições verossímeis e tridimensionais do corpo humano para facilitar o diagnóstico e o aprendizado para diversas áreas da saúde.

A modelagem de computação gráfica em 3D do bebê mamando foi realizada por uma equipe interdisciplinar a partir da análise de estudos publicados em periódicos que avaliaram a sucção com ultrassom. “A mãe consegue perceber e intervir depois que entende e vê como funciona o processo de extração do leite”, esclarece Flávia.

A ideia é que ele seja utilizado nos consultórios para mostrar às mães como deveria ser a sucção ideal e, assim, facilitar a correção com sessões com um fonoaudiólogo. Profissional que, embora pouco lembrado quando o assunto é amamentação, especialmente em recém-nascidos, pode fazer a diferença. “Ele faz manobras para adequar a musculatura da criança e reorganizar a mamada”, aponta a autora da pesquisa.

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