Desenvolvimento
Livros para bebês
Os livros do seu bebê estão amassados e sem páginas? Ótimo! Segundo a psicóloga Beatriz Ferraz, esse primeiro contato é essencial para formar futuros leitores
O gosto pela leitura começa com o toque. Só depois de virar e revirar o livro centenas de vezes é que a criança estabelece com o objeto uma relação afetiva e, aí sim, descobre o prazer do universo literário. É o que conta a psicóloga Beatriz Ferraz, coordenadora pedagógica do Centro de Estudos e Documentação para a Ação Comunitária e da Escola de Educadores, em São Paulo. Leia trechos da entrevista que ela deu Bebe.com.br.
Qual é a importância do livro para as crianças que ainda não foram alfabetizadas?
As histórias fazem parte de nossa cultura e muitas delas perduram no tempo pela tradição oral porque são contadas de geração em geração. Ler um livro ou ouvir uma fábula não tem relação somente com saber ler e escrever. Os livros introduzem as crianças em um mundo imaginário, em uma cultura. E as narrativas abrem portas para o conhecimento de diferentes mundos, tempos e espaços.
Que papel ele tem, como objeto, na vida dos pequenos?
Quando damos aos bebês livros para explorar e observar, oferecemos os primeiros contatos com o universo literário. Hoje em dia, o mercado editorial já produz obras voltadas especificamente para esse público. Elas trazem textos pequenos ou histórias com estruturas repetitivas que permitem às crianças se apropriarem do texto rapidamente, interagindo de forma mais ativa com a escuta e a leitura. Também há a preocupação com o material dos livros, que podem ser de pano, duros, de fácil manipulação. Isso possibilita que sejam explorados sem que se rasguem. Essa relação precoce com os livros é fundamental para a formação futura de bons leitores.
Quais são os benefícios que o contato com os livros na primeira infância pode proporcionar?
Ao ter a oportunidade de explorar e manuseá-los, apreciando e nomeando suas imagens, os bebês iniciam suas primeiras experiências prazerosas com os livros. Conforme têm a oportunidade de viver isso seguidamente, começam a reconhecer o livro como um objeto que carrega consigo histórias e imagens das quais eles gostam. Criar essa relação é fundamental para que, quando maiores, as crianças estejam prontas para escutar narrativas cada vez mais elaboradas e também para que, desde cedo, desenvolvam o gosto pela leitura.
Que tipo de relação um bebê pode ter com o livro? A princípio, ele cumpre a mesma função de um brinquedo?
Inicialmente, os livros são, para os bebês, algo que pode despertar o interesse: agarram, colocam na boca, passam na mão e no corpo, sentindo sua textura e seu cheiro. Apertam suas folhas, jogam longe e depois vão buscar. Essas são algumas ações exploratórias que os pequenos também realizam com os brinquedos. Mas, conforme vão se familiarizando com o livro e vendo como adultos e outras crianças lidam com o objeto, a relação muda. Eles viram as páginas, se detêm em algumas delas para observar suas imagens, apontam para elas, balbuciam e dão gritinhos, nomeiam o que vêem e imitam as ações do adulto lendo. Depois de interagir com certa freqüência com os livros, as crianças passam a cuidar deles, a acariciá-los, demonstrando seu afeto.
Quais estímulos sensoriais o livro pode provocar no bebê?
Encontramos à venda hoje uma grande variedade de livros que pode provocar diferentes estímulos numa criança além de despertar o interesse e a curiosidade em explorá-los. Há obras que reproduzem sons – basta apertar um botão para ouvir o barulho de uma locomotiva, por exemplo. Outros convidam os pequenos a passar a mão em materiais com diferentes texturas. Sem contar aqueles com aromas doces ou cítricos.
A partir de que idade o livro deve ser apresentado à criança?
Desde sempre. O livro e as histórias não têm idade! Tudo depende da forma como ele é introduzido para ser explorado por um bebê ou ainda da maneira como uma história é lida para uma criança bem pequenina.
Quais devem ser as características de um livro adequado para os bebês?
Não vou dizer que existe uma obra certa ou errada. Acredito que a relação que eles terão com os livros e suas narrativas sempre será influenciada pela mediação de um adulto ou de outra criança mais experiente. De qualquer forma, vale lembrar que os bebês se interessam por imagens que são familiares, por desenhos de animais e objetos conhecidos, gostam de ilustrações de cores vivas, sentem-se atraídos por diferentes sons.
É possível falar em estratégias de leitura específicas para bebês?
Um livro pode ser apresentado a um bebê de diferentes formas, algo que vai sempre depender da intenção do adulto. Assim, se quero ler uma história para a criança, é importante que me prepare para contá-la de uma maneira que prenda sua atenção, colocando entonação nas falas dos personagens, por exemplo. Posso mostrar um livro ao bebê para que ele o explore. Para isso, devo colocá-lo em suas mãos e, em alguns momentos, demonstrar as possibilidades de interação que o livro oferece, como apertar um botão, sentir um cheirinho. Por fim, posso também sentar a criança no colo e mostrar a ela as páginas, apontando as imagens, nomeando-as e incentivando a repetir o que estou falando, associando a ilustração ou a foto ao nome. Ou seja, as estratégias são muitas, mas dependem de como eu apresento uma obra para o pequeno.
O que é preciso para que uma criança se torne um leitor?
Essa não é uma pergunta simples de responder. De qualquer forma, é fundamental frisar que saber ler e escrever não implica somente decodificar um texto. Implica conhecer aquilo que leio ou escrevo. Como vou construir um texto narrativo se não sei o que é uma narrativa? Como vou me entreter com a leitura de um livro se não sei apreciar uma história? As crianças que conhecem um número bem variado de histórias têm grande probabilidade de serem mais criativas em seus textos e produzirem, assim, narrativas com maior qualidade literária e textual.
Qual é o papel da escola nesse sentido?
A escola tem um papel muito importante na formação de bons leitores e escritores. Ao propiciar momentos de leitura e exploração de livros para crianças, ela favorece momentos de prazer em grupo, enriquece o imaginário infantil, amplia o vocabulário e insere os pequenos na prática social, além de favorecer o contato com textos de qualidade literária. Todas essas experiências são fundamentais na formação do leitor.
Quais devem ser as características de um livro adequado para os bebês?
Não vou dizer que existe uma obra certa ou errada. Acredito que a relação que eles terão com os livros e suas narrativas sempre será influenciada pela mediação de um adulto ou de outra criança mais experiente. De qualquer forma, vale lembrar que os bebês se interessam por imagens que são familiares, por desenhos de animais e objetos conhecidos, gostam de ilustrações de cores vivas, sentem-se atraídos por diferentes sons.
E os pais, o que podem fazer para incentivar o hábito?
Os pais podem e devem levar os livros para dentro de casa, deixar que as crianças os explorem com todos os seus sentidos, criar o hábito de contar histórias a seus filhos, incentivar o gosto pela leitura. Podem, acima de tudo, ser parceiros na descoberta do universo da literatura.
































