“Sou casada com uma mulher e nós realizamos o sonho da maternidade”

Conheça a história de duas mães que formaram uma família e saiba quais foram as dificuldades que elas encontraram no meio do caminho.

Aline Marinho, 29 anos, e Vanessa, 33 anos, são mães do Miguel, de 8 meses. Aqui, Aline conta como ela e a mulher tomaram a decisão de ter um filho e conseguiram realizar esse desejo.

“Eu e a Vanessa estamos juntas há 13 anos e faz cinco anos que nos casamos no religioso e no civil. Eu sempre quis ser mãe, mas a minha esposa tinha um pouco de receio porque não sabia o que as pessoas falariam e temia que enfrentássemos muitas dificuldades. Mas com o tempo fomos vendo que as coisas estão evoluindo e que, sim, era possível ter um bebê.

Há dois anos começamos a pesquisar as possibilidades e ficamos entre duas opções: adoção ou reprodução assistida. Como não queríamos esperar muito e, levando em consideração o quanto adotar é um processo demorado e burocrático no Brasil, escolhemos a segunda alternativa. Vimos que a fertilização in vitro seria a melhor proposta. Na hora de buscar as clínicas, achamos uma que fica dentro do hospital da Faculdade de Medicina do ABC. Lá, nós só teríamos que arcar com os custos operacionais, o que deixaria o procedimento mais em conta.

Escolhemos um doador no banco de doadores e decidimos que a Vanessa geraria o bebê porque ela é mais velha do que eu. Precisamos de três tentativas para conseguir o positivo. A primeira e a segunda não foram bem sucedidas e o médico disse que a ansiedade poderia estar atrapalhando. Então, a Vanessa tirou férias, descansou e quando fizemos o procedimento de novo, deu certo! O processo todo durou cerca de 10 meses – desde quando começamos a fazer os exames até ela engravidar. No dia 4 de julho de 2015, o Miguel nasceu!

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Eu e a Vanessa somos muito parceiras e eu estive ao lado dela em todos os momentos. Quando fomos fazer a fertilização, o médico disse que ela tomaria medicações que mexeriam com os hormônios e, de fato, foi o que aconteceu. Em alguns momentos, ela explodia comigo e eu respondia com a maior paciência. Acho que pelo fato de eu ser mulher, consegui entender melhor o que ela estava passando. Depois, ela ficou três meses de repouso em casa e eu fiz tudo: cuidava das tarefas domésticas e preparava a comida, porque sabia que era o mínimo que poderia fazer para a pessoa que estava gerando o nosso filho.

Após o nascimento do Miguel, ela ficava a maior parte do tempo com ele, pois eu voltei para o trabalho depois de cinco dias. Quando chegava em casaà noite, eu fazia o jantar, deixava a casa limpa e tudo pronto porque eu só queria que ela se preocupasse com o bebê. De madrugada, quando ele chorava, eu o pegava e posicionava no peito dela. A Vanessa praticamente só acordava para amamentar porque eu também o fazia arrotar e colocava de volta no berço. Várias amigas minhas brincam e dizem que querem ter o próximo filho com uma mulher porque é mais vantajoso do que ter com um homem!

Como estamos juntas há muito tempo, estabelecemos uma relação respeitável e estável com as nossas famílias. Por mais que sejamos duas mulheres, nós fizemos tudo de maneira tradicional: namoramos, noivamos, casamos, compramos uma casa e sempre recebemos o apoio dos parentes. O nosso chá de bebê teve 120 convidados, sendo que 90% das pessoas eram familiares. Meus avós compareceram, assim como as tias avós da Vanessa. O Miguel foi uma criança muito esperada e todos estavam felizes!

Fora do ambiente familiar, nós também não tivemos problemas. Eu posso falar que nunca sofri preconceito. Acho que é porque sempre fiz questão de ser quem eu sou na escola, na faculdade e no trabalho. Às vezes as pessoas olham, mas nunca falaram nada pra gente. No hospital, todos os profissionais eram bem informados. Quando fomos conhecer a escolinha que o Miguel estuda, a diretora disse que não havia nenhum caso como o nosso, mas que ela estava muito feliz porque esse formato de família está crescendo cada vez mais. Ela também deixou claro que deveríamos comunicá-la se tivéssemos qualquer tipo de problema. Foi tudo tranquilo e nós não temos do que reclamar.

O nosso filho tem apenas oito meses, mas quando ele crescer, explicaremos para ele exatamente o que aconteceu: ‘você tem duas mamães que se amam muito e queriam que você existisse! Por isso, recorremos ao hospital para termos uma sementinha e você cresceu dentro da barriga da mamãe’. Incrivelmente, a sociedade está melhorando muito e também acredito que quando ele for maior essas questões serão abordadas com mais naturalidade. Nós também tivemos outras experiências com crianças porque vimos alguns primos da Vanessa crescer e sempre agimos normalmente. Eles nos adoram e já chegaram a contar alguns episódios da escola, em que nos ‘defenderam’ dizendo para os colegas que têm primas lésbicas e que não há problema algum nisso.

Eu cresci em uma família que sempre recriminou qualquer tipo de preconceito. Acredito que os valores que passaremos para o Miguel são aqueles que temos. E nós duas aprendemos que a verdade e o amor sempre vencem. Queremos que ele seja um bom homem, que não prejudique as outras pessoas e que viva em um mundo em que todos confiem e respeitem uns aos outros. Pretendemos ensiná-lo com coerência para que ele siga o seu caminho e decida o que é bom ou ruim, o que serve ou não para a sua vida.

Se eu pudesse falar alguma coisa para as mulheres que são lésbicas e sonham em ter uma família, diria para elas que o mais importante é acreditar, porque se a gente não faz isso, nada é possível. Se você ama uma pessoa e a enxerga como sua amiga, uma parceira que poderá contar no futuro independente de qualquer coisa, acredite! Eu vivo um sonho, uma vida de conto de fadas, pois tenho uma família linda dentro de uma sociedade que ainda é preconceituosa e isso não consegue nem atingir a gente. Primeiro, coloque à frente a pessoa que você é e não deixe que o fato de você se relacionar com homens ou mulheres influencie. Temos que nos impor como somos – isso é o mais importante!

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