“Quando finalmente me tornei mãe”

Conheça a história da mulher que foi tentante por quase quatro anos, teve dois abortos espontâneos, recebeu o diagnóstico de trombofilia e enfrentou muitos desafios até a chegada do seu primeiro filho.

Carol Arruda, 33 anos, é mãe do Miguel, de 13 meses, psicóloga e idealizadora do blog Infância e Maternagem. Aqui, ela fala sobre o longo caminho que percorreu até se tornar mãe.

“O meu interesse por bebês e maternidade, além de ser pessoal, é também muito profissional. Sou psicóloga e fiz formação clínica em atendimento focado em infância e família. Desde o início da faculdade, eu buscava fazer as apresentações e pesquisas nesse tema.

Ser mãe sempre foi um grande sonho. Quando me casei, eu e o meu marido já pensávamos em ter filhos assim que a vida estivesse mais organizada, com certa estabilidade financeira. Esse momento chegou quando o meu parceiro recebeu uma boa proposta de trabalho e nos mudamos para o Centro-Oeste do país. Nós morávamos em uma cidade pequena, eu não estava trabalhando no momento e foi aí que vimos que tínhamos condições para concretizar o desejo de nos tornarmos pais. A partir disso, começou a saga porque quando a gente pensa em ter filhos, imagina que no mês seguinte vai engravidar e isso não aconteceu. Não foi no primeiro mês, não foi no segundo, não foi no terceiro e eu comecei a ficar preocupada. Procurei o médico para saber se havia algo que poderia ser feito e ele disse que um casal normal que está tentando engravidar tem 25% de chances no período de um ano.

Depois de uns meses, recebi a notícia da primeira gravidez, mas ela não evoluiu. Senti uma dor muito forte porque quando estamos tentando, ficamos com a expectativa grande, fazemos tabelas, contamos os dias, programamos o sexo para quando há ovulação e aguardamos ansiosamente o dia em que a menstruação não deve vir – tudo isso faz parte da vida da maioria das mulheres que são tentantes. Perder um bebê foi muito devastador para mim, mas passei a me preocupar mais e busquei orientações. Apesar dos médicos afirmarem que tudo estava dentro da normalidade, eu sabia que tinha algo que eu deveria saber. Foram levantadas as hipóteses de endrometriose e ovário policístico. Fiz alguns exames que não confirmaram nada.

Após um ano desse aborto espontâneo, descobri que estava grávida novamente. A gestação evoluiu até o segundo trimestre, mas eu também perdi o bebê, que era uma menina e iria se chamar Alice. Passei por um processo de parto induzido para a explusão do feto e, a partir disso, as coisas mudaram e a situação ficou ainda mais preocupante. Fizemos uma profunda investigação genética e sanguínea, então, veio o diagnóstico de trombofilia e a confirmação da SOP (Síndrome de Ovários Policísticos). Fiquei muito abalada e ainda morava sozinha com o meu marido, nós não tínhamos família por perto para nos apoiar. Foi um período muito frustrante e resolvemos dar uma pausa nas tentativas porque percebemos que estávamos vivendo em função disso, não curtíamos as outras coisas e não era assim que deveria ser. Eu também estava muito cansada emocionalmente, por isso, decidi deixar esse sonho adormecido, tentei viver de outro ângulo e foquei muito no trabalho – foi nesse momento que surgiu o Instagram, com a perspectiva de escrever sobre maternidade dentro de uma visão profissional, e depois o blog.

Passado um tempo, eu engravidei de novo. Na época, eu não estava tentando e foi uma grande surpresa. O Miguel veio para trazer um milagre para a minha vida porque eu estava vivendo um momento pessoal muito difícil – a situação era tão delicada que não dava para pensar em ter filhos. Mesmo assim, ele chegou e trouxe uma nova perspectiva para mim e para o meu marido.

Eu sempre falo que o meu filho nasceu para me libertar! Trouxe liberdade para que eu vivesse um amor que encoraja, fortalece e me motiva desmedidamente. Me libertou também dos defeitos que me atormentavam e me envergonhavam, fazendo com que eu conseguisse encarar de forma segura as minhas dificuldades pessoais, pois busco ser uma pessoa melhor por ele e isso coloca em evidência as minhas qualidades mais genuínas. Com o Miguel, aprendo todos os dias a dar valor para coisas que antes passavam despercebidas. Percebi que levava a vida em modo automático, acomodada a uma estabilidade superficial e meu filho chegou para me fazer ver que o meu mundo é intenso e que todos os dias é uma oportunidade para me renovar. A maternidade sacudiu os sentimentos e sensações que me habitavam secretamente. Me desprendeu das correntes que me condenavam a fragilidades íntimas e escancarou medos viscerais, mas ser mãe é receber uma dose diária de força para enfrentar coisas que parecem impossíveis. Miguel me trouxe coragem para viver o meu melhor e para explorar o melhor da vida. Coragem para agarrar todos os segundos e eternizá-los em memórias. Me trouxe também sentido para viver com prazer, amor próprio e curtir um amor real, puro e incondicional.

Quando a gente passa por um processo de tentativas frustradas e de perdas, acabamos não planejando tanto, mas, mesmo assim, eu idealizei o parto normal e tive que ser submetida a uma cesariana em função da trombofilia e de outras questões médicas. Outro momento que eu também idealizei foi a amamentação. Apesar de ser lindo, promover uma conexão incrível entre a mãe e o bebê não é nada fácil. Para que ela flua é preciso ter muita concentração nas emoções, na criança e se desligar do mundo. Eu enfrentei um processo inicial difícil, mas não desisti e, hoje, vivo com o Miguel 13 meses de aleitamento materno – sendo que os primeiros seis meses foram exclusivos.

Renata Medeiros Renata Medeiros

Renata Medeiros (/)

Acho que esse processo de idealização que nós, mães, temos também se deve ao fato de que existe um forte movimento midiático que vende a imagem de mães sublimes, de bebês perfeitos, de famílias harmoniosas, mas na realidade não é bem assim. As crianças não são sempre fofas, cheirosas e com carinha de anjinhos. Elas choram, sentem fome, precisam de atenção em tempo integral, acordam o tempo todo e isso demanda muita energia da mãe. É por isso que digo que se tornar mãe é uma função inacabada porque requer uma aprendizagem diária. É uma tarefa desafiadora, mas deliciosa!

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