Bebês negros morrem menos quando tratados por pediatras negros, diz estudo

Achado foi feito nos Estados Unidos, onde crianças de pele negra têm o dobro de risco de falecer entre os zero e cinco anos. Entenda.

O racismo pode impactar na sobrevivência de recém-nascidos. É o que diz um estudo norte-americano que avaliou 1,8 milhões de nascimentos no Estado da Flórida, entre 1992 e 2015, publicado no British Medical Journal (BMJ). A investigação descobriu que bebês negros têm mais chances de sobreviver quando atendidos por médicos que também são negros.

Quando atendidos por pediatras da mesma raça, a taxa de mortalidade entre recém-nascidos negros era 390 a cada 100 mil nascidos vivos. Se o médico era branco, o índice subia para 894 óbitos. Em 2017, o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos já havia reportado que bebês negros têm uma mortalidade duas vezes maior do que os nascidos brancos.

Vale dizer que, mesmo com a concordância racial, as mortes neonatais são mais frequentes entre os negros do país. Os pesquisadores calcularam 430 mortes por cem mil habitantes a mais do que os brancos, quando atendidos por médicos brancos, e 257 óbitos extras no mesmo grupo, quando o médico era negro.

Inspiração para mudar

Uma das autoras do estudo é uma mãe negra. A cientista Rachel Hardeman, da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos. Em entrevista ao site Science News, ela declarou que existem relatos pessoais, como os dela – que teve seu parto assistido por uma equipe 100% negra-, de como ser atendido com alguém com o qual você se identifica pode ser importante para a satisfação do paciente.

“Não tínhamos, contudo, estudos mostrando como a concordância racial poderia impactar positivamente na saúde do recém-nascido”, declarou ao site. Na mesma entrevista, ela e outro autor do estudo, Brad Greenwood, explicam que a ideia não é dizer que bebês negros só podem ser atendidos por pediatras negros.

O que os achados sugerem é que médicos negros podem estar mais atentos com vivências específicas de recém-nascidos negros, como partos com maior violência obstétrica e dificuldades de atendimento por desigualdades socioeconômica. E que, por outro lado, os médicos em geral são pouco instruídos sobre maneiras de atenuar os impactos do racismo institucional.

Os próximos passos seriam, então, entender que condutas diferentes são essas para que possam ser estendidas a todos os bebês.

Realidade no Brasil não é diferente

Mães e bebês negros também morrem mais no Brasil. Em 2017, a pesquisa “A cor da dor: Iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil”, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostrou que gestantes negras estão em maior risco de sofrer violência obstétrica e ter um pré-natal inadequado, o que ameaça também a vida do recém-nascido.

E outra pesquisa da Fiocruz, com dados do Ministério da Saúde, mostra que a taxa de mortalidade por mil brasileiros nascidos vivos é de 15,2 para crianças brancas e 29,1 para negras. Ou seja, o dobro. Por aqui, no entanto, ainda não há dados específicos sobre a diferença de ser atendido por uma equipe da mesma raça.

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