Tire suas dúvidas sobre o parto em casa

Fique por dentro do parto domiciliar e entenda por que tantas mulheres têm optado por ele.

Tranquilidade e respeito: é o que buscam as mulheres que têm optado por um parto domiciliar. Luíza Diener, editora do blog Potencial Gestante, decidiu que sua filha Constança nasceria em casa. Ela teve seu primeiro filho, Benjamin, por meio de um parto normal hospitalar e lembra das intervenções que sofreu. “A evolução do trabalho de parto foi muito tranquila, mas senti que perdi completamente o controle de tudo quando a médica chegou. Fui induzida a aceitar as intervenções e Benjamin foi puxado de dentro de mim, o que lhe rendeu uma fratura de clavícula”. Luíza conta que Benjamin ficou um rápido minuto com ela e logo foi levado para ser limpo e pesado.  Ele recebeu todas as intervenções protocolares de um hospital e ficou uma hora chorando no berço aquecido. “Ele poderia ter recebido esse aquecimento diretamente do meu corpo, no meu colo”, desabafa Luíza.

Todo o pré-natal da sua segunda gestação foi feito com a parteira que assistiria seu parto em paralelo com as consultas tradicionais com o médico obstetra, que fazia o pedido dos exames. No dia do parto estavam ao seu lado duas parteiras, a fotógrafa, seu marido, o filho mais velho e sua irmã. “Ela nasceu na minha cama e ficou o tempo todo comigo, isso foi muito especial para mim. E Benjamin participou de tudo, cantou uma linda canção para ela nascer, cortou o cordão umbilical junto com o pai e ajudou a vestir a primeira roupinha na irmã”, suspira Luíza.

Mas ter um bebê em casa não é muito perigoso?

Esse é a dúvida da maior parte das pessoas que ouve falar, pela primeira vez, em parto domiciliar. Na verdade, o parto é um evento fisiológico, natural e para que uma mulher possa escolher ter seu filho em casa, alguns cuidados devem ser tomados. A primeira coisa é ter uma gravidez de baixo risco, isto é, que seja saudável e não tenha tido nenhuma intercorrência grave durante o pré-natal. A partir disso, ela pode encontrar uma equipe experiente formada por enfermeira obstetra, obstetriz ou médico obstetra para acompanhá-la durante o parto. E também é necessário ter um “plano B”, ou seja, um hospital para onde poderá ir se for necessária uma transferência. “A qualquer sinal de possível intercorrência, a opção de retaguarda será acionada e o parto passa a ser hospitalar. A gestante pode mudar de ideia a qualquer momento e ir para o hospital para analgesia ou o que mais quiser”, explica a obstetriz Ana Cristina Duarte, de São Paulo, e completa que os batimentos cardíacos do bebê e sinais vitais da mãe são monitorados durante todo o trabalho de parto. E para essa transferência não é necessário que haja uma ambulância na porta de casa – aliás, esse é um grande mito sobre parto domiciliar.

Os profissionais capacitados para atendimento do parto em casa chegam munidos de produtos estéreis, como agulhas para sutura e anestésico local, material para reanimação neonatal e para emergências maternas pós-parto, além de banqueta de parto e banheira inflável, em alguns casos. Mas a parte mais importante do seu trabalho é permitir que a mulher possa dar à luz tranquilamente, respeitando suas escolhas e com o respaldo técnico necessário. “Os estudos internacionais sobre parto domiciliar planejado com equipe experiente mostram que o risco de mortalidade não muda em casa ou no hospital e que ele é uma opção segura para gestantes de baixo risco”, assegura Ana Cristina.

“Ficamos uma madrugada toda em trabalho de parto, com água de coco, massagem, músicas, chuveiro, sonecas. Foi incrível, fiquei surpresa com minha força e serei eternamente grata pela assistência firme e carinhosa da minha parteira”, conta Marjorie Sá, sobre sua primeira experiência de parto domiciliar no Brasil há 8 anos.

Opção viável, sim!

As mulheres que optam pelo nascimento de seus filhos em casa buscam ter um parto com respeito (1 em cada 4 mulheres relata ter sofrido algum tipo de violência obstétrica dentro do ambiente hospitalar, de acordo com recente pesquisa), livre de intervenções desnecessárias para ela e para o bebê, ao lado das pessoas que amam. A própria Organização Mundial da Saúde reconhece que mulheres de baixo risco podem ter seus bebês em casa, se assim se sentirem seguras.

O parto domiciliar planejado não é excentricidade ou modismo, trata-se apenas de uma opção viável e uma realidade comum em países como Holanda, Inglaterra e Canadá, respaldada pelo próprio sistema de saúde. A brasileira Maria Alves da Silva Bravo, que vive em Londres e está grávida de oito meses, conta que na Inglaterra todas as gestantes de baixo risco fazem o pré-natal e o parto com midwife (parteira). “O parto domiciliar aqui é muito comum e respeitado, feito pela parteira. Incentivam que é muito bom estar no ambiente da sua própria casa e sentir-se segura para dar a luz”, explica Maria.

No Brasil, grupos de apoio ao parto e redes sociais têm levado informações sobre a assistência adequada ao parto, permitindo que gestantes possam optar por partos domiciliares planejados ou hospitalares com equipe humanizada.

“Do ponto de vista científico, existem diversos estudos corroborando as vantagens e a segurança do parto domiciliar planejado. Como vantagens temos a redução do número de intervenções como episiotomia (o corte do períneo), analgesia de parto, uso de ocitocina, menor taxa de cesarianas e de partos instrumentais (fórceps ou vácuo-extração), menor risco de infecção e elevada satisfação materna”, esclarece professora doutora Melania Amorim, médica ginecologista e obstetra da Paraíba . Ela também afirma que a discussão sobre o local de parto deve se pautar no respeito ao protagonismo feminino, uma vez que a escolha do local de parto é um direito reprodutivo básico e na adequada interpretação das evidências comparando partos domiciliares planejados e partos hospitalares em gestantes de baixo risco.

Outro olhar

Vale ressaltar que o Conselho Federal de Medicina não apoia o parto domiciliar. “Em nenhuma situação recomendamos o parto domiciliar. Isso porque eventuais complicações requerem intervenção imediata, em ambiente hospitalar. É o caso lesões no cólo do útero, que podem exigir procedimentos como transfusão de sangue ou até a retirada cirúrgica do órgão (histerectomia)”, justifica a obstetra Vera Lúcia Mota da Fonseca, vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (CREMERJ). “Sem falar nos riscos para o bebê, se houver parada de progressão do trabalho de parto ou dificuldade respiratória, por exemplo”, completa.

O Ministério da Saúde apoia o parto em casa e oferece capacitação a doulas e parteiras, desenvolvendo ações para qualificá-las e integrá-las ao trabalho ao Sistema Único de Saúde (SUS).

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