Como lidar com dinheiro depois que a família cresce

O especialista em finanças pessoais Gustavo Cerbasi revela como é possível ter filhos e manter o orçamento doméstico em dia.

Boa parte dos casais costuma se questionar como manter o estilo de vida diante dos gastos extras que pipocam quando a família cresce. Para buscar alívio para essa aflição, conversamos com Gustavo Cerbasi, especialista em finanças dos negócios, planejamento familiar e economia doméstica. Autor de obras como Casais Inteligentes Enriquecem Juntos e Filhos Inteligentes Enriquecem Sozinhos (ambos da editora Gente), o mestre em Administração costuma dizer que “enriquecer é uma escolha” e defende o ato de poupar desde que isso não sacrifique demais o prazer do casal.

1. É possível ter filhos e não perder dinheiro?
Sim. É comum lermos matérias sobre o custo de ter um filho. Na verdade, não podemos entender um filho como um custo, mas como uma fase da vida. Quando se está com a vida financeira equilibrada e a família cresce, o impacto é pequeno. Agora, se o casal já vive no limite (tem carro e casa financiados e poucas sobras para o lazer), esse desequilíbrio aparece quando o filho nasce. Para quem tem um dia a dia compatível com o que ganha, a chegada da criança tem o efeito de substituição do lazer. Isso porque, com um bebê em casa, as pessoas jantam menos fora, recebem menos amigos para encontros sociais, viajam menos. A atenção – e o tempo livre – se voltam para os cuidados com a criança. Para evitar um orçamento apertado antes de o bebê chegar, o que eu aconselho é que o casal sente para pensar na sua qualidade de vida. Talvez não seja necessário ter um carro tão caro ou um imóvel tão dispendioso. Por exemplo, é comum a esposa ficar grávida e o homem comprar um carro maior e também mais caro. Sempre se pensa naquela possível viagem e na necessidade de ter um bagageiro grande. Ninguém pensa que, nessas ocasiões, pode-se alugar um carro. O brasileiro ainda não tem esse hábito. Mas vale começar a pensar nisso.

2. Como cortar gastos com inteligência?
Analisar o que é supérfluo e preservar o que lhe faz bem. Você pode trocar o carro por outro com parcela mais barata, evitar o desperdício com água, alimentos. De dez em dez reais, você economiza de maneira criativa. Criatividade é fazer programas com amigos e com a família: em vez de ir ao restaurante, que tal convidar os amigos para um jantar em casa? É saber economizar sem cortar sua felicidade. Pense, então, naquilo de que você não abriria mão. Para uma mulher, pode ser ir à manicure. É melhor que ela economize, então, com as compras do supermercado do que com a vaidade.

3. Quando se tem filhos é importante poupar, certo?
Quando um bebê nasce, os pais costumam pensar em como garantir um futuro para a criança, seja por meio de um plano de previdência, seja por um seguro de vida. Aí vem a frustração porque não dá para fazer tudo. Então, de novo, vale a pena cortar gastos desde que se preserve o consumo daquilo que faz bem. Se isso não for feito, lá na frente, a pessoa correrá o risco de se tornar alguém amargo.

4. O relacionamento do casal influencia as finanças?
Sim. Um relacionamento em que cada um pensa no seu próprio dinheiro não funciona. O casal tem que se esforçar para ter uma conversa mais aberta, falar sobre sonhos e frustrações. Quanto mais transparente for o diálogo, melhor. Por exemplo, se um dos dois perde o emprego, o relacionamento só se mantém caso um assuma as despesas da casa. Isso acontece apenas quando os dois entendem o dinheiro como um bem comum e não como algo que pertence a cada um, de maneira individualista.

5. A maneira como um casal lida com o dinheiro é reflexo da relação a dois?

Em termos. A relação do casal é reflexo da sociedade. Na infância, não fomos educados financeiramente para lidar com o dinheiro. Se o casal começa a dividir tudo, cada um pagando a sua parte, está reforçando um comportamento que aparentemente parece correto e justo, mas é destrutivo. Essa é uma relação de sócios, não de parceiros. Como eu já disse, é preciso de uma conversa franca para lidar com esse lado financeiro. A conversa transparente é que permite o enriquecimento porque ela gera uma postura mais agregadora e menos competitiva.

6. A maneira como os pais lidam com o dinheiro é um jeito de educar os filhos financeiramente?
Sim, sem dúvida. Quando os filhos são jovens, não têm ideia de valores. É claro que os pais não precisam abrir para as crianças o quanto a família tem de patrimônio, quais seus ganhos etc., mas é importante que eles dividam o quanto todos têm para gastar no fim de semana, em uma viagem. Esse é um jeito de educar financeiramente os filhos. Eles aprendem pelo exemplo, por aquilo que veem em casa.

7. Devemos dividir as questões financeiras com os filhos? Por exemplo, se um pai não tem condições de dar algo à criança, ele deve dizer ou é melhor se endividar para realizar o sonho do pequeno?
Nenhum tipo de sonho deve ser descartado com o argumento de que não se tem dinheiro. Se o pai ganha R$ 1 mil e consegue poupar R$ 50 e o filho quer ir para a Disney, ele deve dizer que vai demorar cerca de dez anos para conseguir realizar o sonho. Isso é importante para que a criança dimensione o valor das coisas e o tamanho do sacrifício para consegui-la. O pai também pode propor que o filho o ajude a poupar dinheiro e assim reduzir o tempo de espera. As crianças são ótimas para pensar em saídas criativas. Com esse tipo de atitude, você incentiva o pequeno a ter uma postura empreendedora.

8. Que conselho você daria para quem está planejando ter um filho?
Não encare a criança como um custo e não transforme a chegada do bebê numa mudança de padrão de consumo. Preserve o seu bem-estar e a sua qualidade de vida. Enquanto seu filho cresce, não deixe de estar com ele para trabalhar mais e assim poder poupar mais. Crie, sim, reservas de emergência, mas saiba que, às vezes, o melhor investimento é dedicar uma tarde com ele fazendo bolhas de sabão.

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