Mãe de menino negro escreve carta poderosa contra o racismo

Após ataques nos Estados Unidos, a americana Monica Park Johnson, que tem três filhos, escreveu um texto sobre a cultura racista que impera no país – e em muitas outras partes do mundo.

Nascido nas redes sociais há cerca de dois anos, o movimento Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”, em português) foi criado como forma de protesto contra a morte de pessoas negras por policiais americanos. Neste mês de julho, três casos chocaram os Estados Unidos e o mundo: no dia último dia 17, três oficiais foram mortos a tiros por um homem negro em Baton Rouge, capital do estado de Louisiana; na mesma cidade, no dia 5, um homem de pele escura que seria um atirador foi morto pela polícia local; no dia 7, cinco policiais foram assassinados por um negro em Dallas, no Texas.

Todas essas atrocidades têm inspirado debates e reflexões sobre o racismo nos Estados Unidos e no mundo. É o caso da americana Monica Park Johnson, casada com um homem negro e mãe de três filhos – um de 2, um de 14 e outro de 17 anos de idade. No último dia 7 de julho, ela escreveu um texto em seu Facebook sob o olhar do seu caçula, Kai. “Eu sou muito fofo agora. Todo mundo comenta sobre a minha pele bonita, meus cachos adoráveis. Mas eu pergunto a você – e quando eu tiver 25 anos, minha pele escurecer, meus cachos ficarem mais apertados… Eu estiver vestindo calças largas, talvez um capuz ou um boné… Você vai trancar as portas do seu carro quando eu atravessar a rua?”, questiona a carta.

Em entrevista ao site americano The Huffington Post, Monica disse que decidiu fazer o texto após ver a repercussão da morte do homem negro em Baton Rouge no dia 5. “Eu fiquei pensando sobre os meus filhos e o futuro deles e precisava processar as minhas emoções, então escrevi”, contou. “Há pais de crianças negras em todo o país que temem por elas diariamente. Quanto mais velhas elas ficam, menos seguras estão”, comentou a mãe.

“Eu convido os pais de crianças brancas a pensarem na última vez que se preocuparam com a segurança dos seus filhos. Alguns desses motivos estavam relacionados ao fato de que os pequenos são brancos? Eu gostaria que esse medo se tornasse real para pessoas que talvez nunca tenham passado por isso”, afirmou a americana ao Huff Post.

Desde que compartilhou a postagem, Monica recebeu muitas mensagens de pessoas que enfrentam os mesmos temores – até agora, o post conta com mais de 4 mil compartilhamentos! “Quando você começa a se sentir intimidado pela pele escura? Em que momento uma criança como o Kai vai ser considerada uma ameaça? Eu quero que a gente comece a prestar atenção a essas reflexões e pare de ignorá-las”, propõe.

A seguir, leia o texto de Monica na íntegra (em português):   

“Eu sou muito fofo agora. Todo mundo comenta sobre a minha pele bonita, meus cachos adoráveis. Mas eu pergunto a você – e quando eu tiver 25 anos, minha pele escurecer, meus cachos ficarem mais apertados… Eu estiver vestindo calças largas, talvez um capuz ou um boné… Você vai trancar as portas do seu carro quando eu atravessar a rua? Você vai me abraçar e me dar boas vindas quando eu for um homem negro adulto? Você vai valorizar a minha vida da mesma forma que valoriza a vida da minha mãe branca? Ou vai ser como o meu pai… Meu pai negro que tem que encostar o carro por estar ‘colado na traseira’ (no sinal) ou por estar um pouco acima da velocidade permitida. Você vai sorrir e pegar a minha identidade e o cartão do meu seguro, como acontece com a minha mãe? Ou vai perguntar se eu tenho algum mandado de prisão antes mesmo de pegar a minha habilitação, como ocorre com meu pai? Você vai me fazer sair do carro para checar se ele foi roubado na frente de toda a minha família? Você vai me atirar se eu tiver alguma reação… ou enquanto eu estiver correndo… ou enquanto eu estiver algemado? Quando você me ver na rua com meus amigos negros, você vai sentir a mesma coisa de quando vê um grupo de homens brancos? Eu ainda vou ser fofo para você? Minha vida ainda vai ser tão preciosa para você quanto ela é agora, enquanto sou inofensivo e não intimidante?

Pense nos seres humanos que você está julgando. Pense neles como sendo o bebê de alguém, o irmão mais velho de alguém ou sobrinho ou sobrinha de alguém. Isso não é só sobre a polícia. Isso é sobre todos nós e como formamos as nossas opiniões e visões do mundo e das pessoas. Nossas crianças estão vendo tudo isso.

Eu tenho o privilégio de conhecer alguns policiais altruístas, corajosos e admiráveis. Eu os respeito e confio neles para a minha segurança e da minha família. Sei que um ovo ruim não estraga a dúzia inteira. Mas isso não significa que casos como o de #AltonSterling (o homem morto pela polícia no dia 5 de julho) deveriam ser minimizados. Esse é um problema real e sistêmico que teve início na casa de cada um de nós. Então, quando você se deparar com a repercussão desse e de outros casos na mídia, peço que olhe para dentro de si e preste atenção. Estou tentando fazer o mesmo”.

 

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