Como lidar com os grupos de pais no WhatsApp?

As escolas evitam, alguns pais amam. Saiba como usar a tecnologia de maneira positiva e evitar que ela se torne um problema.

Grupo da turma da escolinha, da dança, da natação… A vida não está fácil para os pais na era do WhatsApp. Como o aplicativo pode se tornar fonte de discórdia — e tomar grande parte das horas do dia — conversamos com famílias, escolas e psicólogos para entender como usá-lo de um jeito equilibrado.

O ideal é que os grupos sejam um ambiente de troca de informações sobre um determinado assunto, com regras esclarecidas e comunicação direta. As conversas paralelas são um dos pontos que mais incomoda os pais e soa negativo aos especialistas. “Nunca tinha participado de grupos de pais da turma do meu filho mais velho, mas entrei no do mais novo e de cara já desliguei as notificações”, conta Mimy Anselmo, 38, designer de interiores de São Paulo.

“As pessoas perdem muito tempo falando de coisas simples, que acabam se tornando um problema enorme”, explica ela, que é mãe de Thomas, 15 anos, e Heitor, de 1 ano e 7 meses. “Como uma picada de inseto, por exemplo, no grupo, se transforma em horas de discussão, suspeitas de que a escola não está cuidando direito, enfim”, completa a mãe.

Ambiente de conflitos

No ambiente digital, a comunicação é diferente do ao vivo. “A internet traz uma sensação de distanciamento oposta à linguagem oral, que proporciona mais informalidade e proximidade”, explica Luciana Nunes, psicóloga e diretora do Instituto Psicoinfo, especialista em comportamento digital. Esse afastamento dá margem a interpretações baseadas nas experiências pessoais de cada um.

E só nessa falha de comunicação já nascem vários conflitos. “O que está escrito nem sempre é o que o outro interpretou”, comenta Sheyla Dutra, 51, de Ribeirão Preto, que administra um grupo com mais de 90 mulheres. Lá, ela dá conselhos sobre maternidade e presta assessoria voluntária sobre inclusão de crianças com deficiência — ela é mãe de Ana Luisa, que tem síndrome de Down, e coordena um projeto sobre o tema.

Para papos mais amplos e troca de conselhos eles podem funcionar, mas na comunicação com a escola o terreno é mais delicado. Reclamações sobre conduta de um professor, ocorrências entre colegas e críticas a outros pais frequentemente acabam gerando mal estar para todos os lados sem que o problema seja resolvido.

“A vida escolar está sendo irradiada no WhatsApp, e isso pode ter consequências negativas se este uso não for dosado e restrito”, comenta Anna Lucia King, psicóloga fundadora do Delete – Uso Consciente de Tecnologias, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Visão da escola

Algumas menores até têm um número para envio de recados, mas em geral ele não é usado como canal de comunicação com os pais. “Acredito que essa ferramenta pode ser útil para comunicações curtas e urgentes entre os pais, para atender algumas demandas dos alunos e até mesmo a socialização”, diz Rita Oliveira, orientadora pedagógica da Escola Sá Pereira, no Rio de Janeiro.

Para as instituições de ensino, o olho no olho com as famílias é imprescindível. “Combinamos que a comunicação de reclamações e sugestões deve ser feita ao vivo sempre e, quando não for possível, por e-mail, telefone ou pela agenda”, comenta Mariana Lopes, diretora da Creche Escola Ipê, também na capital fluminense.

Mesmo com as regras, as escolas sofrem o impacto negativo dos conflitos nascidos no Whatsapp. “O que poderia ser pequeno vira algo gigante”, destaca Mariana, que já teve que lidar com brigas de pais oriundas das mensagens virtuais. “Uma mãe colocou em um grupo que uma criança tinha mordido seu filho, virou uma confusão bem grande que coube a nós resolver”, lembra.

Com Whats ou não, as escolas aproveitam a tecnologia. A agenda, por exemplo, ganhou versões digitais para acompanhar os pais cada vez mais digitais e reduzir o consumo de papel. A Escola Santa Catarina em Santa Teresa (ES), adotou em 2018 o Is Cool, aplicativo que serve para envio de recados e possui até enquetes para definir o melhor dia para uma festa ou uma viagem.

“Mas explicamos sempre que, embora aplicativo encurte a distância, não pode inibir a presença ao vivo”, defende Rosiele Corteletti, diretora executiva da instituição, onde 90% dos pais aderiram ao app.

Regras de etiqueta

Veja as indicações dos especialistas para criar uma relação mais saudável com o “zap zap”:

  • Não se sinta culpada por não responder as mensagens, mas fique no grupo da classe mesmo que não participe. Ele é uma fonte de informações importante, no fim das contas, apesar delas serem minoria.
  • Evite críticas, até as construtivas. Faça-as sempre ao vivo, seja para quem for. Se não for possível, vá pelo menos ao chat privado.  
  • Se você é do tipo postador, reflita sobre o uso que faz da ferramenta. “O uso representa muito o que se passa dentro de cada um. Um pai ou mãe que fica o dia todo ali reclamando, demonstra um comportamento ansioso muito grande”, aponta Anna Lucia. Avalie se seu comportamento não é invasivo ou inconveniente.
  • Cuidado com o excesso de tempo no celular. As notificações podem provocar ansiedade e ficar checando toda hora o celular resulta em problemas físicos, nos músculos do pescoço e das mãos, para citar dois exemplos.
  • Estabeleça um horário máximo para checar o aplicativo e, de preferência, silencie os grupos para manter a paz de espírito.  
  • Maneire nos “bom dia”, “boa tarde”… Isso acaba enchendo o grupo de novas mensagens que não dizem respeito ao propósito do espaço, o que pode incomodar os outros integrantes.
  • O mesmo vale para memes, notícias políticas, mensagens religiosas etc, que ainda por cima podem desrespeitar quem mais estiver ali e gerar conflito. Ah, e cuidado com as fake news e mensagens muito alarmantes. Uma coisa é conversar nos grupos de família e amigos, outra é falar com pais, alguns deles desconhecidos. 
  • Não use caixa alta, que na internet soa como falar gritando.
  • Sempre pergunte se a pessoa quer entrar no grupo antes de adicioná-la.
  • Fique atento às regras do grupo e poste conteúdos relacionados a ele apenas. Por exemplo, notícias de saúde não devem estar num grupo de troca de informações sobre a escola. Mas é aquilo: se o pessoal gostar, tudo bem! Só não vale fugir do propósito coletivo. Para facilitar, sempre que criar um grupo novo já defina quais serão as regras dele.
  • Se você quer falar apenas com algum integrante do grupo, não use o espaço como seu chat pessoal. Vá para o particular.
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