A experiência de ser mãe de gêmeos fora do país e longe da família

Nem sempre morar fora do país é uma escolha fácil. Confira o relato de uma mãe que fala abertamente sobre as dificuldades que encontrou ao criar os filhos nos Estados Unidos, sem a ajuda dos familiares.

Por Luísa Massa Atualizado em 27 out 2016, 21h31 - Publicado em 13 abr 2015, 11h12

Julliana Araes, 30 anos, é mãe dos gêmeos Rafael e Lucas, de 1 ano e 7 meses, advogada e idealizadora do blog Meus Twins e do Instagram Meus Twins. Aqui, ela fala sobre a experiência de morar fora do Brasil com os filhos. Confira!

“Eu me mudei para os Estados Unidos no quarto mês de gravidez. Como vocês podem imaginar, encontrei muitos desafios. Acho que a parte mais difícil no início foi o fato de ter que morar em um hotel até o sétimo mês de gestação. Eu sempre pensava que, naquela fase, os casais provavelmente já estariam com o quartinho do bebê pronto, com o enxoval comprado, só esperando o nascimento do filho. Enquanto isso, eu e meu marido estávamos em um quarto de hotel, com sete malas abertas no chão, tudo espalhado e eu com uma barriga gigantesca para acompanhar!

Sinceramente, eu nem tinha cabeça para pensar no quarto dos gêmeos. Tudo o que eu queria naquele momento era um lugar para nós. Após todo esse período morando no hotel, conseguimos finalmente alugar uma casa. Enquanto isso, a compra da nossa casa própria foi tão demorada que os meus filhos não aguentaram esperar e acabaram nascendo com 37 semanas. Eles só foram ter o quartinho deles do jeito que eu imaginava quando completaram dois meses de vida.

Depois que os bebês nasceram, deparei-me com mais um desafio: o fato de estar longe da família. Nunca imaginei que isso traria tantas dificuldades para mim e para o meu marido. Quando morávamos no Brasil, também estávamos longe dos nossos familiares. A diferença é que, naquela época, ainda não tínhamos filhos e podíamos visitá-los facilmente. Hoje, contudo, a situação é bastante diferente: tendo em vista o aumento da distância, a frequência com que vemos nossas famílias diminuiu bastante.

O mais difícil nessa parte é que nunca temos com quem deixar os bebês em casos de necessidade. Não temos outra opção a não ser levar os pequenos para todos os lugares – idas ao médico, supermercado, banco e farmácia. Certa vez, quando meu marido estava viajando a trabalho, bateram no meu carro e eu tive que resolver tudo com os meus filhos berrando – conversar com o policial, fazer boletim de ocorrência e todas as outras etapas burocráticas. Também houve um episódio em que precisei levar o meu carro para a revisão e fui com os gêmeos para a concessionária. Tive que esperar o serviço no local, pois eu não tinha como voltar para casa de táxi sem as cadeirinhas de segurança dos meninos e meu marido também estava viajando. Naquele dia, não sabia mais o que fazer para distraí-los. Foram 3h30 de espera e muito choro! Situações aparentemente simples tornam-se muito mais complexas pelo fato de não termos a quem recorrer quando precisamos. Tudo o que eu mais queria era ligar para a minha mãe ou para minha sogra e pedir para que elas cuidassem dos meus filhos enquanto eu resolvia algumas coisas.

Nos Estados Unidos, a prestação de serviços é muito cara, por isso, eu não posso contar com a ajuda de uma pessoa nas atividades domésticas. Então, além de olhar os bebês, cuido de tudo o que envolve a casa – limpeza, organização, roupas, comida. Só conto com a ajuda de uma faxineira quinzenalmente. Até hoje eu não sei como consigo dar conta de tudo! Outro fator complicado é que, na região onde eu moro, as escolas são gratuitas somente após cinco anos. Sendo assim, para matricular os meninos antes dessa idade é necessário desembolsar uma grande quantia de dinheiro – no meu caso, ainda serão duas mensalidades! Isso pesa muito. Em breve pretendemos colocar os pequenos na escola, mas essa não é uma decisão fácil. 

Também tenho que lidar com a questão do clima. Por estar acostumada com as estações do nosso país tropical, considero o inverno rigoroso dos EUA um complicador para uma mãe de gêmeos imigrante. Isso porque a temperatura baixa dificulta ainda mais minhas saídas com os meninos. Quem é mãe sabe o quanto é trabalhoso organizar um simples passeio com um bebê. Imagine sair de casa com dois em uma temperatura nada agradável como -22o C!

Nessas situações, antes de sair, temos que tirar as roupas dos bebês para colocarmos blusas e calças térmicas. Aproveitamos também para trocar as fraldas. Em seguida, colocamos o que os pequenos estavam vestindo por cima. Acrescentamos casacos e botinhas de neve, luvas e gorros. Quando os dois estão prontinhos para sair, às vezes acontece de sujarem a fralda novamente. Aí é preciso recomeçar tudo de novo! Se não for necessário trocar as fraldas novamente é só colocar os bebês no carro e sair… Certo? Errado! Antes disso é necessário tirar a neve do carro primeiro. Sentiram o drama?

Outro ponto que também é complicado é a dificuldade com o idioma. Cada vez em que levo os meninos às consultas pediátricas é um sufoco. Normalmente, já me atrapalho bastante para compreender termos técnicos estando sozinha e prestando atenção no que a pessoa está falando. Agora, com dois bebês chorando ao mesmo tempo é bem difícil entender o que o médico está dizendo. Por tudo o que relatei já deu para perceber que ser mãe de gêmeos imigrante é uma aventura e tanto. Mas, apesar de todas as dificuldades, não há nada melhor e mais recompensador do que acompanhar o crescimento dos meus filhos. Ser mãe é a melhor coisa que já me aconteceu!”

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