Células-tronco: o que você precisa saber antes de armazenar o cordão umbilical

Elas servem para o tratamento de várias doenças e, recentemente, estudos demonstraram que são capazes de curar enfermidades de vários tipos. Com isso, muitos pais têm congelado as células-tronco de seus filhos. Consultamos especialistas para entender se vale mesmo a pena apostar nesse recurso.

É bem provável que você já tenha ouvido falar, pelo menos alguma vez na vida, em células-tronco, uma das grandes esperanças da medicina para a cura de diversas doenças. Mas você sabe dizer o que elas são? “Trata-se de células do nosso corpo que têm potencial de regenerar tecidos. Qualquer lesão que acontece no organismo, inclusive em órgãos internos, elas é que vão fazer o reparo”, responde o biólogo Eder Zucconi, do banco privado de células-tronco StemCorp, em São Paulo. Isso significa que elas têm a capacidade de se duplicar, gerando células idênticas à original, e também de se transformar em outras formas celulares, que dão origem a diferentes partes do corpo humano.

Entre elas, as que possuem maior poder de diferenciação são as células-tronco embrionárias (também chamadas de pluripotentes), encontradas no interior de embriões no estágio do blastocisto, que se forma entre quatro e cinco dias após a fecundação do óvulo. “Elas são capazes de formar todos os tecidos do nosso organismo”, explica a professora doutora Patricia Pranke, coordenadora do Instituto de Pesquisa com Células-Tronco (IPCT) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mas há um grande debate entre ciência e religião quanto ao uso deste tipo célula em pesquisas e possíveis tratamentos terapêuticos.

Estudos vêm demonstrando, no entanto, os benefícios de outra forma de células-tronco: as adultas, obtidas, principalmente, da medula óssea e do cordão umbilical. Embora sejam menos versáteis que as embrionárias e tenham, portanto, um uso mais limitado, essas células podem formar áreas específicas do corpo, como órgãos e ossos. Saiba mais sobre elas abaixo.

Tipos de células-tronco

As células-tronco adultas se dividem entre as hematopoéticas e as mesenquimais. O primeiro grupo pode ser encontrado na medula óssea, no sangue periférico (aquele da corrente sanguínea) e no sangue do cordão umbilical. São responsáveis por formar todo o tecido sanguíneo e só conseguem se transformar em células ligadas ao sangue.

Já as mesenquimais estão em todos os outros tecidos do organismo que não o sanguíneo: nos órgãos, nos ossos, nos dentes de leite e, inclusive, na medula óssea e no cordão umbilical. Elas foram descobertas recentemente e, de acordo com estudos, têm um potencial maior do que as hematopoéticas. “Percebeu-se que essas células podem se diferenciar em vários tecidos e apresentam capacidade de liberar substâncias anti-inflamatórias”, revela a médica hematologista Andrea Kondo, responsável pelo banco público de sangue de cordão umbilical do Hospital Israelita Albert Einstein, também na capital paulista. Por isso, pesquisadores mundo afora vêm investigando o uso desse tipo de célula-tronco adulta no tratamento de diversas enfermidades.

Quais doenças as células-tronco podem tratar?

Depende de qual tipo estamos falando. O transplante de células-tronco hematopoéticas é feito há bastante tempo para o tratamento de doenças ligadas ao sangue, como leucemia, linfoma e anemia falciforme. “Para esses casos, já há resultados claros na literatura médica. É algo aceito no mundo todo”, conta Andrea Kondo. No caso das células-tronco mesenquimais, seu uso terapêutico ainda está sendo investigado. Mas os resultados obtidos nas pesquisas feitas até agora são promissores. “Elas conseguem diminuir a morte celular, a inflamação e até regular o sistema imunológico”, enumera Eder Zucconi. Por isso, esse tipo de célula seria capaz de tratar uma série de problemas, como doenças cardiovasculares, diabetes tipo 1 e lesões da medula espinhal.

Vale a pena armazenar o cordão umbilical?

Com tantas promessas, muitos pais têm optado por armazenar as células-tronco do cordão umbilical de seus filhos recém-nascidos. A ideia é que, no futuro, os pequenos possam usar as suas próprias células para tratar algumas doenças. No entanto, é preciso levar em conta uma série de questões antes de investir nesse recurso, entre elas o tipo de célula-tronco que será guardado:

  • Aquelas retiradas do sangue do cordão (as hematopoéticas) são úteis apenas quando empregadas no tratamento de problemas hematológicos. No entanto, como a maioria dessas doenças do sangue tem um fundo genético, é raro que um indivíduo consiga usar suas próprias células para se tratar. “Se o paciente tiver uma leucemia na infância, por exemplo, muito provavelmente essa alteração já estava no sangue do cordão”, esclarece a especialista do Einstein.
  • Armazenar células-tronco do sangue do cordão umbilical valeria a pena quando há uma pessoa na família com alguma doença que possa ser tratada com essas células hematopoéticas. Por exemplo: se um casal que já tem um filho com leucemia ganha um bebê, recomenda-se que as células-tronco do recém-nascido sejam coletadas, porque aí sim há chances de os dois irmãos serem compatíveis.
  • Melhor do que guardar apenas o sangue do cordão umbilical seria preservar, também, o seu próprio tecido, que é rico em células-tronco mesenquimais. Mais versáteis que as hematopoéticas, elas poderiam, no futuro, ser utilizadas no tratamento de um leque maior de doenças. O problema é que, embora existam no país bancos privados que congelem esse tipo de célula, ainda não é possível usá-la para tratar enfermidades. “Elas estão em estudo. Alguns trabalhos estão sendo feitos em animais e outros, já em humanos. Mas, de qualquer forma, dependem de resultados”, diz Andrea Kondo, do Hospital Albert Einstein. E não é possível cravar em quanto tempo todas essas pesquisas serão concluídas.
  • Por último, outro ponto a ser considerado é que, apesar de as células-tronco do cordão umbilical serem jovens e terem uma boa capacidade de renovar tecidos, elas são tão efetivas quanto as células extraídas da medula óssea de um adulto. Portanto, é possível coletar células hematopoéticas e mesenquimais em qualquer fase da vida – não apenas no momento do parto!

Como faço para armazenar células-tronco do cordão umbilical do meu filho?

Você pode fazer isso tanto em bancos públicos quanto privados. No primeiro caso, só é possível guardar células-tronco do sangue do cordão (hematopoéticas). “O banco público armazena célula apenas para aquilo que tem evidência científica”, justifica Andrea Kondo. Nesses bancos, o material coletado fica disponível para qualquer pessoa que necessite dele – e não só para o paciente que doou. Para fazer a doação, é preciso que o parto seja realizado nas maternidades credenciadas na Rede BrasilCord, que reúne os bancos públicos de sangue de cordão do país. Além disso, a gestante precisa atender a critérios específicos, como ter mais de 18 anos, realizar no mínimo duas consultas de pré-natal documentadas, não possuir câncer ou doenças hematológicas (a exemplo de anemias hereditárias) e estar com idade gestacional acima de 35 semanas no momento da coleta.    

Entre os bancos privados, há estabelecimentos que permitem armazenar todos os tipos de células-tronco. O material fica guardado exclusivamente para o paciente que optou pelo congelamento. Só que tem um custo. “É preciso pagar uma taxa inicial, que gira em torno de R$ 3 mil. Depois, é cobrada uma anuidade de cerca de R$ 600”, calcula Eder Zucconi, da StemCorp.

Durabilidade

Tanto em bancos públicos quanto privados, as células-tronco são congeladas a temperaturas baixíssimas, o que garante que possam ser armazenadas por muito tempo sem comprometimento. “Até hoje, a mostra mais antiga armazenada e que foi descongelada tinha 20 anos. Então, a gente sabe que, pelo menos por esse período, as células se mantêm”, conclui Zucconi. Embora esse “prazo de validade” seja longo, os pais devem levar em consideração que existe uma limitação do número de vezes que esse material poderá ser utilizado, já que uma vez descongelado ele não pode passar por um novo processo de congelamento.

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