Colunistas
Medo da morte
A pedagoga Tita Belliboni* tira as suas dúvidas. Você também pode participar, mandando a sua história sobre a educação e o comportamento infantis. Participe!
Tita,
Minha filha de 3 anos e 10 meses está demonstrando muito medo da minha morte (e entes queridos mais próximos). Ela chega a chorar quando fala do assunto. Nós não tivemos nenhuma perda de ente próximo recentemente e eu tento sempre tranquilizá-la falando de vida, alegria, saúde e, assim, incluir outro assunto. O que mais posso fazer para que ela fique bem?
Elvira
Elvira,
Acho esse o assunto mais difícil de lidar com as crianças mesmo porque é também o mais difícil para nós, adultos. Além disso, as explicações dependem até da religião de cada um, da experiência de cada um e daquilo que de verdade acreditam. Você sabe que as crianças até os 6 anos vão passeando entre a fantasia e a realidade. No início da infância, a fantasia predomina, depois há uma confusão danada entre elas e aos poucos, por meio do cotidiano, do desenvolvimento cognitivo e emocional e do amadurecimento, a realidade vai se instalando. O medo da perda e da morte aparecem, e como gosto sempre de citar as minhas experiências, me lembro muito do meu filho caçula aparecer na minha cama de madrugada e me cutucar até que eu acordasse só pra saber se eu estava viva. Eu dizia: “Oi filho! Precisa de alguma coisa, um beijo? Vamos dormir que amanhã será um dia delícia! Vamos fazer isso, aquilo...” Tentava passar a confiança de que amanhã estaríamos ali e assim não me aprofundar no medo da possibilidade de isso não acontecer.
Pela sua carta, vejo que é o caminho que está buscando! Embora vocês não tenham tido nenhuma perda recentemente, ela pode ter ouvido uma história na escola, na TV, uma conversa de adultos e talvez esse assunto tenha chegado até ela antes mesmo da própria curiosidade e com certeza sua pequena, que deve ser uma criança mais sensível, está assustada. Que bom que ela está colocando esse sentimento para fora porque, quando as crianças embutem tais medos, fica muito mais difícil poder ajudar e elas sofrem mais ainda sem que saibamos por quê.
O que fazer então para amenizar essa aflição e esse sofrimento que por ser da pequena é nosso também? Não dê uma dimensão gigante ao fato para que não se torne um problema, mas também não menospreze nem brinque com ele. Não minta nem prometa nada de que não possa ter certeza (as pessoas só morrem quando estão velhinhas etc.). Distração, diversão e afeto em dose reforçada!
Procure ainda saber na escola se esse assunto surgiu por alguma razão e como foi abordado: alguma criança passou por uma perda? Alguma história que incluísse morte no enredo? Outro ponto: se você e seu marido trabalham, com quem fica a pequena? Insegurança ou até a saudade ou outro fato que não diretamente estejam ligados à morte, mas a ausência ou perda, podem desencadear esse medo.
Elvira, a cabecinha das crianças, como a nossa, é uma caixinha de surpresas e, de repente, da mesma maneira que essa questão surgiu, ela pode desaparecer ou se aquietar. O fato é que destsa forma vamos percebendo o quanto é importante que as crianças estejam felizes e seguras porque o que mais podemos oferecer a elas são ferramentas para que possam lidar com as dificuldades da vida e não negar que as mesmas existem. Só que há um tempo próprio para cada tema, para cada discurso, para cada explicação. Gosto sempre de mencionar um livro de psicologia que contava que um garotinho perguntou ao pai, em uma partifda de golfe, como a bolinha caía no buraco. E o pai, com papel e caneta, desenhou toda a lógica do jogo. Quando olhou, o filho dormia cansado de tamanha explicação! Ele não estava preparado para a técnicas e probabilidades e nem para o longo discurso!
Não podemos nos estender tanto quando o tempo da criança e seus elementos ainda não permitem. Seja positiva, alegre, doce. Abrace muito, beije, durma pertinho de vez em quando. Deixe que ela chore se tiver vontade e logo invente uma coisa gostosa para fazer. Deixe que desenhe, inclua mais arte e música no cotidiano. Dê a ela um tempinho para lidar com isso e, se perceber que está se agravando, que o medo está crescendo e ela sofrendo mais com isso, procure ajuda porque podem ter faltado dados para uma análise mais abrangente. Mande notícias! Quero logo saber que a sua pequena está feliz!
Um abraço,
Tita
Colunista
Luciana Belliboni, que tem o carinhoso apelido de Tita, é pedagoga e apresentadora da versão brasileira da série Doces Momentos, do canal Discovery Home & Health
































