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Deixar aprender, deixar sentir, permitir construir

Tita Belliboni Atualizado em 02.12.2011

A pedagoga Tita Belliboni* tira as suas dúvidas. Você também pode participar ao mandar a sua história sobre a educação e o comportamento infantis. Escreva para a gente!

Participei de debates muito ricos esta semana, sobre fracassos, esforço e felicidade, sobre oferecer tudo aos filhos e dar a ideia de que a vida é fácil. Encontrei alguns pontos muito interessantes e uma confusão danada sobre facilidade e felicidade.

 

Esperamos, sim, que nossos filhos sejam felizes, afinal, não seria exatamente esse o nosso desejo maior? Da mesma forma, realmente esperamos que seu caminho seja mais fácil do que é ou foi, muitas vezes, para nós. E é aqui, entre esses dois desejos, que a confusão se instala.

 

A primeira questão parte do nosso desejo que é puro, mas pode se confundir na nossa vaidade, na nossa pretensão, na nossa intenção errônea de construir um ser humano perfeito e uma vida perfeita para os filhos.

 

Podemos, sim, ser os protagonistas do maior milagre do mundo ao gerar uma vida, mas ela não nos pertence. Esse ser humano será construído por ele mesmo e seremos, apenas, coadjuvantes, orientadores e companheiros dessa obra ,mas não seus autores.

 

Temos a responsabilidade imensa de apresentar um caminho, oferecer oportunidades e principalmente nortear valores e princípios. Dar às crianças ferramentas para a construção. E, no processo maravilhoso que é a vida, oferecer, aos poucos, os materiais necessários e depois deixar que, a seu modo, criem, desenhem, inventem, realizem! Então, no lugar de facilitar entregando o resultado, eu diria que já é um enorme privilégio poder proporcionar as ferramentas.

 

Proporcionar e incentivar, permitindo que tentem, que errem, que fracassem, que façam novamente, que aprendam. E que, ao olhar para trás, possam sentir o prazer imenso de dizer “fui eu”. Essa possibilidade aflige os pais de hoje, os educadores de hoje. Não é o pronto que vale, mas o caminho que se percorreu para chegar até esse “pronto”, que é, no fundo, apenas a prova da conquista.

 

O que foi vivido durante o processo é o que, de verdade, fica, forma e fortifica o ser humano . São seus tijolos, seus alicerces, suas paredes, subindo para que sólidos possam se erguer. Esse caminho define o que uma pessoa é. Não só o que fez, mas, principalmente, como fez. Esse trajeto vai assegurando sua individualidade, oferecendo autoestima , construindo dignidade. Com certeza, ninguém no mundo pode ser feliz sem se sentir capaz, confiante, independente, digno.

 

A felicidade que esperamos para nossos filhos só é possível se permitirmos que busquem , que sonhem, que se esforcem, que valorizem e compreendam o que significa.

 

Se não valorizamos o percurso da construção e só darmos valor ao pronto perfeito, o que nos resta? O material. O que compramos pronto, adquirimos pronto, oferecemos pronto. E o caminho? O percurso?

 

Esse percurso chamamos de esforço, de trabalho, de exercício, de estudo. Esse percurso chamamos de VIDA.

 

E a vida que é nossa é construída por nós! Cabem a imaginação e a criatividade, mas não a ilusão. Cabem os personagens e os heróis das historinhas, mas contadas por seres humanos reais. Cabe a verdade! A tristeza quando é tristeza, o fracasso quando é fracasso, o erro quando é erro, a alegria quando é alegria, porque a felicidade é um pacote dos experimentos de todos os sentimentos e só assim pode ser genuína.

 

Na felicidade, cabe a alegria dos bons momentos e também a resignação pela superação dos momentos ruins. Na felicidade, cabem a tolerância e o respeito.

 

Como criar uma pessoa tolerante se não ensinarmos a respeitar as diferenças, a aceitar os erros, encarar os fracassos, tentar outra vez?

 

Como preparar as crianças para as grandes perdas e dores, se não permitimos que experimentem as pequenas, do dia a dia?

 

Como convencer nossos filhos de que ninguém é bom em tudo, que cada um tem seu momento e suas capacidades, se só valorizarmos as vitórias? Pior ainda quando forjarmos estas vitórias. Como permitir que encarem seus medos ou as situações nem sempre prazerosas se mentirmos ou omitirmos, até mesmo, que o motorzinho do dentista é chato, que a vacina dói um pouquinho, que ao aprender a andar de bicicleta sem rodinha a gente pode cair mesmo?

 

Se não ensinarmos os desafios, eles significarão problemas e os problemas de verdade serão insustentáveis. Felicidade não é uma vida sem problemas, e sim saber que, quando você cai, alguém estará ali pra te ajudar e ensinar a levantar sozinho.

 

É... Não é mesmo fácil educar. Amar um filho é um sentimento imediato, incondicional, imensurável e se faz com o coração. Educar um filho, preparando-o para que possa ser um indivíduo feliz, é a maior tarefa desse amor e se faz com a razão, o bom senso, a dedicação e o esforço de todo o caminho.

 

Amar é o presente que recebemos nesse milagre da vida. Educar é a responsabilidade que recebemos não como presente, porque não é nossa, mas como o milagre delicioso da convivência, do aprendizado, do exercício do amor.

 

É preciso deixar errar, deixar aprender. É preciso deixar sentir, deixar construir.

 

Deixar perceber que o que traz a felicidade não é ter tudo fácil e nem tudo sempre, mas saber que se é inteiro, mesmo que imperfeito, porque só desse jeito se é de verdade.

 

Abraço carinhoso,

Tita

 

 

Colunista

Tita Belliboni

Luciana Belliboni, que tem o carinhoso apelido de Tita, é pedagoga  e apresentadora da versão brasileira da série Doces Momentos, do canal Discovery Home & Health

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