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Família

Depoimento: parto natural

Márcia Carini Atualizado em 27.01.2012
Depoimento: parto natural
Arquivo Pessoal

A jornalista Márcia Carini era uma cesarianista convicta, mas mudou de time e aderiu ao parto natural. Ela conta por que fez essa opção e relata o nascimento do pequeno Loretto

 

Parto natural... Até o sétimo mês de gravidez, nem sabia o que era isso. E de parto normal não queria ouvir falar. Tinha medo, pavor da dor. Mais: achava um absurdo alguém sentir dor em pleno século 21. De onde vinha esse pânico? Não sei. Minha mãe relatava três partos normais tão fáceis, sem anestesia. Ela só reclamava da tal lavagem, de ter que ficar deitada durante as contrações e do picote (a episiotomia). Eu, no entanto, permanecia irredutível: taurina cabeça dura, queria cesárea e ponto final.

Meu ginecologista, que já me conhecia e sabia do meu medo, foi logo dizendo que ele agendava cesarianas eletivas para as segundas-feiras. “Vejamos no calendário... Data provável do parto: 18 de maio. A gente pode fazer a cesárea no dia 15 ou 8 de maio de 2006... Ih, 8 de maio é seu aniversário.” E assim ficou meio marcado para o dia 15.

Nesse percurso, o Maurício, meu marido, começou a trazer recortes de jornal com matérias sobre o abuso das cesáreas no Brasil. Eu ficava brava com ele, mas lia e, lá no fundo, pensava: “Será mesmo que a cesárea é um risco desnecessário?” Um belo dia, eu estava em um chá-de-fraldas e fui convidada por uma amiga para participar de uma reunião em que se falava sobre gravidez e parto. Liguei e fui, sem ter a menor idéia do que seriam os encontros. Era o Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa).

A primeira coisa que me falaram lá ficou registrada na minha memória: “Se você está tão decidida pela cesárea, já está preparada para o que há de pior. Qualquer outra coisa é lucro”. De quinta em quinta-feira, fui dilatando meus conceitos. Descobri que era possível dispensar a lavagem, a raspagem, a episiotomia. Descobri que não precisava ficar presa à cama durante as contrações e poderia ter o bebê de cócoras, de pé, de quatro, na banheira, como quisesse. Descobri que eu poderia ser acompanhada de uma doula – uma mulher que faria massagens e me falaria palavras de apoio durante o trabalho de parto.

Acho que, em duas semanas, eu já queria pelo menos entrar em trabalho de parto. Em três semanas, tinha certeza de que queria o parto normal. Em quatro, troquei de médico. Nos últimos encontros, estava pensando em que estratégias usar para dispensar a anestesia. Mais um pouco e teria tido o Loretto em casa (na foto, junto com Márcia e Maurício).

Minha preparação para o parto incluiu muita ioga, bastante caminhada e ficar de cócoras pelo menos meia hora por dia. Também fiz os exercícios recomendados por alguns livros – trabalhei bastante o corpo, mas principalmente a cabeça e o coração.

Eu sabia que o meu parto só dependia de mim. E me sentia preparada. Mas... Sim, continuava com um medinho lá no fundo. Será que eu ia agüentar? Como é que ia ser?

Quando completei 38 semanas de gravidez, fui a uma consulta com a minha médica, a doutora Andréa, que naquele momento estava atendendo um parto. Fiz um exame cardiotoco (para ouvir o coração do bebê) e um especular (coloca-se um bico-de-papagaio na vagina para ver se o que está saindo é líquido amniótico). O cardiotoco não teve um bom resultado – os batimentos cardíacos do bebê estavam muito estáveis. A enfermeira de plantão saiu da sala e voltou com uma buzina (eles costumam dar uma tremenda buzinada perto da barriga para o bebê acordar – uma brutalidade). Fui logo dizendo: “Buzina, não!” Ela me achou uma petulante, mas pelo menos não usou a tal da buzina.

Depois fui para a sala de ultra-som. Dessa vez, pedi um chocolate para o Maurício. Daí, o bebê, que deveria estar dormindo na hora do cardiotoco, deu uma bela animada. Resultado do ultra-som: tudo ótimo, bebê mexendo bem e com... 3,7 kg. Pô, um bebê de 38 semanas desse tamanho! “Gente, como é que ia sair?” No dia seguinte, vimos quão fora da realidade são essas medidas do ultra-som, pois o bebê nasceu com 3 kg.

Minha médica continuava no parto. Mas outro obstetra, também da equipe humanizada, que já sabia do meu cardiotoco comprimido, apareceu e só me recomendou que almoçasse bem – certamente o cardiotoco após o almoço daria normal. E assim foi. Depois do exame com excelente resultado, saímos do hospital tranqüilos.

No caminho de volta, senti uma dorzinha de barriga. Olhei no relógio do carro: 18 horas. Outra dorzinha... Nova olhada no relógio: 18h05. Outra dorzinha... Epa, de cinco em cinco minutos. “Será?” Mais cinco minutos... Outra dorzinha. Só podia ser! Fiquei tão feliz. “Maurício, acho que entrei em trabalho de parto!”

Em casa, pedi para ele ficar em silêncio – ele estava louco para instalar uns puxadores nas portas, mas não deixei. Arrumei a minha mala e terminei de arrumar a do bebê. Sentia um aperto bem de leve no pé da barriga. Cada aperto durava 30 segundos, com pico de dor de um segundo apenas. O Maurício pegou emprestada a filmadora de um casal de amigos. Fiquei no quarto, no escuro, acompanhando aquelas dorzinhas. E eu cada vez mais feliz porque o bebê ia nascer na semana 38 – temia que ele passasse de 40 semanas e ficasse enorme. Queria silêncio e falava para o bebê: “Filho, para nascer, a contração tem que vir mais forte. Capriche no empurrão”. Ligamos para a Ana Cris, que seria a minha doula, para dizer que eu havia entrado em trabalho de parto.

Durante toda a noite, fiquei sentada na cama. Quando levantava para fazer xixi, via que sempre saía um pouquinho de sangue. Na hora das contrações, eu respirava, descontraía o maxilar, abria bem minha garganta. O pico da dor continuava durando apenas um ou dois segundos. Era absolutamente fácil de suportar. Às 4 horas, as dores vinham de três em três minutos e duravam 50 segundos – com pico de três segundos, apenas. Continuava fácil.

Às 7h30, pedi para o Maurício ligar para a Ana Cris. Ainda era de três em três minutos, mas o pico já durava uns dez segundos. Ela pediu que fôssemos para a maternidade. Consegui tomar um café com leite, mas achei que, se comesse pão, poderia vomitar no carro. Enquanto meu marido tomava café, calmamente eu me ajoelhava quando vinha uma contração um pouquinho mais intensa.

No carro, eu vocalizava o aperto no ventre, fazendo alguns sons. O Maurício disse, depois, que tinha muita vontade de rir dos meus barulhos intermitentes... Entre as contrações, me lembro de ter olhado uma praça perto de casa, com pessoas caminhando, e pensei: “Vai ser tão legal vir aqui brincar com o Loretto”

Quando cheguei à maternidade, minha médica fez o toque... Oito cm de dilatação. Eu perguntei: “Tem certeza?” Tinha lido que, depois de 7 cm, a dor fica muito forte. A dor não aumentou, o tempo passou e minha barriga continuava alta. Caminhava com a Ana Cris pelos corredores, ficava de cócoras, rebolava na bola e a barriga lá em cima. O Maurício se divertia nos filmando. Comi um montão de chocolate.

Às 14h30, um novo toque: dilatação quase total – só tinha uma rebarbinha de útero para abrir, mas o bebê quase não tinha descido porque ele não conseguia vencer o tanto de água que havia na bolsa. Sugestão: fazer um chuveirinho na bolsa – três furinhos fininhos para que a água fosse escorrendo aos poucos.

A cada nova contração, a água ia saindo e o bebê descendo. Eu sabia que o procedimento faria a dor vir com mais intensidade. De fato. Uma hora depois, estava sentindo contrações mais fortes, e mais fortes e mais fortes, com uma duração maior. Conforme a coisa foi apertando, senti que o melhor a fazer era soltar um “Aaaaaahhh” bem prolongado. Depois soprar bem rápido, várias vezes. Eu apertava a mão da Ana Cris e do Maurício. Estava com medo de o bebê ser grande e, por isso, estar demorando tanto para baixar.

Por volta de 16h30, a Ana Cris sugeriu um banho quente no chuveiro. Não acho que a dor tenha diminuído – diferentemente de todos os outros relatos de parto. Mas foi legal sentir a água entrando na minha boca quando eu falava um “Aaaaahhhh”. Eu me divertia com essa cena – tinha que ficar cuspindo a água. Olhando a filmagem, eu vejo minha cara de “partolândia”, sentada no chão do boxe, meio aérea. Mas eu me sentia totalmente ali, estava atenta ao que as pessoas falavam. Só não conseguia responder porque as contrações vinham muito seguidinho umas das outras.

Desligaram o chuveiro e colocaram dentro do boxe uma escadinha dessas de subir em cama de hospital. O Maurício, com sua camisa de Super-Homem, se sentou atrás de mim, no degrau de cima. Fiquei no degrau de baixo. E a doutora Andréa, sentada no chão, perguntava: “Está com vontade de fazer força?” Eu ainda não estava. E falei para a Ana Cris: “Você dizia que o expulsivo não dói. Era mentira...” Ela explicou que, num trabalho de parto sem dor, é normal que o expulsivo seja mais dolorido.

De repente, comecei a sentir uma vontadezinha, ainda tímida, de fazer força. A dor muda. Ou melhor, muda a sua prioridade – a gente quer é colocar a criança no mundo. A orientação era: na contração, respire duas vezes e na terceira, segure o ar e empurre para baixo – isso dá um grande alívio, principalmente quando a gente pega o jeitão de fazer força.

A doutora Andréa falava: “Isso... Já está aparecendo” e me mostrava o espelho. Mas não dava para ver ainda – ao menos, para os leigos. Eu fazia uma força tremenda e parecia que a coisa não progredia. Teve uma hora em que a contração demorou um pouco mais para vir e eu cochilei no colo do Maurício. Sim, dei uma cochiladinha no intervalo. Acordei no meio da contração seguinte, super-assustada... Nisso, a doutora Andréa percebeu que eu poderia ajudar o bebê a ir girando como um parafuso se me deitasse de lado. Lá fui eu, até a cama, deitar de lado. Adorei a posição!

Vi que já tinham até colocado um bercinho aquecido na sala – ou seja, estava para nascer mesmo. Isso deu um alívio. Pelo menos, pensava eu, já tinha passado pela bacia. Eu mesma puxava minha perna contra o meu peito e fazia força, fazia força. Ficava lembrando da minha mãe e da minha amiga Lindalva, que diziam: “Aí, fiz três forcinhas e o bebê nasceu...” Eu devo ter feito umas 30 forcinhas...

Maurício colocou a Nona Sinfonia de Dvorák no aparelho de som (a gente ouviu essa música todo dia durante a gravidez, várias vezes durante o trabalho de parto e, para o nascimento do Loretto, ele selecionou o movimento allegro con fuoco). Minha vagina começou a arder loucamente – lembrei-me do meu primeiro dia no Gama, quando uma moça norte-americana deu seu relato de parto e falou do “círculo de fogo”, ou seja, da ardência que se tem ao redor da vagina.

Numa força bem descomunal, percebi a cabeça saindo. Ainda ouço a voz delicada da doutora Andréa dizendo: “Isso, Márcia, isso, muito bem”. E da Ana Cris, que estava filmando: “Putz, acabou a bateria bem agora”. E a do Maurício: “Loretto...” Mais uma contraçãozinha... Pluft, saiu o corpo.

Imediatamente, pedi para me ajudarem a levantar o tronco. Eu queria ver, eu queria ver o Loretto. Entregaram-me aquele menino tão forte, tão delicioso de segurar. Ele estava quase dormindo, alheio ao movimento allegro com fuoco todo. Foi abrindo os olhos, encarou meu rosto e o do pai... Eu sentia o cordão pulsando no meio das minhas pernas, eu sentia o mundo inteiro pulsando dentro de mim.

Lembro do Maurício falando: “Parece que a gente já se conhecia. Parece que ele sempre esteve aqui”. O Maurício cortou o cordão 25 minutos depois do nascimento, tudo exatamente como a gente queria. E eu olhava as mãos, os pés, o rosto do bebê. Era o meu filho! Era o meu filho!

Fiquei duas horas com ele na sala de parto. O Loretto mamou, tomou banho num balde nas mãos da Ana Cris, ficou me olhando. A doutora Andréa avaliou o meu períneo. Nenhuma laceração, não ia precisar de pontos.

Pedimos para guardar a placenta. Serviram-me um jantar na própria sala e, logo depois, fui tomar banho como se nada tivesse acontecido. Sentia uma força e uma energia maravilhosas. Não queria dormir, não queria descansar. Solicitei um alojamento conjunto e eu era o mais poderoso animal com sua cria ao lado.

Até hoje, tenho microssegundos de dúvida ao acordar: teria sido um sonho? Fico feliz em receber minha resposta e meu alívio (para sempre) nos olhos tão suaves do Loretto.


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