Família
Pai e filho: mais tempo juntos
Os pais, cuja papel principal era ser os principais provedores da casa, hoje querem passar mais tempo com os filhos. Confira o debate sobre essa nova realidade familiar
Ricardo Toscani decidiu virar dono de casa para cuidar da filha enquanto a mulher, Lucia Faria, sai para trabalhar. Esse formato de família, que ainda pode causar estranhamento à primeira vista, está se tornando cada dia mais comum. Os pais, cuja principal função antigamente era serem os principais provedores do lar, hoje querem passar mais tempo com os filhos. É o que sugere um estudo publicado recentemente no jornal americano The New York Times. Toscani, fotógrafo gaúcho de 30 anos, está há oito morando em São Paulo. Casado com a designer Lucia, da mesma idade, eles têm uma filha chamada Alice, que acabou de completar o primeiro aninho. Conversamos com Toscani para saber mais sobre o seu dia a dia e ouvimos especialistas para entender as mudanças que vêm acontecendo na dinâmica familiar atualmente.
1. Você escolheu ficar em casa cuidando da Alice ou isso aconteceu naturalmente?
Toscani: Desde o início, sempre quis ter bastante participação na vida da minha filha. A gravidez é um momento da mãe e da criança. Não tem como o pai ajudar muito. A Lucia dizia: ‘Vem sentir a sua filha, ela está chutando’, mas pra mim era uma barriga, não a minha filha. Quando a criança nasce, essa chave vira, é a nossa chance de participar. Como a Lucia trabalhava fora até recentemente, e eu sou freelancer, a tarefa de cuidar da pequena ficou para mim.
2. Você sempre gostou de cuidar da casa?
Toscani: Sim, sempre fui dono de casa e adoro cozinhar, até tenho um blog de receitas, o Culinária Tosca. Na época da faculdade, nas festas com os meus amigos, eu ia conversar com a mãe deles para pedir receitas. Depois, já em São Paulo, a Lucia saía para trabalhar e eu ficava pensando: “Ela vai chegar cansada e ainda vai cozinhar?” Aí decidi tomar conta da casa, manter tudo limpo e organizado. Acho que faz muita diferença chegar em casa e ter uma comida gostosa esperando.
3. Como é o seu dia a dia de dono de casa?
Toscani: Acordo junto com a Alice, troco a fralda, dou uma frutinha para ela comer, vamos passear na pracinha... É uma rotina normal. E, quando estou ocupado com algum trabalho, quem cuida da Alice é o Régis, o babá.
4. Você tem um babá homem? Como é isso?
Toscani: Sim. O Régis era meu assistente, um faz-tudo. Ele tem um sobrinho pequeno e sempre falava sobre ele. Então a Lucia teve a sensibilidade de chamar o Régis para cuidar da Alice quando a gente não pode. Tive um momento de ciúme, que durou cinco minutos – porque todo mundo fala que mãe é mãe, mas ninguém diz que pai é pai. Mas passou e topei. O Régis trabalha de segunda a sexta.
5. Você passa a maior parte do dia com a Alice. A Lucia não fica enciumada?
Toscani: Não. A Alice me curte, a gente se dá superbem, mas ela é louca pela mãe. As duas têm uma paixão inexplicável, uma ligação incrível. Nada muda isso.
6. Qual é a melhor parte de ser dono de casa?
Toscani: Eu acho muito bom poder cuidar da minha filha. Teve um período, antes de a Alice nascer, que eu trabalhei fora de casa e foi muito ruim. A Baba, minha cadela, passeava duas vezes por dia, às 7 da manhã e às 11 da noite. Não estava legal, não era bom. Por isso, resolvi encarar e montar um estúdio em casa, e a vida da Baba deu um salto. Ela me ensinou a ser pai.
7. O que você aprendeu com a Baba?
Toscani: Aprendi a ser tolerante. Quando ela faz algo errado, primeiro penso por que isso aconteceu, não saio brigando. Desde que a Lucia engravidou, a Baba ficou superprotetora, late por qualquer coisa. Às vezes, irrita, mas eu penso: “Como vou brigar com um bicho que quer me defender?” Antes de a Alice nascer, assisti a muitos programas sobre educação de crianças e vi que sempre que acontece algo de errado, como uma criança que grita histericamente, a culpa é dos pais. Ainda não sei como vai ser com a Alice, mas essas experiências vão me ajudar.
8. Tem parte ruim de ser dono de casa? Alguma coisa poderia ser diferente?
Toscani: Eu queria ganhar muito dinheiro sendo dono de casa.
9. Estudos comprovam que os pais acompanham os filhos de uma distância maior e isso incentiva o lado explorador da criança. Você acredita que a Alice será uma criança diferente por ser criada por um pai e um babá?
Toscani: Acho que sim. As duas referências que ela tem no dia a dia são masculinas e com certeza isso vai contribuir com alguma coisa na formação dela. Lá em casa a coisa é meio invertida. Quando a Alice cai, por exemplo, eu levo um susto, saio correndo para acudir. A Lucia é mais calma, diz que isso acontece e que não tem problema. Acho que quem cuida todo dia acaba sendo mãe.
10. Se você tivesse uma rotina como a da maioria dos pais, que passam o dia inteiro trabalhando longe dos filhos, como seria?
Toscani: Ia ser horrível. Não é legal ficar longe da Alice.
O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS
1. Hoje em dia, os pais participam mais da vida dos filhos do que antigamente, quando essa tarefa era exclusivamente feminina. No entanto, em grande parte dos lares brasileiros, os homens continuam sendo os principais responsáveis pelas questões financeiras. O que um homem que trabalha o dia todo pode fazer para ser um bom pai?
“O que importa não é a quantidade de tempo que esse pai fica com os filhos, mas a qualidade do tempo. Se ele chega do trabalho e monta um quebra-cabeça ou fica jogando bola por 15 minutos com a criança, já valeu. O importante é se interessar pelo assuntos do filho, saber como foi o dia, participar de alguma maneira, seja brincando, seja colocando na cama para dormir. Acho essencial que pelo menos uma refeição – que pode ser o jantar – seja feita com a família reunida”, explica a psicoterapeuta *Lúcia Rosenberg, de São Paulo. É necessário incluir o filho na agenda, reservar um pedaço do dia para ele. “Isso faz com que a criança se sinta importante e pertencente”, conclui Lúcia.
2. Por que é tão importante brincar com a criança?
Porque é uma oportunidade de o pai aprender com o filho. “Brincar desenvolve competências, a autoestima e aumenta a segurança. É um momento de parceria. É assim que se cria a identidade. Brincar junto é essencial para o pai não cair naquele papel de apenas prover e punir”, enfatiza a psicoterapeuta Lúcia Rosenberg.
3. As tarefas são divididas com mais igualdade dentro de casa hoje?
“Sim, acredito que melhorou a divisão de tarefas, mas varia de acordo com cada família, com as competências de cada um. Hoje em dia, vemos pais na porta das escolas, levando os filhos para a natação, terapia, enfim, os homens estão assumindo um jeito mais carinhoso de ser pai e estão tomando gosto”, avalia a psicoterapeuta Lúcia Rosenberg, de São Paulo.
4. Algumas mulheres acham que só o jeito delas de cuidar está certo. Isso prejudica o desempenho do pai?
“Sim. Ajudaria se as mulheres não atrapalhassem tanto. E os homens não devem permitir isso. Devem se dispor a aprender, afinal não é só o jeito da mãe que está certo”, ensina Lúcia Rosenberg. “Na última consulta com o pediatra, aprendemos que temos jeitos diferentes de cuidar, mas isso não significa que um esteja certo, e o outro, errado. Temos que achar o meio-termo, que funcione com a nossa filha”, conta o fotógrafo Ricardo Toscani, pai de Alice, 1 ano.
5. Uma criança será diferente se for criada só pelo pai ou só pela mãe?
“Com certeza. Uma criança criada só pelo pai provavelmente será submetida a um meio no qual os estímulos e as situações poderão ser muito mais intensos e desafiadores do que o de uma criança criada só pela mãe. Ou pode acontecer o inverso: a mãe proporcionar mais desafios e o pai ser o mais cauteloso. Tudo depende do sexo da criança e da personalidade do cuidador”, explica Cristiane Gai, psicóloga de Santa Maria (RS). “O pai permite que o filho explore mais. A mãe protege, enquanto o pai prepara para a vida. É importante ter equilíbrio porque a criança precisa de destreza, independência, mas também precisa de uma dose de carinho, de proteção e aconchego”, complementa a psicoterapeuta Lúcia Rosenberg.
6. Há alguma maneira de um filho de pais separados não ser prejudicado pela falta de convivência?
“Ter pais separados não significa falta de convivência. Separação não é desunião. Tudo bem que a separação assusta no primeiro momento, mas o pai pode continuar presente de diversas maneiras: buscar na escola, ficar junto durante a semana. A não ser que o pai queira se ausentar, aí é diferente. É importante passar para a criança que os pais se separaram, mas não são inimigos. Que a casa do pai é, também, a casa do filho”, esclarece Lúcia.
7. Hoje alguns pais escolhem ficar em casa, enquanto a mulher sai para trabalhar. O que causou essa mudança do homem provedor para o dono de casa?
“O que ocasionou isso nos pais foi a mudança feminina, foi a mulher sair de casa para trabalhar e ganhar dinheiro. Hoje não importam mais as questões sociais de homem e mulher. A divisão de tarefas acontece por habilidades. Se a mulher tem condições de trabalhar e ganhar dinheiro, ótimo que ela saia e o marido fique cuidando da casa. A divisão depende das competências do casal”, finaliza Lúcia Rosenberg.
*Lúcia Rosenberg é autora do livro Cordão Mágico (Ofício das Palavras Editora)
































