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Saúde

Na barriga da mãe

Cida de Oliveira Atualizado em 02.12.2011
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Getty Images

As imagens de ultrassom permitem ver o bebê em detalhes, com um grande ganho: se ele estiver correndo risco de vida, pode ser salvo antes mesmo de vir ao mundo

Guiados pelos borrões que eram as imagens precárias do aparelho de ultrassom existente no início dos anos 1980, os médicos da equipe do obstetra francês Fernand Daffos introduziram uma fina agulha no abdome de uma gestante. Sem desviar 1 milímetro, ela chegou ao alvo: espetou o cordão umbilical e retirou uma amostra de sangue. Uma amostra preciosa, diga-se, já que acusaria a anemia do bebê. O procedimento inédito, realizado em 1983, possibilitou, dois anos depois, transfusões de sangue intra-uterinas que salvaram inúmeras crianças. E a ciência deu à luz a uma nova especialidade: a medicina fetal, que hoje trata com sucesso doenças congênitas e até mesmo uma série de malformações dentro do útero da mãe.

 

Os médicos dessa área fazem proezas. Operar bebês de pouco mais de 35 centímetros e meros 700 gramas requer uma precisão inimaginável. “Ela é possível graças ao arsenal de exames de imagem, que agora retratam com nitidez nove entre dez anomalias fetais”, diz a obstetra especialista em medicina fetal Denise Lapa Pedreira, da Universidade de São Paulo. Isso é quatro vezes mais do que os médicos conseguiam enxergar no ultra-som de 25 anos atrás.

 

“No começo, operávamos a futura criança abrindo a barriga da mãe”, lembra o especialista em medicina fetal Lourenço Sbragia, professor de cirurgia pediátrica da Universidade Estadual de Campinas, no interior de São Paulo. “Mas a tendência é trocar a cirurgia por instrumentos delicadíssimos: os fetoscópios”, diz ele. “Munidos de agulhas e feixes de fibras ópticas, eles alcançam o bebê por um furo mínimo no útero. Com um instrumento desses, corrigimos a hérnia diafragmática congênita, um defeito no músculo do diafragma que levava metade dos portadores à morte prematura”, exemplifica.

 

O maior risco das cirurgias realizadas em fetos continua sendo provocar um parto prematuro — e não o de algum instrumento machucar o bebê, como muitos leigos temem. “E nem sempre alcançamos o resultado desejado”, avisa o professor Lourenço Sbragia. Aí, de fato, a criança pode morrer antes mesmo do nascimento — outra vez, não por causa do procedimento em si, mas porque seu mal não foi curado. Pense bem: quando o problema deixa a futura criança entre a vida e a morte, a intervenção deve ser cogitada. “Ela é a saída quando o feto corre perigo imediato ou quando as seqüelas de uma anomalia seriam gravíssimas após o nascimento”, resume a obstetra Denise Lapa. Ela, por exemplo, é expert em uma doença chamada mielomeningocele — uma rara abertura na medula espinhal que deixa tecidos nervosos expostos ao líquido amniótico. “Isso pode levar a diferentes graus de paralisia, muitas vezes associada a líquido no cérebro, o que nós, médicos, chamamos de hidrocefalia”, descreve.

 

A intervenção para fechar essa abertura chegou a ser realizada, inclusive no Brasil, a partir de 2003, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pela equipe do neurocirurgião pediátrico Sérgio Cavalheiro. Mas o procedimento foi suspenso. “Faltavam estudos comprovando que ele traz benefícios após o parto”, conta o próprio Cavalheiro. A situação pode mudar: os cientistas que acompanharam o crescimento das crianças operadas notaram que elas apresentavam maior força muscular e reflexos mais rápidos que as crianças portadoras não operadas.

 

Um dos principais desafios da medicina fetal é encontrar um método cirúrgico intra-uterino eficaz para tratar problemas cardíacos graves, a exemplo da hipoplasia do coração esquerdo, em que apenas a parte direita do coração se desenvolve. Miguel Barbero Marcial, professor de cirurgia cardíaca pediátrica do Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, diz que, por enquanto, quase nada se faz cirurgicamente no coração do bebê antes do nascimento. “O máximo é ajustar alguma válvula”, diz. Em procedimentos assim, semelhantes a uma angioplastia, uma agulha é introduzida na barriga da mãe até chegar ao coração do bebê. Ela leva um balão, que é inflado lá dentro, dilatando a válvula e restabelecendo a passagem do sangue. Técnicas como essa, que os médicos chamam de percutânea, são usadas também para drenar o excesso de líquidos na bexiga, na caixa torácica ou do cérebro — males que também poderiam ser fatais. E hoje muitas vezes têm final feliz.


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