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Carreira

A licença-maternidade acabou. E agora?

Rose Mercatelli Atualizado em 27.01.2012
Cláudia Bebê
A licença-maternidade acabou. E agora?

Getty Images

Chegou o momento da decisão: ficar com o bebê ou retomar a carreira? Nem sempre é fácil, mas dá para enxergar melhor o futuro se analisar o presente com o pé no chão

 

Você tinha feito mil planos para sua volta ao trabalho e agora, que o fim da licença está chegando, começa a se perguntar se não seria melhor fazer uma pausa na carreira e trabalhar em casa. Ao mesmo tempo, vem o medo: e se a experiência for um desastre? Muitas mulheres decidiram dar o salto e inauguraram a tendência conhecida como work at home moms, que já é forte na Inglaterra, no Japão, Canadá e nos Estados Unidos. Nesses países, atualmente há inúmeros blogs, sites e serviços feitos por e para mulheres que mudaram o rumo profissional depois da maternidade. Entre as brasileiras, o movimento também vem ganhando corpo, já que a maioria das empresas não prevê horários flexíveis nem outros benefícios para as mães além da licença-maternidade. "A mulher moderna é cobrada para ser uma mãe presente, educadora competente e profissional eficaz. Tudo isso em tempo integral. E mais: não pode descuidar da aparência, precisa estar bem emocionalmente e ainda tem que ganhar dinheiro para ajudar no orçamento. Só que o suporte que recebe para exercer essas múltiplas funções não evoluiu quase nada", analisa a psicóloga Sheila Skitnevsky-Finger, do Instituto Mãe Pessoa, que presta consultoria para quem está envolvida com o desafio de equilibrar filhos e carreira. Se você está sentindo essa pressão na pele, veja o que deve avaliar antes de tomar uma decisão.

 

Orçamento familiar

Uma coisa é certa: quando seu salário é indispensável para fechar as contas da casa, a decisão de correr o risco é mais complicada e exige um planejamento cuidadoso. Para a mulher que tem um parceiro com salário fixo, sem dúvida pode ser mais fácil deixar de trabalhar e curtir a maternidade, mesmo tendo que abrir mão de algumas comodidades. Tudo isso precisa ser analisado e, de preferência, conversado com seu marido.

 

Benefícios concedidos

"Em alguns países, como Canadá e Estados Unidos, trabalhar meio período ou ir à empresa apenas duas vezes por semana já é realidade para quem tem filhos pequenos", afirma Cristiana D. Baptista, planejadora financeira da Personal – Planejamento Pessoal e Financeiro, em São Paulo. No Brasil, ainda são raras as companhias que viabilizam horários flexíveis, mas muitas já têm um novo olhar para a profissional que se torna mãe. Por isso, antes de dar um passo definitivo, é fundamental conversar e descobrir que tipo de ajuda seu empregador está disposto a oferecer nessa fase. Caso não tenha jeito, comunique sua decisão à empresa apenas no último mês da licença, no contato de praxe com o departamento de recursos humanos. Mas não deixe para a última hora. "Essa é uma postura ética e responsável que a ajudará a manter as portas abertas para o futuro", diz a psicóloga Renata Perrone, gerente de consultoria da Ricardo Xavier Recursos Humanos, em São Paulo.

 

O que pode ser negociado

Antes de pedir demissão, esgote todas as possibilidades, pois manter um vínculo empregatício, de fato, gera conforto e estabilidade. Em primeiro lugar, tente negociar uma licença maior para ficar com o bebê, ainda que seja sem remuneração. Não tenha medo de propor trabalhar meio período ou ir à empresa uma ou duas vezes por semana e, nos outros dias, cumprir as tarefas profissionais em casa. "Quanto mais especializada for sua função e mais alto o cargo que ocupa, maior a chance de encontrar uma boa alternativa para ficar com o bebê sem sair da empresa", afirma Vanessa Alves, psicóloga responsável pela área de seleção e sócia da Inter Talentos Recrutamento e Consultoria em RH, em São Paulo.

 

As motivações reais

Cuidado com os fantasmas que rondam esse período: medo de não ser capaz de cuidar do bebê, de não ser boa como mãe e profissional, de deixar o filho nas mãos de estranhos, de perder o marido por não ter disposição para mais nada... Esses e outros temores típicos do momento são um gatilho para decisões precipitadas. Antes de mais nada, pergunte a si mesma: "Será que realmente quero ser mãe em tempo integral ou procuro uma rota de fuga para não encarar o desafio de conciliar maternidade e carreira?", sugere Sheila. Quanto mais honesta for a resposta, mais chance você terá de se realizar na vida pessoal e também na profissional. Além de sofrer com as próprias dúvidas, muitas mulheres ainda têm de lidar com pressões do marido, dos pais e até dos amigos, que rotulam como "maluca" a ideia de se afastar da carreira para ficar 24 horas com o bebê. Ouvir seu coração e pensar nas suas reais necessidades é o caminho mais curto e seguro para evitar arrependimentos e se sentir plena e firme, seja qual for sua escolha.

 

Sua relação com a carreira

Também é preciso se questionar e responder com sinceridade: "Qual é a minha relação com o trabalho?" Se gosta do que faz e considera a profissão tão importante para o desenvolvimento pessoal quanto a realização como mãe, saiba que é possível conciliar ambos. é só se organizar para incluir a educação e os cuidados com a criança no seu ritmo de vida.

 

O tempo do afastamento

Caso resolva dar uma parada, saiba que, dependendo da área, passar mais de um ano fora do mercado pode diminuir a chance de recolocação. "Setores estratégicos, como planejamento, economia e vendas, requerem profissionais constantemente conectados com o mundo dos negócios", avisa Vanessa. A pressão é menor, porém, para quem trabalha em áreas de suporte, como administração ou marketing, que não exigem um relacionamento tão contínuo com o cliente.

 

Se quer mudar, aproveite

Para quem estava insatisfeita com o trabalho mesmo antes de o bebê nascer, a licença-maternidade é uma oportunidade de se reinventar profissionalmente. Há muitas histórias inspiradoras no site Cia. das Mães (www.ciadasmães.com.br), que funciona como loja virtual e rede social para mães empresárias. A ideia surgiu há um ano, quando a jornalista Daniela Buono, 36 anos, mãe de Clara, 5 anos, de São Paulo, conheceu a violinista Roberta Marcinkowiski, 37 anos, mãe de Julia, 5 anos. Uma se desdobrava para dar conta da rotina puxada em uma emissora de TV, enquanto a outra cuidava das apresentações da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. As duas não estavam conseguindo afinar a carreira e a maternidade e, depois de muita conversa, procuraram a consultoria da advogada Kátia Raele, mãe de Gabriela, 4 anos, para montar uma loja virtual. "Fiquei apaixonada pela ideia e me ofereci como sócia", conta Kátia. Detalhe: os artigos para gestantes e crianças que comercializam são produzidos por outras 58 mães que também resolveram investir na autonomia.

 

Quando quiser voltar

Se você já deu um tempo e agora quer retomar a carreira, a psicóloga Renata Perrone ensina o caminho

• Nas entrevistas, os selecionadores tentarão perceber se você tem condições de conciliar os deveres de profissional e de mãe. Por isso, deixe claro que já se organizou para a volta, falando da sua estrutura de apoio (marido, creche, babá ou avós) para cuidar do bebê.

• Dependendo da área, a disponibilidade para cumprir horários flexíveis ou viajar conta pontos. Se for questionada a respeito, seja honesta sobre suas possibilidades de fazer horas extras e sair da cidade ou do país.

• Quem dá o tom à entrevista é o candidato. Mostre claramente que o desejo de ficar em casa depois da licença foi seu, mas que se preparou durante esse tempo para regressar ao mercado. Segurança ao falar dos seus objetivos é uma postura positiva.

• O ideal é que, mesmo em casa, você não tenha descuidado da aparência e continue com o hábito de se produzir diariamente. Sua autoestima deve estar alta no momento de ir à luta por um novo emprego.

 

Para não ficar para trás

Estar em casa não significa se fechar para o mundo. Depois do segundo mês, você pode planejar uma rotina e voltar a "trabalhar" em casa. Reserve duas horas pela manhã e duas à tarde, por exemplo, e aproveite esse período para pesquisar sobre temas de sua área e se manter atualizada. Não esqueça que mudanças acontecem todos os dias e, se pretende retomar suas atividades dentro ou fora de casa, é importante manter-se informada. Uma boa ideia é aproveitar a pausa para iniciar uma especialização ou um curso de idiomas, investindo no seu aprimoramento profissional. Cursos de reciclagem também podem entrar nos seus planos. Assim, além de se manter antenada com as novidades de sua área, você poderá encontrar um novo caminho para a carreira e, em futuras entrevistas para recolocação, mostrará que seu currículo não ficou no freezer enquanto você cuidava do bebê.

 


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