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Comportamento

A importância do vínculo entre mãe e filho

Deborah Trevizan Atualizado em 16.12.2011
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Getty Images

O pediatra José Martins Filho defende a presença da mãe para o bom desenvolvimento emocional da criança. E que isso não pode ser delegado. Leia mais

A presença da mãe é essencial para a criança nos primeiros anos de vida. E a ausência tanto dela como do pai na educação e na rotina diária pode trazer sérios prejuízos à personalidade do pequeno. Essa é a opinião do pediatra José Martins Filho, professor de pediatria da Universidade Estadual de Campinas, no interior de São Paulo, e que atua como médico há mais de quatro décadas. Martins é autor do livro A Criança Terceirizada (editora Papirus), uma obra polêmica, na qual defende que a criança de hoje está sendo abandonada, e sua educação, delegada a terceiros, da avó à escola ou creche. E que isso independe da classe social. No momento, o pediatra está finalizando seu próximo livro, no qual deve continuar esse debate. A obra tem como título provisório A Difícil Arte de Educar no Século XXI.

 

José Martins Filho esteve, no final de novembro, no 3ª Conferência Internacional Sobre Humanização do Parto e Nascimento, que aconteceu em Brasília e teve o apoio do Ministério da Saúde. No evento, o pediatra participou de uma mesa-redonda sobre o vínculo entre mãe e filho. E, durante a conferência, ele conversou com a nossa reportagem sobre essa e outras questões que circundam o universo materno.

 

1. Em seu livro A Criança Terceirizada, o senhor traça um histórico das crianças no mundo. E no Brasil, como o senhor vê a criança hoje?

 

A trajetória das crianças na história da humanidade é semelhante em todas as partes do mundo. Eu falo no livro, inclusive, das crianças escravas, das indígenas e, principalmente, no momento atual, das faveladas e marginalizadas na rua. A criança, infelizmente, não tem produção econômica, embora seja o futuro da humanidade de qualquer país e os investimentos para cuidá-las são muito poucos. Se o que se gasta em guerras e na fabricação de armas pelo mundo fosse gasto em educação e cuidados com elas, seguramente teríamos uma perspectiva muito melhor para todas elas.

 

2. Em relação às nossas crianças, do mundo moderno, qual o maior problema que enfrentam?

 

Os problemas divergem. Há locais em que a fome, a falta de higiene, a ausência de escolas e de serviços de saúde são inacreditáveis, vide o Haiti, a África e alguns países do Oriente mais pobre. Mas, no mundo dito ocidental e, principalmente, nos países em desenvolvimento e desenvolvidos, como esses problemas são em muito menor número, o que vemos é a falta de foco no cuidado e na educação das crianças, principalmente por parte dos pais e familiares. Elas são, cada vez mais, terceirizadas e legadas a posições secundárias e terciárias na recepção de atenção, afeto, carinho, amor e cuidados. É como eu digo em meu outro livro, o Cuidado, Afeto e Limites (editora Papirus). Essa ausência de cuidados e de afeto determina problemas graves e sérios de educação e de formação da personalidade.

 

3. E os pais?

 

O mesmo eu diria dos pais. Tudo depende dos locais em que vivem e a situação de miséria, pauperismo, falta de preparo intelectual e de formação pessoal e psicológica para atuar. Claro que nem sempre o amor pelas crianças depende de preparo intelectual, mas isso as ajuda na estruturação da família. O pior é que adultos que sofreram abandono e terceirização na sua infância tendem, obviamente, a ter mais tendência a abandonar, a terceirizar seus filhos. É um terrível ciclo vicioso.

 

4. Não deveria ser diferente?

 

Essa não é uma informação científica. É uma impressão minha. É a mesma questão da violência: pais violentos, pessoas agressivas frequentemente sofreram abusos e violência na infância. É paradoxal, mas parece ser algo que precisa ser mais bem estudado.

 

5. O senhor compara, em seu livro, a situação das crianças que têm pai, mãe, família, uma considerável condição financeira e social com crianças que vivem nas ruas, sujeitas a maus-tratos. Por que essa comparação?

 

Comparo porque essa é a realidade da sociedade contemporânea, cada uma com suas considerações, complicações, problemas e dificuldades. Ninguém escapa à falta de amor, incentivo, apoio, afeto, seja rico ou pobre. Claro que uma vida miserável, até certo ponto, pode facilitar o abandono. Mas existem, como digo no meu livro, as gaiolas de ouro: crianças ricas, aprisionadas, sem carinho e sem a presença dos pais, em um mundo que as transforma em miniexecutivas. É terrível essa situação. Por que será que jovens de classe média e alta estão cometendo crimes às vezes muito mais violentos do que os de classe menos privilegiada? O que será que está faltando na sua formação infantil? Estão terceirizando barbaridade aos filhos. Algumas creches estão até oferecendo pernoites para as mães que viajam ou estadias de vários dias para que mamãe e papai possam curtir as férias sossegados. Na verdade, a terceirização existe em todas as classes sociais e cada uma delas com suas peculiaridades.

 

6. Mas sabemos que as mães vivem culpadas. Culpam-se por não se dedicarem, suficientemente, em termos de qualidade e quantidade, aos filhos, não se concentram no trabalho porque estão com a cabeça em casa e ainda têm que ser boas profissionais, esposas, mulheres, lindas? Não é uma carga muito pesada sobre as mulheres?

 

Sim, é uma carga grande, que sempre, aliás, existiu, só que não se falava abertamente sobre isso e eu não culpo jamais as mulheres, principalmente as mães. O problema está em uma sociedade hedônica, narcisista, consumista, em que as pessoas vivem para gastar, comprar, pagar contas, às vezes para sobreviver porque não têm escolhas. Mas muitas vezes porque não param para pensar onde e como querem chegar a essa correria do dia a dia. O que proponho é uma tomada de consciência, um diagnóstico para que as pessoas possam pensar um pouco melhor na vida, no dia a dia e para que trabalhem, sim, se precisam, mas priorizem a vida com seus filhos. Pois o futuro deles tem muito a ver com tudo isso. Mas não é o que eu digo que pesa nos ombros das mães. É a situação de uma sociedade injusta e problemática, que aceitamos e não denunciamos. O meu livro é uma denúncia a um mal-estar da sociedade moderna, que está abrindo mão de cuidar de sua prole, de seu futuro, que são seus filhos. Não quero nenhuma mãe se sentindo culpada, mas que elas cobrem dos pais, dos outros familiares, que peçam ajuda, se precisam, e que lutem por uma melhor licença-maternidade, como há em alguns países desenvolvidos, de um e até de dois anos e, às vezes, até para os pais. E também me surpreende e angustia aquela pessoa que tem um filho e, mesmo podendo ficar com ele nos dois primeiros anos, não o faz, não o amamenta, inventa compromissos que não precisa só porque não sabia que a maternidade implica em compromisso e em deveres complexos. Não discuto a mãe que trabalha para sobreviver porque o pai, sozinho, não consegue pagar as contas da casa. Mas discuto com as famílias que têm dois carros, quatro celulares, cinco aparelhos de televisão etc., mas não podem ficar com seus filhos nem um instante, saem de casa às 7 horas da manhã e voltam às 8 da noite. Isso é uma realidade muito triste.

 

7. Como, então, a mãe que precisa desse apoio, dessa “terceirização”, pode usar dessa rede sem ser escrava da situação e continuando como protagonista da relação mãe e filho?

 

Trabalhar é possível. O que é preciso é priorizar a questão da criança, é dar prioridade mesmo. Se ela está doente e com febre, acompanhe-a ao médico, fique com ela, peça um atestado, queira progredir mais na carreira do afeto e do amor com seus filhos do que na carreira pessoal no trabalho. É difícil, eu sei, mas me angustia ver na mídia anúncios, como um que acabo de receber, de creches que se oferecem para cuidar 24 horas das crianças, ficar com bebês de 1 ano ou 2, enquanto as mães viajam e ficam um mês fora. Uma dona de creche me contou que há mães que dizem “olha, quero pegar meu filho à noite, de banho tomado, pijaminha, já jantado e melhor se já estiver dormindo”. Será que essas pessoas sabem o que estão fazendo? Afeto faz crescer, desenvolve o corpo e o espírito. Ter filhos é uma coisa séria e de responsabilidade. Por que então ter filhos se não se pode cuidar deles? Claro que há exceções, mas vamos fazer o possível para colocar as coisas no devido lugar e entender o que estamos fazendo com nossos pequenos porque nenhuma outra mãe na natureza deixa de cuidar pessoalmente de seus filhos até que eles cresçam e se desenvolvam para a independência.

 

8. E o pai? Qual o papel dele em toda esta história?

 

O mesmo da mãe, só que ele não engravida, não pode amamentar e tem que estar sempre, principalmente no primeiro ano de vida, apoiando a mãe. E é a partir dessa idade que ele, além de apoiar, ajudar a mãe, começa a ter um papel fundamental no desenvolvimento emocional do bebê. Ele é fundamental desde a gravidez. Mas não adianta deixarmos de perceber que a maternidade é algo muito especial e que o pai vai entrando aos poucos no mundo da dupla “mãe e filho”. Em vários países, o pai também tem licença-paternidade. Em alguns, ele pode, no segundo ano depois do parto, cuidar do filho e a mãe voltar ao trabalho. A dupla mãe e pai é fundamental. Aliás, tenho visto em muitas ocasiões de minha vida profissional pais muito dedicados, mesmo quando a mãe, infelizmente, não está presente como se gostaria.

 

9. Como, então, ser uma mãe “suficientemente boa”?

 

Amando seus filhos, tendo consciência do seu papel, chamando o companheiro para participar e distinguindo o que é real, necessário e o que é supérfluo. Amar só se aprende amando, não é verdade?


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