“Por que eu incentivo meus filhos a ajudarem nas tarefas de casa”

Mãe de dois meninos, Paloma Fernandes entende que é com pequenas ações na infância que se cria um mundo menos machista.

Bióloga, youtuber e professora, Paloma Fernandes tem 28 anos e é mãe solo de dois meninos: Bernardo e Rodrigo. É por acreditar que sua grande missão é educá-los para um mundo mais justo e menos machista que ela os incentiva a não acreditar em “coisas de menino” e “coisas de menina”. Confira o depoimento dessa mãe!

“A maternidade surgiu na minha vida de maneira inesperada. Um descuido e de repente tudo mudou. Fui mãe do Bernado com 20 anos de idade, estava no primeiro ano da faculdade, minha vida era agitada e cheia de muitos compromissos, então descobrir uma gravidez naquele momento foi um misto de sentimentos. Logo depois, aos 24, me tornei mãe do Rodrigo e meu universo se transformou por completo. Eu me lembro de desejar isso desde muito jovem, porém os planos se adiantaram e tive que assumir muitas responsabilidades em um curto espaço de tempo, o que foi desafiador mas muito recompensador ao mesmo tempo.

Ser mãe para mim era algo natural, todas as tarefas com um filho seriam fáceis e uma aventura recheada de muitas descobertas, afinal eles saíram de mim, o que poderia dar errado? Doce ilusão. O desafio de criar outro ser humano é, sem dúvida, o maior da vida de qualquer pessoa e hoje eu entendo isso perfeitamente. Sou mãe de meninos – o que, aliás, sempre foi um desejo – talvez por me identificar melhor com esse universo, nunca pensei que seria mãe de uma menina. Como mãe deles, sinto que tenho uma grande missão: educá-los para o mundo, não para esse mundo, mas para um mundo mais justo e menos machista.

Vivi com os meus pais até os meus 19 anos e, desde sempre, aprendi que nós, mulheres, precisamos lutar todos os dias contra o que nos é imposto e que se quisermos ser reconhecidas por aquilo que fazemos, temos que conquistar nosso espaço. Então, mesmo sendo a única filha da casa, eu e meu irmão sempre desempenhamos os mesmos papéis nas tarefas domésticas, isso sempre ficou muito claro para nós e acho que influenciou a maneira como eu penso em qual tipo de educação eu quero dar para os meus filhos e como quero criá-los. Acredito que somos fruto do meio em que vivemos, então, se eu desejo esse mundo de igualdade e respeito para eles, preciso mostrar o quão importante é cumprir obrigações que não são de um gênero específico, mas sim de todos que convivem naquele espaço e devem zelar por ele.

Vivemos numa sociedade extremamente machista onde isso é ‘coisa de menino’ e aquilo é ‘coisa menina’ e eu confesso que aqui isso não existe. Eles sempre tiveram que cumprir algumas tarefas, claro que de acordo com a capacidade deles, mas sempre ajudaram com os brinquedos, organização do quarto e das próprias coisas. Conforme eles foram crescendo, algumas coisas foram mudando na lista de tarefas e eles se adaptaram bem por isso sempre ter feito parte da rotina dos dois.

Eu e o pai deles somos separados, mas por termos uma relação próxima, zelamos pela educação deles e temos em mente que eles precisam cumprir as tarefas do dia a dia, já que eles fazem parte da casa assim como eu. Então, mesmo quando eles estão na casa do pai, continuam fazendo coisas como organizar as próprias roupas ou fazer a lição de casa.

Depois que me tornei mãe solo, percebi que estimulá-los a me ajudarem com as tarefas de casa facilitaria a nossa vida agora a três e que seria uma boa oportunidade de mostrá-los que podemos nos ajudar, para tornar as tarefas do dia a dia menos cansativas para todos nós.

Apoio a responsabilidade na infância. Incentivá-los a serem mais responsáveis traz benefícios importantes para o desenvolvimento da personalidade e da autoconfiança das crianças. Eles se sentem parte do meio em que estão inseridos e aprendem valores importantes como igualdade de gênero, mesmo que de maneira indireta. Não preciso necessariamante dizer a eles que a limpeza da casa não é só obrigação da mamãe, posso mostrar as razões pelas quais eles devem ajudar, já que todos moram ali juntos. Todos participaram da bagunça, então por que não organizarmos juntos?

Todos os dias eles aprendem coisas novas na escola, com os amigos, e eles estão numa fase, principalmente Bernardo, o mais velho com 6 anos, em que questionam o mundo e o que está à sua volta o tempo todo. Outro dia estávamos fazendo a tarefa do colégio juntos e ele se recusou a pintar um desenho com o lápis cor de rosa e, quando eu o questionei, ele me disse que uma amiguinha da sala disse que aquele lápis só pode ser usado pelas meninas e que eles, os meninos, deveriam usar o azul, o verde ou o amarelo. Naquele momento eu pensei que por mais que eu me esforce para fazê-los entender que o lápis cor de rosa é só uma cor e que bonecas e carrinhos são só brinquedos, ou ainda que a louça pode ser lavada por qualquer pessoa, eles ainda vão vivenciar essas situações lá fora e eu espero que eles saibam que podem ser e fazer o que eles quiserem independentemente de serem homens.

Acredito que o preconceito, a violência não só contra a mulher, mas qualquer tipo de violência, ou o próprio bullying, são combatidos quando esses assuntos são desmistificados. É preciso falar sobre isso com as crianças, respeitando, claro, o limite de entendimento deles. É preciso bom senso e consciência, mas só se constrói uma sociedade menos intolerante com informação e respeito, e isso deve começar na infância”.

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