Peça de teatro infantil traz história de amor entre duas mulheres

Inspirada no livro de Janaína Leslão, a exibição reforça a importância de falar com as crianças e os adolescentes sobre homossexualidade e respeito.

Lançado no final de 2015, o livro infantojuvenil “A Princesa e a Costureira” apresenta um conto de fadas diferente do que estamos acostumados a ver. Na história, a princesa Cíntia não se apaixona pelo príncipe a quem estava destinada a se casar, mas, sim, pela costureira responsável por fazer o seu vestido de noiva. Contrariado com a notícia, o pai da protagonista a tranca na torre de um castelo, mas com a ajuda do príncipe, da sua irmã e da Fada Madrinha ela tem um final feliz.

Também foi em 2015 que a obra se estendeu e se tornou uma peça. Produzida pelo Teatro da Conspiração de Santo André, a apresentação recebeu o apoio de “projetos de promoção das manifestações culturais com temática LGBT” e estreou no início de 2016. Ela ainda está sendo exibida na capital paulista e reforça a importância de falar com as crianças e os adolescentes sobre homossexualidade e respeito à diversidade. Conversamos com a psicóloga Janaína Leslão, escritora de “A Princesa e a Costureira”, sobre o projeto. Confira o bate-papo:

Como surgiu a ideia de escrever um livro que contasse a história de amor entre duas mulheres?

Janaína Leslão (J.L.): Em 2007, eu trabalhava com um grupo de adolescentes e falávamos sobre várias coisas como sexualidade e gravidez na adolescência. No final do ano, a gente tinha que apresentar um esquete de teatro. Eu fazia a parte mais teórica e dois atores, que também estavam no projeto, cuidavam da comunicação. Então nós discutimos alguns pontos para saber qual história eles queriam adaptar. E foi quando eu me dei conta de que a gente falava de final feliz e contos de fadas, mas quando pensava no relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo, não tínhamos referências na literatura – apenas aquelas homofóbicas, sendo passadas na televisão, em livrinhos de piada. Em 2009, eu acabei escrevendo esse conto e comecei a procurar editoras para publicá-lo, mas só achei em 2015. Como o grupo que eu trabalhava sabia que eu não estava conseguindo publicar a minha história, eles disseram que, quando surgisse um edital de uma peça de teatro, montariam o espetáculo. Também foi em 2015 que surgiu esta oportunidade e, nesta segunda-feira, 15, recebemos o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte como melhor peça de teatro infantojuvenil que fala sobre diversidade.

E a obra abrange qual faixa etária?

(J.L.): Uma criança que tem uma boa leitura consegue lê-la a partir dos 7 ou 8 anos. Mas o livro também pode ser contado livremente para os pequenos de todas as idades. A ideia é que ele traga inclusão, para que eles vejam que não é só o mundo homofóbico que é apresentado.

Além de falar sobre a homossexualidade, a história traz uma personagem negra. Essa foi uma escolha sua ou do ilustrador?

(J.L.): Foi uma decisão minha. Eu demorei muito tempo para conseguir uma editora. Quando consegui, não sabia se conseguiria ter outros livros publicados. Então eu pensei: quero colocar todas as pessoas que estão excluídas do conto de fadas nessa história. Eu encomendei uma princesa negra e a irmã dela é uma personagem com deficiência, que não tem uma das mãos. Tem essas questões para que muitas crianças e adolescentes se sintam incluídos.

Como os pais podem conversar com os filhos desde cedo para que eles aprendam a respeitar a diversidade?

(J.L.): A gente não explica que pessoas de sexos diferentes se amam e que a família só é família porque tem papai, mamãe e filhinhos. As pessoas se amam e pronto. Não existe um “grande evento” para dizer que papai e mamãe são de sexos diferentes e é só por isso que nos amamos e formamos uma família. Então não precisa ter cerimônia para dizer que a prima namora uma outra mulher e que elas vão se casar. Famílias são formadas por vínculos afetivos e pronto. Igual para todo mundo. O importante é tratar com naturalidade e tranquilidade porque o preconceito está na cabeça dos adultos e as crianças aprendem com eles. Se, por ventura, ela crescer e gostar de alguém do mesmo sexo ou ter um amigo assim, vai se lembrar da criação que teve. As pessoas pensam muito que a gente está incentivando a homossexualidade, mas isso não é verdade. Falamos de respeito e igualdade e estamos evitando que essas crianças sofram com o preconceito que vem, muitas vezes, de dentro de casa. A proposta do livro e da peça é que os pais consigam, por meio desse material lúdico, ter um apoio para conversar com o filho.

E como a escola pode tratar esse assunto com as crianças?

(J.L.): Acho que ela tem um papel fundamental na luta contra a homofobia porque, muitas vezes, é reforçado no colégio o estereótipo de gênero e as crianças acabam reproduzindo essas coisas – de que menina não pode jogar bola ou que o menino que chora é gay, por exemplo. Essas instituições podem trabalhar para que os estudantes não sejam preconceituosos.

Como você espera que os pais recebam as suas obras?

(J.L.): Espero que eles possam se apoiar para conversar sobre a diversidade das pessoas e o respeito às diferenças. Para alguns esse tema é bem complexo e uma história pode descontrair e ajudar no diálogo. Muitos pensam que esses assuntos de famílias diversas só deveriam ser abordados com quem tem mais de 18 anos. Mas não é verdade que crianças e adolescentes não sejam comunicados sobre a temática desde muito cedo. Por exemplo, quando um menino é mais sensível e é chamado de “viadinho” pelos colegas, estamos comunicando que isso é algo para se ter vergonha. Ou quando nos programas de humor a população LGBT e seus relacionamentos são retratados de forma caricata, estamos dizendo que essas relações são motivo de piada. Ou seja, abordamos o tempo todo a diversidade com crianças e adolescentes, mas dizendo que isso é ruim, mau.

Você é mãe de um menino de 4 anos. Como procura passar esses valores para ele?

(J.L.): O meu filho sabe que pessoas do mesmo sexo podem namorar, casar e que a família se compõe de forma diversa, mas que isso só os adultos podem fazer. Esses dias ele veio e disse: ‘mamãe, a fulana está com a roupa do batman’. E eu respondi: ‘que legal! Todo mundo pode usar a roupa que quiser e gostar de super-heróis’. Então a gente vai desmistificando essas coisas e eu tento não reforçar os estereótipos de gêneros.

Assista ao trailer do espetáculo:

​Próximas apresentações na cidade de São Paulo:

  • 20 e 21 de maio, às 16h: Teatro Cacilda Becker
  • 28 ​de maio, às 15h: ​O​cupação SESC ​ Parque ​ Dom Pedro II
  • 24 e 25 ​ de junho, às 16h​: ​I​taú ​Cultural

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