“Como encarei as complicações na gravidez e no pós-parto”

Depois de um parto de emergência decorrente de uma rara síndrome, Carolina Stefano ainda teve que lidar com uma alergia da filha e com a fibromialgia.

Carolina Stefano, hoje com 36 anos, passou por um grande susto na primeira gravidez ao ser diagnosticada com a síndrome de Hellp, uma complicação rara que acontece na gestação, geralmente a partir do agravamento do quadro de pré-eclâmpsia. Morando nos Estados Unidos, longe da família, Carolina ainda teve que lidar com uma inesperada alergia que sua pequena tinha ao leite materno e foi descobrir na alimentação uma forma de mudar isso. Hoje, mãe da Ana Beatriz e da Isabella, ela leva uma vida mais saudável e com hábitos alimentares renovados. Confira essa história!

“Aos 21 anos descobri por acaso que dor de cabeça, tontura e irritação eram sinais de hipertensão. O estresse do trabalho e frustrações me faziam muito mal, porém por ser inconstante, não tomei nenhuma providência. Em 2006, me casei e vim morar nos EUA deixando muita coisa para trás: família, amigos, trabalho… Foi então que percebi que o estresse era um dos desencadeadores dos meus problemas com a pressão. Aqui em Wisconsin a vida é bem diferente do interior de São Paulo… Tudo quieto, longo inverno, todo mundo fica na toca por meses. É bem deprimente se você não arruma nada para fazer. Aqui vivenciei saudade, solidão, baixa autoestima, tristeza que não tinha explicação. Tinha a sensação de estar em um buraco sem fundo.

Essa situação mudou a partir do momento que comecei a trabalhar um ano depois. Três anos se passaram e já adaptada comecei a considerar a gravidez. Foi só pensar que aconteceu. Felicidade total! Passei muito bem os primeiros seis meses, pressão ótima, nada de enjoos, apenas inchaço nos pés, mas o médico dizia que era normal.

No sétimo mês, em uma visita de rotina, o médico identificou presença de proteína na urina, o que considerou normal para o terceiro trimestre, mas gostaria de me ver em 15 dias. Eu tinha uma viagem marcada para o Arizona, perguntei se poderia viajar de avião e ele me autorizou. Lá fomos nós, mas mal sabia o que estava por vir.

Logo que chegamos ao hotel comecei a ter uma dor na virilha que achei que poderia ser da viagem. A dor incomodava muito e tomei um remédio. Aos poucos apareceu uma dor nas costas, bem na altura do pulmão, achei que era por conta da cama ou da viagem. Evitei ao máximo tomar mais remédios, mas cada dia que passava a dor ficava mais intensa. Chegou ao ponto que não havia mais posição para ficar sentada, nem deitada, nada ajudava.

Depois de cinco dias, voltamos para casa e era evidente que algo estava errado, minha cara de dor não negava. Foi então que uma colega me encorajou a ir ao médico logo que saísse do trabalho. Passei pelo pronto socorro, meu médico não estava no consultório, fui então atendida por enfermeiras que indicaram que fosse para casa e ficasse em repouso absoluto até o final da gravidez por conta da pressão alta.

Dois dias de cama com muita dor, tive retorno ao médico e, quando entrei lá, tive a impressão de que era isso aí, minha gravidez tinha chegado ao fim. A proteína na urina estava altíssima, pressão 168 x 100. Fui internada e a partir daí tudo progrediu muito rápido.

Quando fui diagnosticada com a síndrome de Hellp (que descreve rapidamente a síndrome laboratorial que acompanha a eclâmpsia no auge da sua gravidade), foi necessário em caráter de urgência que eu fosse transferida para um hospital muito maior na região de Milwaukee, onde tinha mais recursos com médicos especializados e, também, uma unidade neonatal (NICU). Lembro que a equipe médica já me esperava para o pré-operatório. Nesse momento coloquei tudo nas mãos de Deus, pois você já não escolhe mais nada e deixa que façam o que tiver que ser feito, já que o mais importante era sermos salvas.

Foi tudo muito rápido, 10 minutos depois a Ana Beatriz saiu da sala em uma incubadora, minúscula mas saudável, sem sequer precisar de equipamentos para respirar. A alegria no quarto era intensa, Skype rolando com nossas famílias no Brasil e tudo mais.

Logo que voltei à consciência, a enfermeira colocou uma bomba no meu seio para extrair o leite e com uma seringa coletou o colostro que foi encaminhado ao setor neonatal. Meu marido cuidou da Bia desde o primeiro instante, sempre trazendo detalhes do seu progresso enquanto eu estava na cama.

No quinto dia tive alta e voltei para casa, mas a Bia continuou internada porque ainda era muito pequena e não tinha força para mamar, ainda alimentada por sonda. Todo leite que eu produzia era encaminhado para o hospital e lá era enriquecido com uma fórmula que ajudaria a acelerar o ganho de peso.

No décimo dia de UTI ela já mamava no peito, crescia e mostrava que estava pronta para ir para casa, mas aí mais uma surpresa aconteceu. Foi encontrado sangue na fralda e depois de muita pesquisa descobriram que o problema era a proteína passada pelo leite que eu ingeria e essa proteína irritava as paredes do intestino e provocava sangue, diarreia e muitos gases.

A pediatra então retirou o meu leite da alimentação da Bia e disse que dali pra frente ela só tomaria fórmula. Fiquei muito brava. Como podia ser possível o meu leite estar prejudicando minha filha, sendo que todos nós sabemos que a melhor coisa que uma mãe pode fazer para seu filho é amamentá-lo? Ela estava me proibindo de fazer isso sem ao menos me dar a opção de fazer uma dieta restrita. Foi aí que entendi que quando o seu filho está no hospital, você não tem nenhum poder de decisão. Cinco dias depois, a Bia melhorou e fomos todos para casa. Parecia um sonho!

Decidida a amamentar, me transformei em uma leoa e assumi a responsabilidade de ir contra a orientação médica e comecei imediatamente uma dieta restrita, não ingerindo nada proveniente do leite animal e soja. Aprendi muito! Criei o hábito de ler rótulos e enquanto fazia isso descobri quantos ingredientes e aditivos são incorporados nas comidas industrializadas. Com muito amor e força de vontade, aprendi a me alimentar para poder alimentar a minha filha e deu certo! Com um ano de vida a Bia já tinha superado a intolerância.

Na segunda gravidez não tive problema algum, foi tudo maravilhoso. Isabella era saudável, tranquila, tudo ótimo. Voltei a trabalhar, mas no fundo queria estar em casa com minhas filhas. O trabalho, filhos, casa e marido se tornaram um grande problema. Sempre correndo contra o tempo sentia que não fazia nada direito. Nessa fase, a distância da família passou a pesar muito. Mais triste, depressiva, chorava sem saber o porquê. Foi então que uma dor inexplicável apareceu nas minhas costas. Essa dor aos poucos começou a ‘caminhar’ pelo meu corpo. Isso me impossibilitava de fazer as tarefas mais fáceis na minha casa, como dobrar roupa, limpar o chão etc. Eu só chorava e foi aí que resolvi deixar o trabalho para me cuidar e, assim, cuidar da minha família.

Depois de muita pesquisa e visitas a diversos médicos, fui diagnosticada com fibromialgia. Esse problema afeta muitas mulheres e, o pior, não existe um teste ou exame que feche um diagnóstico. Mas o certo é que o corpo e a mente são afetados. Tentei de tudo: terapia, fisioterapia, remédios, pilates, acupuntura para conseguir administrar a dor… A terapia que me ajudou a ver as coisas com olhos menos críticos, aceitar ser mãe e dona de casa, que aliás é um trabalho tão legítimo quanto qualquer outro. Remédios para depressão me ajudaram a sair do buraco. Pilates terapêutico específico me ajudou a retomar a mobilidade.

Um dia, um médico vagamente sugeriu que eu pesquisasse a relação entre alimentação e inflamação. Ele não podia me orientar por não fazer parte da medicina tradicional. Mergulhei de cabeça no assunto, usando o meu próprio corpo como experimento. E minha vida mudou! Hoje tenho muito mais disposição, meu humor e concentração se estabilizaram. Tenho a sensibilidade de ouvir o meu corpo e me antecipar às crises. Não tenho dúvida de que minha saúde está diretamente ligada à alimentação. O melhor de tudo é ver minha família espontaneamente mudar os seus hábitos a partir de minhas referências”.

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