O filho da vizinha

Comparar é normal desde a gravidez. Compreender que algumas funções que parecem simples carregam forte componente emocional e respeitar o tempo de cada criança são as melhores formas de prepará-la

Comparando barrigas e bebês
As mães normalmente gostam de compartilhar experiências desde a gravidez. Esta troca é saudável e faz com que encarem com naturalidade o que estão vivenciando, aprendendo umas com as outras. Comparam o tamanho da barriga, os sintomas, os desejos de grávida. Quando nascem os bebês, passam a compará-los também. Um é mais gordinho, o outro mama mais, logo vem um já engatinhando e, de repente a mãe se vê incomodada com a evolução que o filho da vizinha apresentou e seu filho ainda não.

Por que comparamos? E por que nos abalamos quando a comparação não favorece? A psicoterapeuta especialista em Psicologia da Gestação, Parto e Maternidade Bela Josie Zechinelli, explica: "vivemos em um mundo de competição e excesso de estímulos. Hoje é comum ouvir mães relatando que seu bebê andou aos 9 ou 10 meses, cada vez mais precocemente. Há mais pressão para iniciarem tudo cedo e as mães traduzem isso para o desenvolvimento de seus bebês, achando que devem se enquadrar em tabelas".

Paula Lisboa, 34 anos, atriz, mãe de Teresa, 6 anos e João, 3 anos, confirma que comparar é inevitável: "A comparação existe o tempo todo, gostamos tanto de acompanhar e comentar as conquistas dos filhos que, sem querer quando vamos ver, lá estamos nós comparando! Isadora é filha de uma amiga e 5 meses mais velha que a minha. Até hoje lembro o dia em que a Teresa finalmente conseguiu andar acompanhando a amiga já desenvolta. Acredito que comparamos tentando encontrar em nosso bebê traços que se destacarão mais."


Quando mãe e filho estão prontos
Se a maior parte das crianças anda por volta de um ano e o seu filho ainda não começou, será motivo de preocupação? Ou pior, está fazendo algo errado, que impeça que o seu vá tão bem quanto os outros? Bela desmistifica: "apesar de haver um parâmetro que diz que em torno dos 12 meses o bebê começa a tentar caminhar, precisamos lembrar que isso não uma regra, pois cada um tem um tempo de maturação fisiológica e emocional".

Algumas funções que parecem simples para nós são grandes conquistas para a criança e carregam um componente emocional. Andar, por exemplo, é um momento de autonomia, em que o bebê precisa sentir segurança para se afastar de sua mãe. Bela detalha: "A dupla deve ser sempre olhada em conjunto nos primeiros 3 anos, pois é a partir da mãe que o bebê cria referências. A pergunta que a mãe deve fazer quando se aflige ao perceber que seu filho está em ritmo diferente dos demais é: que expectativas projeto sob o desenvolvimento? Assim podemos perceber insegurança, medo e outros sentimentos que afetam o quanto estão prontos para mudanças". Os primeiros passos são mesmo muito significativos, como explica Bela: "É importante saber que a natureza tem um ritmo próprio. Engatinhar é tão necessário quanto andar, cair no chão e tentar levantar. São etapas que ajudarão a sentir o mundo e criar sua base como indivíduo".


Uma toca piano, a outra desenha
Paula passou por isso com os filhos. "Nenhum dos dois andou no primeiro aniversário, ambos começaram depois da maior parte das crianças ao nosso redor. Por outro lado, falavam mais que a maioria". A observação de Paula é uma boa forma de relaxar nas comparações, pois a mãe consegue notar que, se em algum aspecto seu filho ainda não evoluiu, em outro já está bem seguro. Alguns têm facilidade no desfralde ou na alimentação autônoma, outros no sentar ou no falar, por exemplo.

Com o tempo os intervalos de meses, que parecem enormes no início, vão perdendo a força: "Hoje as diferenças estão diminuindo e as personalidades aparecendo. Isadora ensina Teresa músicas no piano, pois tem uma habilidade ímpar com os instrumentos musicais e Teresa aprimora os desenhos da Isadora, que se encanta com os traços caprichados da amiga "mais nova", conclui Paula.

Dra. Tania Sih (CRM: SP 0020229)

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